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O deserto, ou o observador observado.


O observador é aquele que se abre para o Mundo e o esclarece. Ao dar-se conta, o observador vê-se como observado e esclarece o seu estar-no-mundo. Daí a interrogação sobre o ser que é desse modo surpreendido. A nossa empresa é uma experiência no vazio: consiste em reduzir a densidade do Mundo na tentativa de captar, nessa leveza, o observador observado.

Considera-se geralmente o corpo animal como um ente do mundo material: uma carcaça, uma máquina fisiológica.

O observador observado é, segundo a Metafísica, uma alma, uma sombra alienígena que se instala num “corpo”, à nascença do indivíduo, e que se liberta deste na altura da morte, condenando-o à dissolução e dispersão da matéria.

Sócrates, o arauto da Metafísica, decretou a espiritualidade e imortalidade da alma. Pensou-se, durante muito tempo, que Sócrates havia enaltecido o humano; pensa-se, hoje, que apenas aviltou o corpo.

De acordo com o pensamento pós-socrático, a alma vive no mundo material encarcerada no corpo, mas não é do Mundo. De acordo com Platão, que desenhou os elementos chave da arquitectura da Metafísica, e que, por esse facto, veio a condicionar todo o desenvolvimento posterior do pensamento ocidental, o mundo que se reconhece é uma réplica imperfeita do mundo ideal que a alma revive por reminiscência de uma vida passada.

Quando a Metafísica ocidental cruzou os seus genes com o Monoteísmo semita gerou o pensamento cristão medieval, um monolito assente na congruência das duas vias estabelecida por uma cadeia de analogias. O mundo ideal hiperurânico era, afinal, o paraíso perdido; o povo eleito era, afinal, um rebanho de almas descarnados à procura de descanso e da contemplação na eternidade.

Descartes, no alvor da modernidade, sanciona a ruptura final considerando o mundo material e a Alma como duas res distintas, definidas respectivamente como extensão e cogitância. A Alma adveio consciência de si renitentemente resistente ao teste da dúvida metódica.

Para a metafísica a questão resume-se à seguinte fórmula: a Alma odeia o mundo material e anseia pelo regresso ao Paraíso.

A crítica de Nietzsche à Metafísica e a fundamentação científica do pensamento naturalista ensaiada a primeira vez por Darwin provocaram duros golpes na concepção metafísica do Mundo. No meio dos estragos, Freud e Marx esforçam-se por salvar o que puderem. Ambos se dizem materialistas: Freud assenta no materialismo biológico e procura demonstrar a origem da alma em impulsos dinâmicos primordiais anteriores ao aparecimento da consciência; Marx fundamenta-se no materialismo social e económico e procura remontar a parábola do povo eleito e caído em lenta progressão para o paraíso prometido. Apesar de materialistas, são judeus a recuperar os mitos da criação, do pecado original e da redenção.

Deixemo-nos, por ora, de Marx e concentremo-nos na metafísica da Alma restaurada por Freud. A Alma é o resultado de pulsões básicas inconscientes e em conflito no mundo. Não é um Eu (Ego), é um Isso (Id), um ser impessoal e sem consciência de si a debater-se no mundo pela satisfação de necessidades, conduzido pelo princípio da obtenção do prazer ou, melhor dizendo, da quietação da dor (libido). A consciência é um epifenómeno resultante do embate das pulsões inconscientes com o mundo. À consciência impõe-se o Eu Ideal (Superego), princípio super-ordenador que se esforça por socializar a besta desordenada e em fúria contra um mundo que lhe resiste. A essa estrutura anímica corresponde um conjunto de sistemas simbólicos que se exercem numa esfera autónoma da esfera biológica, a Cultura. A partir daí a Alma tem dois caminhos: transfigurar ou reprimir as pulsões, conduzindo a comportamentos disfuncionais, neuróticos ou psicóticos; sublimar as pulsões originando a criatividade e a obra de arte. É a restauração do mito judaico-cristão do castigo versus redenção lido na óptica da metafísica, ou seja como um conflito entre a razão e o instinto. Mais tarde, Freud vem a enunciar um novo tipo de impulsos responsáveis por reconduzir o indivíduo à vontade de morrer (thanatos). É a pulsão do retorno ao estádio primitivo: através do útero ao túmulo e, daí, ao nada.

Fechado o anel que iniciámos em Sócrates e fechámos em Freud que conclusões retiramos? Apenas uma: a Metafísica propagandeia o ódio pelo corpo e incita ao desejo da sua dissolução no nada.

Ora, o que vemos quando vamos para o deserto? O que vemos quando surpreendemos o observador?

Darei aqui apenas uma súmula das ideias a que cheguei. A sua explanação detalhada está feita noutro local não se destinando à publicação em blogue.

1. Hiperconsciência do corpo e dissociação do Eu. A exiguidade do Mundo espevita a consciência do Corpo. Incremento das halucinações, da fome e do sono. Em extremo isolamento e em monótona uniformidade, o delírio psicóide. A vida é um sonho acordado. O imaginário é conduzido por diferentes e divergentes personalidades.

2. Manutenção da linguagem e dos outros códigos simbólicos. O Logos é uma estrutura a priori da experiência. A conversação com o interlocutor imaginário assemelha-se à oração, ao Caminho da Perfeição (ver Teresa de Ávila).

3. Cada grão de areia contém a totalidade do Mundo.

4. A tomada de consciência da finitude e do ser-para-a-morte aumenta o apreço pela gratuidade da vida. A vida como absurdo (abs urdum), origem e finalidade incausadas. O sentido da vida é assumir-se livremente como abertura para o Mundo. O sentido da vida passa a ser, assim, o sentido do Mundo.

5. Diabos e símbolos: Esclarecimento do Mundo (é preferível dizer aclaramento do Mundo) - do mundo incógnito (espaço de espaços) ao mundo familiar (lugar de lugares). A criação de mundos: separar (diabolon) e unir (synbolon).

6. O lugar primordial como jardim. A árvore do Bem e do mal no centro do Paraíso é a idade outonal da humanidade.

Textos de Perdido

Eis pois agora a oportunidade de publicar os textos de Perdido após rigorosa selecção.

O texto agora apresentado cataloguei-o como anexo ao Ensaio sobre o Lugar.

Perdido escreveu vários textos a explorar a natureza do lugar: não são textos expositivos, pois não esclarecem ideias ou significações, não aduzem argumentos, não perfilam um ponto de vista a defender ou a atacar. São o que chamava “perambulações”, passeios quase obsessivos à volta de um lugar.

Nas suas brilhantes dissertações nos seus “serões de aldeia”, Perdido perdia-se a divagar sobre lugares, caminhos, partidas e chegadas.

Seguia à letra a ideia de que um caminho só se dá a conhecer “pela queima anaeróbica de açúcar nas miofibrilhas dos membros inferiores”, ou seja pelas dores na barriga das pernas. Nevasse ou gelasse lá fora, fazia as caminhadas, em substituição, no seu imaginário a custo de palavras. Nós seguíamo-lo na peugada.

Era como desembrulhar os nós de um novelo de lã usado nas brincadeiras do Bolinha e do Ratito. Sabíamos que o esforço valia a pena ao ver o novelo finalmente desnovelado.

O texto agora apresentado coloca a questão difícil de como relacionar um mundo interno, subjectivo, o mundo do Eu definido pelo pensamento, com uma externalidade objectiva, a Natureza, os Outros, o Além, de acordo com uma problemática dos antigos gregos, ressuscitada por Descartes com a noção de Coisa, a casa de espelhos partidos onde se reflectem o pensamento a extensão e a infinidade.

Perdido desconfia que Descartes não fala de Coisa (res) mas de Causa e que é necessário que se repense a problemática iniciada pelo Cogito a partir de uma experiência comum a seres humanos e a gatos, a experiência dos lugares.

Ao experimentar lugares relacionados, Perdido concluía, geralmente, que as pontes genuínas são uma mistura de ausências e presenças invisíveis. A essa re-ligação chamava Perdido a natureza verdadeira da Religião (re-ligatio).

Pena é não termos Perdido connosco para ajuizar do nosso esforço de interpretação.

Perdido encontra-se desaparecido desde o passado dia dez. Registámos que se encontra de boa disposição a ajuizar pelos artigos publicados depois dessa data, estando ele algures. Porém, depois disso já passou mais tempo do que gostaríamos.

Foi-se embora sem despedidas, dizendo apenas que ia acampar e explorar as montanhas e os rios de Trás-os-Montes. Levou consigo pouca coisa: fazia-se acompanhar do seu inseparável kit de sobrevivência. Preocupa-nos o facto de ainda não nos ter contactado, bem como sabermos ter deixado para trás todos os cartões bancários, telemóveis e medicamentos para a hipertensão. Que o seu anjo da guarda o acompanhe e o traga cedo para casa, para junto da família e dos amigos. As autoridades já foram devidamente alertadas.

Gervásio Leonel.


O exterior, a ausência inquietante do som e a presença do invisível

Ponho-me em bicos dos pés: nada vejo! À volta nada de útil a não ser uma velha cadeira desdobrável. Vou buscá-la. Tem uns oitenta centímetros de altura e um ar frágil embora a madeira, de pinho, ainda aparente uma suficiente robustez. Robustez é um termo demasiado forte, claro, porque só convém ao carvalho, o velho robur; é preferível dizer solidez! Desdobro-a não sem antes ter hesitado no tipo de operação a realizar. Basicamente é constituída por três peças que se justapõem ao fechar. Para abrir, uma das peças, a de maior comprimento que servirá de espaldar e de pés dianteiros, deve ficar hirta, erecta na perpendicular; as outras duas peças deslizam solidárias após empurrar uma delas, a inferior abrindo-se para formar os pés traseiros em perpendicular com a peça grande, que agora desliza um tudo-nada para a frente no sentido oposto, a superior que retoma a horizontalidade para formar o assento. Uma cadeira é uma coisa útil, serve para uma pessoa se sentar. É evidente que estamos sempre a dar utilidades novas às coisas úteis: uma cadeira pode servir de pequeno escadote para trepar a uma altura não muito elevada. Não o fazemos mais vezes por decoro: porquê pôr os pés, que andam no chão, num sítio onde normalmente nos sentamos? O assento é uma coisa sagrada, que não pode ser conspurcada: quer se trate do assento lugar do nosso corpo, quer se trate do assento lugar da cadeira. O assento é o lugar do poder e do privilégio: é o trono do monarca, a sede () do bispo, a cátedra do universitário. O assento é o lugar da morte e da ressurreição: é a “cadeira eléctrica”, é a cadeira do Salazar, é o sentar-se à direita ou à esquerda do Cristo, na Última Ceia, ou do Deus Padre, no Paraíso Celestial. O assento e o lugar são termos quase intermutáveis: quando pedimos para nos reservar sete lugares no restaurante, ou no avião, ou no teatro, no fundo, muito no fundo, estamos a pedir que nos reservem sete assentos. É certo que podem restar só lugares em pé – trata-se, todavia, de lugares de importância reduzida, que nos amesquinham e nos lembram que estamos sempre a ser relegados para uma casta inferior, a tornarmo-nos pessoas de segunda como negros num Apartheid. Mas pôr um pezinho é coisa a que às vezes nos atrevemos. Não se trata de “pôr a pata em cima”, acto de uma extrema brutalidade, de uma rudeza de bárbaros com tranças e bigodes lanudos. É só pôr um pezinho! O outro vem atrás, de mansinho. E, se está alguém a ver, até tiramos os sapatos por reverência. Não é o meu caso, estou descalço e tenho que subir. Pôr-me em bicos dos pés não resulta: nada vejo!

Monto-me finalmente na cadeira de pinho, que até nem está desengonçada; além de sólida, é firme. Serve perfeitamente para os meus propósitos. Alongo a coluna como vi fazer aos gatos, estiro o pescoço em curva na direcção da janela e espreito.

Um jorro de luz intensa obriga-me a semicerrar as pálpebras. É pleno dia, concluo. Do outro lado, paredes brancas, nuas, intensas, reflectem. Como a Lua, cogito. A luz reparte-se de igual por todos os cantos do quadro; as sombras não obedecem a perspectivas, são planas, são como que luz recatada, meditativa, ensimesmada. Não há pessoas, não vagabundeiam gatos nem cães, nas árvores alinhadas não cintilam as folhas prateadas por cair, nem revolteiam folhas já caídas ou a cair. Pressinto uma falta. Será que se pode pressentir uma falta? Que uma falta ainda não é enquanto não se descobre o que falta? Ou devo dizer: sinto uma falta. Como se a falta fosse já actual e positiva, um absoluto, e não a ausência de qualquer coisa que ali viesse a ser colocada num instante intemporal para ser, no mesmo instante, negada. A falta é o lugar do desaparecimento, da ausência, do abandono. Reflicto nisto enquanto dou voltas aos meus pensamentos. O que deveria estar ali e não está? Desisto de olhar, os objectos não nos aparecem por varrermos os lugares. É como a memória que queremos dizer e não podemos porque a temos debaixo da língua. O melhor é não insistir, pensar noutra coisa. A memória voltará quanto menos se espera.

Desço a cadeira, cansado da tensão muscular, e sento-me. No quarto semi-iluminado não há nada a não ser a cadeira, o meu corpo e a janela. Há pouco estávamos os três em processão – a cadeira, eu, a janela, numa continuidade que ia do interior para o exterior. Agora, a janela está lá em cima a advertir-nos que há algo lá fora, que esse algo se revela numa luz intensa e que, todavia, outro algo falta também. Nós, o meu corpo e a cadeira, cá em baixo, numa comunhão de assentos. “Nós” que termo interessante, reflicto, plural da primeira pessoa do pronome pessoal no caso nominativo. Este termo, “nós”, faz do meu corpo e da cadeira um colectivo pessoal: o meu corpo-pessoa, a minha cadeira-pessoa. “Nós” é um círculo num diagrama de Venn que mete lá dentro duas pessoas. Pessoa, personna, “o que repercute o som”. No teatro e na vida social, aos lugares que repercutem o som chamamos personagens. As personagens desempenham papéis que alguém escreveu para eles e proferem frases. Dizem aquilo que se espera que digam, de acordo com o seu papel e estatuto. Portanto, estamos aqui duas personagens, a minha cadeira e o meu corpo unidos pelos respectivos assentos, desempenhando, melhor ou pior, não sei que papéis, sabendo que algum som perpassa por nós.

… perpassa por nós. Perpassa o quê? É isso, é isso mesmo, é o som, era o som que faltava lá fora!

Levantei-me, ajeitei a cadeira que encostei à parede do quarto, alcei-me em direcção à janela, aparelhei as orelhas e escutei: era o som, ou melhor a falta do som… que estava ali, sempre estivera ali, até de me dar conta da sua presença como falta, de me dar conta da não presença do som.

Lá confirmei as paredes brancas, a luz tépida das sombras, o imobilismo das árvores de copas projectadas no azul intenso do céu. Não, não se ouvia nada. Apenas um cenário de filme mudo. Um mundo luminoso mas impessoal, sem máscaras. Algo não batia certo: onde há movimento, há vibrações acústicas que o cérebro interpreta na forma de sons. De certo que não havia ensurdecido, assim, de um momento para o outro. Para o confirmar até comecei a assobiar, mandei para o ar duas ou três palavras. Primeiro, daquelas que são certinhas, com certificado de qualidade e apólice de seguradora, que não ferem a sensibilidade das senhoras de idade e classe médias, que não despertam a mórbida curiosidade da polícia secreta, dos espiões e demais profissionais da escuta; depois, não fossem estas palavras, vagamente ciciadas, das que não são ouvidas por ouvidos de pessoas sérias e honestas – porque o autêntico ouvir não está no deixar entrar mas no atender o que entrou – comecei a usar termos grossos, dos que são atribuídos aos camionistas e aos trolhas, dos que são usados pelas mulheres ditas de má vida para estimular a cupidez dos clientes, proferidas com articulação pausada e sonora, que atravessam o espaço e vão perturbar no céu a concentração dos escribas que anotam os nossos pecadilhos no livro do juízo final. Não precisei, porém de mais testes para me certificar de que não estava surdo, que não estava em mim a razão por que não ouvia o som lá de fora. Simplesmente, se não ouvia era porque, ou o som não estava lá, ou algo impedia que chegasse até mim.

Se um percurso é interrompido pensamos automaticamente num obstáculo.

Sabemos que não é assim com a nossa vida: será interrompida e pronto! Pelo menos julgamos que será assim, porque deduzimos de outros casos que já presenciámos no passado. No meu passado há muitas mortes e poucas interrupções de vida. As mortes são notícias do obituário, uma página especial dos jornais, ao lado das notícias da política, do trabalho, da economia, da vida mundana, do desporto e de outras veleidades. Às vezes são notícias centenárias que nos lembram existências passadas de santos e heróis, de bandidos e cobardes. Mas estas não vêm ao caso para o fim dos meus raciocínios: não falam nunca das pessoas comuns, pessoas como a gente. Interrupções de vida, que eu registasse, houve poucas: a do Rui, filado pela droga e posteriormente internado em instituição psiquiátrica, aprendeu aí o gosto pelo álcool e morreu hepático; a do Luís, regressado da Alemanha com muita idade a trabalhar no duro, sempre disposto a uma história interessante, um dia chegou cedo ao trabalho, bebeu uma cerveja fresca e passou-se; a do Zé, de quem fiz meu amigo no dia em que o conheci, que na semana seguinte sentiu uns pequenos tremores na pele das mãos e, passado um ano, estava completamente imobilizado, respirando a pequenos tragos o ar, até que os músculos da garganta se cerraram inertes garroteando-o; a do pai que, nunca bebera uma gota de álcool, se deixou afogar nas águas insalubres do Tejo; a de outro Zé que conheci também no trabalho uma semana antes de se lhe partir o cordão umbilical com a vida, a esforçar-se até à última em preito de fidelidade a uma multinacional canina; a da engenheira Palmira, pessoa de afecto e merecedora de muito respeito, mas não respeitada pela vida que a ceifou prematuramente e sem negociação nem aviso prévio; a da madrinha Leninha, minha companheira dos passos que ensaiei em primeiro lugar, a mediadora entre a minha inexperiente infância e a maturidade distante dos meus mais velhos. Os outros casos foram casos de morte, como o dos avós que iam, um após outro, ano após ano, denunciando o contrato com a vida; como o dos camaradas abatidos em África, surpreendidos pela ceifeira fora do seu tempo e do seu espaço. A maioria dos casos era de mortes normais prognosticadas em todas as tabelas actuariais.

Tirando o caso da vida, que pode ser interrompida sem mais, sem algo a estorvar o seu percurso, qualquer outro percurso só poderá interrompido pela interposição de um obstáculo. Não estando surdo, por que é que o som não chegava até mim? Onde estava o obstáculo que o impedia? Olhei outra vez: o quadro permanecia o mesmo, inalterado na sua composição e qualidades, diria até que parecia uma fotografia, um poster como os que os adolescentes colam nas paredes dos seus quartos, que estava ali a tapar a janela para impedir que visse o lado de lá.

Deixei-me, por momentos, ceder à tentação do cepticismo. Haveria mesmo um lugar habitável para além do meu quarto, conforme me mostrava a minha janela? Ou seria a janela apenas um poster de quarto de adolescente, ali pegado à parede por aquela espécie de plasticina azul que se mete em cada canto e um pedaço no meio para o colar à parede, ou arrancar se for preciso?

Cheguei-me à frente movido pela curiosidade, pelo cansaço, pela aura de uma claustrofobia iminente. Senti o nariz a esborrachar-se e a regelar e uma mancha leitosa provocada pela expiração do ar quente toldou-me a percepção das paredes brancas intensamente iluminadas, das árvores e das sombras semidespertas. Registava ali uma aparição inaparente, uma barreira anti-som, uma visão camuflada, uma presença ausente: era o vidro.

Queremos ver e não vemos porque está à frente dos nossos olhos. É um vidro numa janela, ou numa porta contra a qual esbarramos, ou as lentes dos nossos próprios óculos. Com a manga da camisola esfreguei a vidraça até não restar uma pinga de vapor. Só lá ficaram uns filamentos de lã enovelados a uma esquina da janela. O branco retomou a sua alvura, o sol a sua luminosidade, as árvores a sua quietude. Presumi o som que continuou a ser desautorizado pelo vidro. Fiz uma soma a giz no quadro negro do meu cérebro e inscrevi por baixo daquele quadro a seguinte legenda: “O exterior, a ausência inquietante do som e a presença do invisível”.

Desci. Dobrei a cadeira e arrumei-a ao alto a um canto da parede. O tempo passara sem dar por isso. O horizonte tinha começado a ficar rubro e a luz fora-se esgotando, de nascente para poente, pensei.