Muito tenho escrito neste lugar em torno do "lugar" mas nada disse, ainda, sobre globalização.
Tudo começa no corpo, muito ante de nascermos: o corpo é o nosso primeiro lugar.
Assim que o aprendemos, começamos a explorar outros lugares. Escadotes, cadeiras, portões, vidraças, máquinas de costura são alguns dos objectos que povoam os nossos lugares. Que utilizamos com frequência.
São os nossos lugares-comuns.
Com o passar do tempo tornam-se invisíveis, raramente olhamos para eles; e, quando olhamos, não os vemos. Só olhando nova e fixamente para eles, o que só é possível pela escrita, os voltamos a ver e a compreendê-los na sua intimidade. Humanos gostamos pouco do vulgar, do comum, do habitual. Estamos ávidos da moda e das novidades dos anúncios publicitários, ansiosos pelas notícias dos telejornais.
Porém os gatos interrogam-se sobre os lugares humanos, são curiosos.
Usando o verbo, e a interna oposição símbolo-diabo, criamos os lugares. Sobretudo aqueles lugares que parecem estar para além de nós, do nosso corpo e da natureza. Arranjámos vários nomes para convocar esses lugares do além: o espírito, a cultura, as crenças, o sagrado, eu sei lá. Depois, criámos os deuses para os povoar. Mas, os deuses ganharam vida própria e acabaram eles próprios por ordenar os nossos lugares. Humanizaram-se, tornaram-se pessoas como nós, movidos por paixões, ciúmes, invejas, e destruíram-se uns aos outros, utilizando os humanos como carne para canhão. Os vencedores acabaram por invejar o nosso corpo e incarnaram a natureza humana.
A verdade primitiva é a verdade de cada lugar. É a claridade do afecto que ilumina cada lugar na partilha humana. Com a revolta dos deuses e a usurpação do poder pelo deus judeu a verdade foi erradicada dos lugares pelo olho divino e desviada para o não-lugar fundamental: o ab-soluto.
A Mátria é o lugar de origem dos humanos, o lugar de onde cada um de nós provém. A nossa mátria é a Língua Portuguesa que está convocada a ser o nosso destino: o 5º império, o lugar do encontro universal dos povos.
Querem-nos fazer acreditar agora que chegámos ao fim da história. Afinal andávamos todos enganados. O que havia para descobrir está descoberto: é a Lógica do Mercado. Deixem o mercado funcionar e seremos todos homens livres trocando o que oferecemos pelo que procuramos. Tudo funciona equilibradamente guiado pela grande Mão Oculta. O Estado, o público, ou outros crimes contra a livre concorrência, têm os seus dias contados: a fusão das tecnologias da informação com as telecomunicações, a nanotecnologia e as outras tecnoquaisquercoisas permitem a livre circulação de informação e a comunicação permanente e síncrona de todos com todos. As matérias-primas, a mão-de-obra, os capitais, a informação estão à distância de um clique. Estamos todos em todos os lugares ao mesmo tempo: a globalização.
Lembram-se daquele jogo com casas vermelhas e hotéis verdes que corriam, movidos por dois dados, entre a casa da partida e a prisão? É assim a globalização dos nossos dias. Um conjunto de operadores olha para o mercado cá de cima, lança os dados: "Um, dois, três, quatro, cinco". "Compro 300 mulheres, por 30 doses de branca". "Queres desipotecar essas duzentas crianças? Dou-te um carro anfíbio, um lança mísseis e 100 kalashnicovas". "Tire uma carta da sorte: Saiu-lhe um político corrupto. Avance até à casa da partida sem passar pela prisão". E as notas passam de mão em mão. Até haver um único senhor do mundo. Como aconteceu com os deuses!
A posição que defendo é que não começou agora a globalização. Esta que nos apregoam é o canto de cisne da globalização genuína que se iniciou no final da idade média e que se caracterizou pelas Descobertas. A que agora se estabelece é o começo de uma nova Idade Média. Que será mesmo uma Idade das Trevas.
Introdução ao tema da globalização
5/10/2008 06:04:00 da tarde | Etiquetas: gatos, globalização, lugares comuns, Mátria | 3 Comments
Pátria e Mátria, lugares de origem
Seja a Pátria a língua portuguesa (Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não
me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha. Livro do Desassossego, Bernardo Soares); seja a Mátria a matriz da identidade nacional: com Pessoa e Natália não nos safamos! Mas numa coisa, convenhamos, estamos de acerto com os poetas: a língua portuguesa é a matriz de uma comunidade de identidades nacionais.
Está a coisa em saber de que Lugar vem a gente: se tudo vem do pai, temos Pátria; conversamente, se tudo vem da mãe, temos Mátria. E nisto de saber se vimos de um ou de outro, o que é conversa típica de vizinhas - Ai, a expressão dos olhinhos é tal e qual o pai quando era pequenino. Ai vizinha, retorque a outra, e as orelhas pequeninas por detrás dos caracóis loiros, não parece a mãe? E não nos esqueçamos que a vizinhança não é só maldizer e lavagem de roupa suja, é a própria vida e o colorido de um lugar - façamos uma incursão pelo caso nacional que, de tão estouvado, merece um lugar de mérito no grande livro dos lugares que se dá por nome o Guiness.
Há quem ache que tudo vem do pai, o pater familias, o braço forte, o braço armado, intrépido e façanhudo, espadeirando a torto e a direito e afogando o inimigo em sangue. O pai é o dono das terras, não seu cultivador - que esse é mouro de trabalho e mouro há-de morrer - mas seu presor.
A mitologia nacional tem por pai, o fundador da pátria, Afonso Henriques, filho mulato das castas galego-visigótica e borgonhesa, baptizado em Alvarinho e crescido à força de arroz de sarrabulho, lampreia e posta barrosã.
Em plena crise de adolescência, retardada pelo desemprego continuado a que o votou o padrasto, senhor de muitas mercês, entediou-se, juntou os amigos de pândega mais chegados, muniu-se de varapaus e porretes e veio por ai, direito ao sul, a desforrar bordoada e a usurpar terras e casarios dos pobres plebeus da Mauritânia e, sobretudo, daqueles que, prestando culto a Cristo, eram colectados pelos cultuadores de Mafama.
Enquanto ganhava forças a sul investia a norte contra o tálamo materno e contra o infame galego que nele mantinha a mãe a ferro e fogo, sendo o ferro mais dele e o fogo mais da mãe. Assim procedendo, cuidava Afonso estar a criar na Europa a primeira grande síntese entre a primeva cultura helénica, clonando o mito de Édipo, e a expansiva civilização semita no que se viria a expressar muito tempo mais tarde (daí o lado profético de Afonso) no chamado conflito edipiano, imaginativa teoria de um judeu do século vinte, personalidade que mais contribuiu para alimentar os scripts do cinema americano na segunda metade daquele século.
Deu isto, como resultado, a expropriação da cama e das quintas maternas e o seu alargamento com a apropriação à força das quintas vizinhas até às praias que foram nossas e que hoje são de ingleses e alemães. A este lugar chamou Afonso de Portugal em referência ao sítio que distava do Porto a Gaia, lugar de estroina da sua predilecção.
Assim se criou esta “ditosa Pátria, minha amada”, o meu lugar primeiro de identidade, como reza na cédula de nascimento e no bilhete identitário.
Há quem, pelo contrário, queira ver as coisas de outro modo, que vem da mãe, a mater, genetrix et nutrix, fonte vivificante e nutridora. E se, com a mãe, a saúde do corpo vem do leite, a saúde do espírito vem da língua que, para o atestar, até se diz materna. A mãe permite-se fecundar, aninhar o embrião nas profundezas das suas vísceras e partilhar com o feto o sangue placentário; depois, é parir e aleitar e cantar canções de embalar:
“Vamos brindar com vinho verde
Que é do meu Portugal
E o vinho verde me fará recordar
Aldeia velha que deixei atrás do mar”
Afonso muitas coisas bebeu vida fora. Verde para ele era um pouco mariconço, queria-o mais maduro, a estalar na língua. Daí veio o ímpeto da conquista. Postou a mão em concha sobre o sobrolho, olhou a sul e proferiu com voz cava e decidida: Cartaxo. Ala que se faz tarde! Foi um instante apoderar-se de Santarém e Lisboa para que todo aquele mar tinto fosse dele.
Mas o leite estava-lhe no sangue, como a ADN mitocondrial na profusão de células que constituíam o seu corpo imenso e latagão. E esse leite, esse ADN mátrio, era o galaico-português, sua língua materna. Rainha deposta, mãe Jocasta vencedora. E Portugal à mercê da Esfinge.
A pátria, diz-se – dizem – é eterna. Pois, se Pátria significa, uns a mandarem, os outros a trabalhar, assim sim, continuamos a ter pátria, cristãos e mouros, sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sæcula sæculorum. No revés, a Mátria é útero acolhedor: primeiro, galegos, lusitanos e magrebinos; depois, africanos, asiáticos e ameríndios; hoje um pouco por todo o mundo. O meu lugar é o Mundo, em qualquer parte que se fala o Português.
Pena é os políticos portugueses, quando dizem coisa importantes, só falarem inglês.
11/09/2007 12:28:00 da tarde | Etiquetas: ADN mitocondrial, Afonso Henriques, Bernardo Soares, Cartaxo, Fernando Pessoa, Galaico-português, Guiness, língua, Lisboa, lugar, Mátria, Natália Correia, Pátria, Santarém | 1 Comments
O corpo e o lugar
Tema 1. O corpo.
O lugar imediato é, por excelência, o corpo. Sendo parte integrante do ser humano, com o qual se identifica e confunde, o corpo é também uma parte da totalidade dos objectos dispostos no lugar.
1.1. O corpo enquanto lugar
A minha amiga Bettips, referindo-se à afirmação anterior, ou porventura a outra, ou outras, que eu tenha feito ou sugerido, comentou: “Para mim, um lugar é mais do que espaço ocupado por um corpo, é mais o espaço ocupado por sentimentos.” Não vou discutir a sua opinião (“Para mim, um lugar é”), vou questionar precisamente a expressão “é mais do que”. Quando um arguente diz que o que disse, ou o que vai dizer, é “mais do que” já foi dito por outrem, postula implicitamente que o dito de outrem, não sendo origem de discórdia, é todavia um juízo defectivo, algo que não foi ainda completamente dito, algo que se ficou a meio e que, por conseguinte pode ser completado.
Para dar um exemplo, quando encho os regadores para regar os vasos do jardim, a água sai da torneira à pressão e os regadores enchem-se rapidamente à custa do ar que vem misturado com a água. E esta transborda. Se deixarmos assentar, o ar liberta-se completamente e podemos voltar a encher os regadores com mais água. Num regador com doze litros, o complemento de água pode ir a mais de um litro. Quando enchemos o regador pela segunda vez, ele passou a ter mais água do que quando o enchemos à primeira. Todavia, das duas vezes eles ficaram cheios. Só que da segunda vez, de acordo com o princípio de Arquimedes, o ar teve que sair para a água entrar.
Foi o que se passou com o comentário ao meu texto: foi retirado de lá, precisamente, aquilo que de mais importante dissera, precisamente que “o lugar imediato é, por excelência, o corpo” e substituído por “um lugar é (…) espaço ocupado por um corpo”.
Eu sei que à volta do corpo há um lugar. Precisamente uma hora antes de aqui chegar e começar a escrever entrei no metro na Avenida (linha azul), saí na Rotunda para fazer a ligação para Odivelas (linha amarela), saí novamente no Campo Grande para me chegar a Telheiras (linha verde). O que vou contar passou-se na linha amarela. Entrei e sentei-me num lugar entre lugares vazios. Na estação de Picoas entrou um mar de gente que rapidamente eclipsou os lugares vazios, sentados ou em pé. Calhou ao meu lado um jovem negro, como aqueles que se vêem no sul dos Estados Unidos, com o corpo a sobejar por todos os lados. Encolhi-me, fui cedendo o lugar e fiquei com os três quartos traseiros suspensos sobre o nada. Ao que vem esta história? Simples: saí daquele lugar, mas conservei-me no meu corpo. Exactamente: o lugar em que fiquei foi no meu corpo! É por isso que digo que “o lugar imediato é, por excelência, o corpo”. È aí que eu fico quando me tiram todos os outros lugares. Mas tem uma particularidade: por mais lugares que me queiram tirar, desse não saio. E, se sair, é o fim. Mas já voltaremos a isso.
Porque tenho esta relação privilegiada por este lugar que é o meu corpo, digo que é um lugar imediato. Imediato quer dizer sem meio, sem mediação entreposta: entre mim e o meu corpo não há solução de continuidade (significado 1); não careço de um medium para comunicar com o meu corpo (significado 2).
O meu corpo é um lugar complexo. Na realidade, envolve três lugares.
Recordo-me de ter visto em embriologia que o feto se organizava a partir de três folhetos embrionários: o exoblasto, o mesoblasto e o endoblasto (imaginem uma torta: a massa, inicialmente plana, é enrolada sobre si própria até ficar uma parte externa - que vai ficar mais tostada e seca no forno, uma parte intermédia de textura também intermédia e, no âmago da coisa, um pequeno tubo fofinho e húmido. Assim são os nossos blastos). O exoblasto, que vai ficar em contacto com a placenta e os líquidos intra-uterinos, dá origem aos órgãos de relacionamento (aferência e eferência de sinais) através da formação dos tecidos epitelial e nervoso; o mesoblasto, camada intermédia, dá origem aos órgãos motores através da formação dos tecidos muscular, ósseo e de conexão; o endoblasto origina em termos genéricos as vísceras.
Na minha compreensão do corpo vejo também três corpos: um exocorpo, um mesocorpo e um endocorpo.
O exocorpo recebe e emite informação, produz conhecimento, estabelece finalidades, gera valores. Metaforicamente, ora lhe chamamos a razão, ora lhe chamamos o coração. São duas descrições da mesma realidade. Quando processa informação, o exocorpo é puro software encrustado nas sinapses, uma máquina de tratamento de informação binária; quando ama, promove a síntese da razão e do coração. Geralmente, baralha-se e dissocia-se: dinheiro e poder para um lado, sentimentos e ternura para outro. Mas damos demasiada importância aos neurónios: a parte importante é a pele, extenso manto que nos envolve e que está em contacto íntimo com o Umwelt.
O mesocorpo é o corpo animal com três funções básicas, a locomoção, a preensão e a atenção, e uma função exclusivamente humana, a fala. A locomoção relaciona-o com outros lugares e dá informações preciosas sobre a natureza desses lugares; a preensão permite a sua transformação; a atenção dirige o exocorpo para o seu Umwelt; a fala erige a verdade da essência dos lugares, sobretudo quanto é dita nas suas formas mais sublimes, como a música, as belas artes e a poesia.
O endocorpo é o lugar da logística: aquisição, transporte, distribuição e consumo de matérias-primas, recolha e eliminação de matérias residuais.
1.2. O corpo enquanto lugar da experiência dos lugares
A primeira forma de o ser humano experimentar o lugar é experimentando o corpo próprio. As experiências mais primitivas do corpo próprio enquanto lugar são as experiências de conforto e de desconforto. Com fome ou saciado, fraldas molhadas ou enxutas, temperatura rigorosa ou tépida, presença ou ausência do rosto ou do calor humanos. Numa fase precoce, o corpo é um lugar de satisfação passiva, um receptáculo. As ideias de felicidade ou de paraíso são transfigurações tardias de um ideal infantil de satisfação, entendendo a “satisfação” infantil como o “estar cheio” (satis) e o excesso de satisfação como “o estar a abarrotar”. O corpo torna-se um lugar de reserva do que quer que seja – alimentos, adornos, informação. Em suma: um armazém. Esta forma de experimentar o corpo (como sujeito de um desejo) é não independente de um contacto directo com o lugar envolvente e as suas entidades – os objectos desejados, que se supõe serem a fonte de satisfação de uma necessidade que deve ser suprida.. O desejo estabelece uma forma de o corpo-sujeito se relacionar com o objecto. O desejo pela positiva é o desejo de incorporar o objecto fonte de prazer; o desejo pela negativa é o desejo de afastar o objecto fonte de desprazer. A idealização do desejo, associado ao prazer ou ao desprazer, conduz, através de processos cognitivos complexos, à abstracção do bem e do mal, da virtude e do pecado, do prémio e da punição, de deus e do diabo, do céu e do inferno, todos como lugares idealizados. Ao longo do ciclo de vida, o corpo estabelece consigo próprio e com o seu envolvente uma multiplicidade de experiências. Não sendo possível no breve espaço deste ensaio analisá-las pormenorizadamente, apenas cito algumas suficientemente exemplares: a exploração, a procura, a compreensão, o afecto, a dádiva. Os exemplos são citados de forma gradativa e crescente. De puro espaço recipiente, o corpo pode transformar-se em espaço dador, oferecido como objecto de satisfação ao corpo de outrem. Estabelece-se esta relação de forma óbvia na sexualidade dos corpos; mas também, e como expoente maior, na imolação amorosa do corpo próprio para preservar a continuidade da vida, do bem-estar ou do valor de outrem.
1.3. Os lugares periféricos do corpo
O espaço físico adjacente ao exocorpo que o envolve é o lugar do corpo. É, portanto, o lugar de um lugar. O lugar de um corpo tem uma estrutura definida pela relação “ser lugar de” e que se compõe de uma zona de contacto (uma espécie de pele externa que envolve o corpo [zona proximal] e que é constituída não só pelas roupas, calçado, adornos, mas também por imagens, sons, odores – genericamente a zona distal ou o “panorama”) e uma zona de não contacto a que chamo, por analogia com a Lua, esse lugar tão especial, o lado oculto do lugar. Ao locomover-se o corpo muda parcialmente de lugar; ao manipular objectos o corpo transforma o lugar envolvente; a acção simbólica do corpo sobre o lugar idealiza o lugar. O lugar do corpo é conhecido primeiramente pelo corpo na medida em que o corpo age no lugar que ocupa – interagindo quimicamente, locomovendo-se, orientando os órgãos dos sentidos através de processos motores de busca (olhar, escutar, apalpar, cheirar) e processando as modificações físicas e químicas ocorridas na sua interface em impulsos eléctricos que transmite ao sistema nervoso central. Ao transformar as informações que percebe do lugar em cores, texturas, espaços, cheiros, melodias, tactos, algias, pressões, etc., os centros de processamento, centrais e periféricos, reorganizam o lugar acrescentando-lhe novas entidades e propriedades que são posteriormente, ou entretanto, reificadas através do trabalho e da actividade criativa. O trabalho e a actividade criativa agem sobre objectos, entidades do lugar que transformam em produtos ou artefactos. Esse lugar é um lugar de trabalho, de criação ou de recriação.
1.4. A inclusividade dos lugares
À semelhança das matrioschkas, os lugares podem ser concebidos encaixando-se uns nos outros: corpo, lugar do corpo, lugar dos lugares do corpo e por aí em diante. Ocorre o mesmo para os lugares descritos nos planos administrativo e geográfico, os locais: lugar, freguesia, concelho, distrito, região, nação, organização supranacional. E também no plano organizativo (armazém, fábrica, empresa, grupo; secção, pelotão, companhia, batalhão, regimento, etc.). Mas, enquanto as fronteiras geográficas, administrativas ou organizativas podem ser estabelecidas de modo claro e inequívoco, ao menos, num dado intervalo de tempo, as fronteiras entre os lugares poderão não existir sequer. Os lugares são uma espécie de espaço elástico que se distende ou se retesa, não arbitrariamente, mas como resultado da acção humana. Isso é verdade tanto externamente como internamente. As froteiras entre as diferentes partes da estrutura interna de um lugar deslizam permanentemente. O exemplo flagrante disso é o da fronteira que separa o panorama (a toatalidade do que é “visto”) do lado oculto do lugar envolvente – compete à actividade de exploração afastar permanentemente essa linha de fronteira.
Tema 2. As actividades
O lugar, pela razões expostas, raramente se pode conceber como algo que pertença à natureza. Numa selva inexplorada só existem lugares a partir do momento e na condição de que a actividade aí conduza o ser humano. Chegado lá, a selva converte-se num jardim selvagem e, com o passar do tempo produzido pela actividade, o seu espaço humaniza-se progressivamente. O lugar é, neste sentido, a totalidade do que cerca o corpo humano, totalidade cujos contornos se definem pela sua actividade: explorar, ocupar, tratar e habitar.
2.1. Explorar
Explorar é criar caminhos ou inovar rotas. Um caminho, ou uma rota, é a abertura de um espaço de experiência de novos lugares. As travessias marítimas, das montanhas íngremes e dos desertos áridos, a experimentação científica e tecnológica, a exploração espacial, a abertura de novos mercados, o lançamento de novos produtos, a criação da moda e de gostos artísticos, a leitura de livros e revistas, a incursões amorosas ou o simples perder-se dos pais na infância são expressões equivalentes da mesma actividade. Delas resultam sempre a insurgência de lugares novos.
2.2. A ocupação.
Uma das actividades mais impressionantes em que se joga esta relação entre o corpo humano e o seu lugar é a ocupação. Através da ocupação, o ser humano apropria-se do espaço do lugar, dispõe os objectos no lugar de acordo com critérios e sistemas de valor e organiza actividades adequadas à sua utilização (demarcação territorial, defesa da propriedade, arrumação, habitabilidade, produção, lazer e recreação). Um fenómeno interessante é a pré-ocupação, matriz de todo o projecto humano. A pré-ocupação é uma antecipação virtual da ocupação através da qual se jogam cenários alternativos possíveis e se testam decisões com base nos resultados previsíveis. A preocupação é um sentimento baseado na pré-ocupação e pode ter uma carga positiva (entusiasmo, arrojo, ousadia, esperança) ou negativa (insegurança, receio, inércia, desespero) consoante a tendência de um indivíduo para maximizar ou minimizar o sucesso dos efeitos desejados.
A ocupação e a pré-ocupação não resultam apenas da acção do humano sobre o lugar mas podem, inversamente, resultar de uma acção do lugar sobre o humano. Certos lugares predispõem o ser humano a andar mais ocupado (ou preocupado) do que outros, como os locais de trabalho, de convívio ou de habitação. Os locais de viagem, de exploração, de recreio ou de férias exercem uma acção menos duradoira e, por conseguinte, efémera. A relação corpo-lugar é meramente uma relação de presença, enquanto dura, e depois cessa, transformando-se a memória do lugar numa descrição, numa narrativa, num álbum de fotografias que nadificam e substituem o lugar remetendo-o para uma inexistência comparável à anterior a essas actividades. Pelo contrário a ocupação e a pré-ocupação, temporalizam o lugar, tornando-se mais importante o que já foi, ou o que virá a ser, do que aquilo que hoje, na realidade, é.
A pré-ocupação não ocorre sempre, e a maior parte das vezes não ocorre, antes da ocupação. A ocupação gera a pré-ocupação constante, sistemática, habitual, diferente da pré-ocupação nas vésperas de uma viagem associada aos preparativos, à satisfação e verificação dos requisitos de um empreendimento. Por outras palavras, a pré-ocupação distingue-se da preparação – aquela acompanha a ocupação, esta antecede-a: a pré-ocupação retira a ocupação, enquanto actividade de envolvimento num lugar, da presença e temporaliza-a; a preparação antecede a actividade e, fazendo parte dela, é pura presença.
- O Ter e o Querer.
Quando nos relacionamos com um lugar e nos ocupamos, e o lugar nos ocupa, mantemos e gerimos o espaço do lugar e dispomos os objectos no lugar. O lugar de que nos ocupamos é próprio, natural e habitual; o lugar dos outros é alheio, estrangeiro e estranho. A linha separadora do nosso e do alheio é a propriedade e a relação que mantemos com o espaço próprio a posse. Ao espaço e aos objectos dos lugares de que nos apropriamos chamamos nossos e a atitude que mantemos com eles o ter.
A luta pela posse de um lugar ocorre sempre que este não pode, por uma razão que lhe é interna, ser possuído ao mesmo tempo por dois ou vários possuidores. É o caso da luta pela terra e os seus bens (presúria), pela propriedade material (aquisição, roubo), como a disputa por um título numa competição (corrida, jogo) ou por uma posição no emprego (candidatura, habilitação a concurso).
A força que anima e impele para a luta é o querer. O impulso da vontade é muito geral e quase se confunde com a própria natureza da vida. De certo modo, viver é querer.
Querer ter leva à disputa e é alimentado pela competição. Quando o corpo é o próprio lugar, o querer ter pode manifestar-se no querer ter uma pele jovem, umas jeans de marca, um corpo de Apolo ou de Vénus, um adorno ou um símbolo de prestígio, de status.
O querer ter pode ter por objecto da vontade o corpo de outrem, o desejo e o ciúme [a escravatura, a posse carnal, a transmutação, a captação visual, o sadismo], mesmo o corpo idealizado do outro, a sua alma.
- Selvas e jardins
[O bom selvagem. A vida selvagem. O cultivo]
- Rus e urbs.
[Da cultura à civilização]
- O lugar do outro.
[O corpo do outro; a propriedade alheia. Dar, trocar, comprar e vender].
2.3. O cuidar do lugar
- A ordem
O tratamento do jardim ou da horta, a lida da casa, a arrumação dos sótãos, de todas as matizes e de todas as interioridades, são aspectos particulares do cuidar do lugar.
Posicionar cada coisa no seu lugar é arrumar. Assim, o lugar das coisas passa a ser um lugar dentro do lugar. O conjunto de critérios que permite uma arrumação é uma ordem. Os lugares das coisas são a sua posição. Arrumar pode ser também mudar de posição. Muitas vezes, arrumar é arranjar uma ordem melhor do que a ordem existente. Este processo é inesgotável, há sempre uma ordem melhor.
O resultado da ordem é o bonito, o limpo, o organizado (cosmos, mundo), o resultado da não ordem é o feio, o sujo, o desorganizado (caos, imundo).
A Criação (monoteísta) do mundo reflecte a obsessão pela transformação do caos. Não explica quem criou o Caos, mas deixa subjacente que este precede o Criador e a Criatura.
Há a ordem dos outros que, geralmente, colide com a minha. Permito que as visitas me lavem e enxagúem a loiça; mas, por regra, não permito que ma arrumem. No dia seguinte, ao perguntar pela concha da sopa é que são elas: onde é que me puseram o raio da concha? Não a encontro no “seu” lugar!
[Está tão bem arrumado que nem me lembro onde é que o pus]
- Os recursos.
[Recursos energéticos. Recursos culturais]
- A Mediação.
[As ferramentas (por exemplo, um escadote). Um mundo de símbolos]
2.4. A casa, o lugar dos afectos.
A portugalidade é um lugar mítico, um lugar construído e reconstruído pela contagem repetida de estórias (mythoi), estórias que, exemplificando com a portugalidade, criam o sentido da relação com a mãe (terra verdejante e leite materno) e a ocupação sangrenta do solo, a terra, o lugar verde-rubro. [Lugares míticos: Pátria e Mátria.]
[Personagens míticas: o Encoberto].
Diz
O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa.
Ser português no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade.
O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso.
Somos contra Roma, porque Roma veio destruir no paganismo a visão lúcida da vida.
Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.
[Outros lugares míticos: a terra e a casa.] A nossa terra é onde está a nossa casa.
O ET, a apontar o seu longo dedo no céu estrelado, diz “E.T. phone home”. O coração bate-nos intensamente, os músculos estremecem, sustemos a respiração. Quando estamos estrangeiros num lugar espraiamos os olhos no céu estrelado e o dedo aponta a casa. Pedir bacalhau cozido num restaurante em Manhattan, comer broa e caldo-verde no Huíge, ouvir Carlos do Carmo, Dulce Pontes, Teresa Salgueiro, Marísia em qualquer parte do mundo, são telefones que nos agulham instantaneamente para casa.
[Culto dos lares, génios e penates. Os lares, ou divindades tutelares da casa, da família e dos lugares habitados. A lareira, altar doméstico]
Ora, estórias são estórias, e as estórias, enquanto imagens, re-presentações da realidade, servem a maioria das vezes para vendar a realidade. Como as fotografias, funcionam como uma espécie de maquilhagem da realidade. [Mistificação platónica com a Alegoria da Caverna. Semelhanças da caverna - câmara escura]. Não uma realidade anterior, exterior e incognoscível, o mundo já criado na aurora do sexto dia da criação, mas a verdade do ser posta em espanto autêntico e inocente interrogação: poderia nada existir; todavia os seres são.
A linguagem é o lugar do desvendamento do ser – Die Sprache verweigert uns noch ihr Wesen: dass sie das Haus der Warheit dês Seins ist. (“A linguagem recusa-nos ainda a sua essência, a saber que ela á a casa da verdade do Ser.” Ueber den Humanismus, Heidegger) – mas não está em condições ainda de proceder a esse desvelamento por estar empastelada de imagens que velam o sentido da interrogação originária.
No final é necessário prestar ouvidos ao som que vem do não-lugar, do deserto. O silêncio precede e prepara a fala do Ser.
Tema 3. O lugar do não-lugar, ou A nova ordem de lugares.
3.1. Resíduos.
Temos as entranhas da cidade perfuradas por redes de águas residuais, nos campos usamos fossas sanitárias. Os resíduos sólidos são recolhidos em contentores e destinados aos lugares de tratamento ou a aterro. De forma descontrolada, lixeiras e vazadouros compõem a paisagem.
De uma maneira geral, sendo uma generalização que de fé se está a converter em ciência, pode dizer-se que, à medida em que os recursos minguam, cresce o lixo.
Até aqui encarou-se o lixo como o mundo (ou, preferentemente, o imundo) das coisas que não pertenciam a nenhum lugar. Está a processar-se uma grande mudança de mentalidades, a aceitação da ideia que devemos atribuir um lugar ao lixo, que nos devemos ocupar do lixo, que devemos arrumar e destinar cada espécie de lixo ao lugar apropriado e conveniente.
Os lugares para a recolha selectiva dos resíduos sólidos urbanos têm cores, como os separadores dos ficheiros físicos antigos, de cartolina e papel. Os lugares de aterro têm amostras por estratos que conservam uma memória da sua composição, como as descrições arquivísticas dos documentos que atestam as actividades e processos das organizações.
O futuro ditará o lixo como paradigma da ordem.
3.2. Vaguear, errar, perder-se: passear, viajar e fugir
- O passeio.
Passear é caminhar, percorrer caminhos. [A senda, o caminho de pé posto, caminhos vicinais, arruamentos, estradas. Transportes].
- A viagem.
Viajar é “perder lugares”. [A viagem de exploração, a viagem de negócios, a viagem turística, a viagem de visita]
- A fuga.
Um lugar pode tornar-se objecto de recusa e impelir à fuga. Um lugar, um posto de trabalho, uma organização, uma empresa que deixaram de “nos dizer algo”; um lugar, que outrora fora um espaço de felicidade, manchado pela morte, pela separação, pela destruição; um sistema de valores, uma ideologia política, uma religião, uma teoria científica, um credo artístico que, subitamente, deixaram de fazer sentido e se esvaziaram; um território militarmente invadido e ocupado, feito pasto de chamas, assolado pelas intempéries, pela devastação, a fome e a doença; uma região, um país, que não dão oportunidades, e um Estado que cobra impostos e não protege;
Os refugiados […]
Ficha técnica:
Versão 1 - 31/OUT/2007 - versão base outlined
Versão 2 - 09/NOV/2007 - Actualização do item 2.4
Versão 3 - 15/NOV/2007 - Actualização do Tema 1
Versão 4 - 23/MAR/2008 - Reestruturação do Tema 1
