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Santarém em passeio (3)















Mercado Municipal de Santarém
(1928, arquitecto Cassiano Branco): Azulejos 1 a 4.

Santarém em passeio (2)

Há uma diferença irredutível entre estar-em e ser-em. O ser-em estabelece uma relação entre o ser-para-si enquanto eu e o sistema de coordenadas que o referenciam; no estar-em prevalece a dádiva e o apego do corpo ao lugar, função sacrificial que funde o eu e o lugar numa só substância.

Assim, caminhei Santarém como um amante que percorre todas as porções do corpo amado, sentindo-lhe o respirar, o pulsar, o estremecer.

No regresso, passei pela Praça Visconde Serra do Pilar com os seus vistosos prédios cobertos de azulejos variegados com mansarda e e sacadas em ferro forjado.

Cortei ali ladeando os Correios e fui dar ao Largo Cândido dos Reis onde se avista, no lado a Sul, a Misericórdia.






Descendo a Avª. Sá da Bandeira lobrigamos ao fundo o Palácio da Justiça e, à sua direita, o Mercado Municipal com os seus maravilhosos azulejos.

Santarém em passeio (1)

O lugar é onde a gente está e o que a gente ama.

Apesar de haver lugares horríveis, de pesadelo, em que de súbito nos acomete o pânico, de onde queremos rapidamente fugir; de haver lugares indiferentes que apenas têm de importante estarem na cercania de outros lugares (são os lugares de passagem); os lugares que interessam são os lugares aprazíveis.

O que torna um lugar aprazível é ter disponibilidade para estar nele. Foi o caso da permanência forçada em Santarém por altura da revisão do carro. É que os olhos só vêm quando andam a pé!

Comecei no Largo do Seminário onde se situa a Bijou, lugar de culto para a bica e o pastel de nata, tão bom que à primeira dentada se pode dizer que é um "pastel de nada".





Embrenhei-me nas ruas do centro histórico à cata de igrejas (do gótico ao maneirista há de tudo).




Fui à Torre das Cabaças e andei a ver o que restava do velho Rosa Damasceno.




Continuei às voltas, mas isso é assunto para outra altura...

Local e global


Por oposição ao Lugar, o Globo não tem a possibilidade de representação.

O lugar pode ser representado na medida em que através dele se tornam sempre e de novo presentes o meu corpo e as coisas que preenchem o lugar. Dito assim, este é o lugar do eu presente, aqui-e-agora, mas há os lugares de onde vim e os lugares para onde tenciono ir. Eles estão presentes na medida em que estão presentes na memória.

A representação de um lugar não depende da sua extensão, mas a sua extensão depende da minha prontidão para o representar. Neste momento, estou aqui à secretária, confinado a um pequeno rectângulo de madeira e face a um conjunto de objectos a que chamo de computador e seus periféricos. Todavia, a vista e o ouvido prolongam o espaço do lugar até ao limite em que vislumbro as paredes e as janelas, o chão e o tecto. O cheiro intenso a queimado do pão que deixei na torradeira permite-me ir ainda ao de lá destas barreiras físicas e integrar o espaço invisível da cozinha. Ir é uma maneira de dizer: o corpo que desce as escadas em direcção à cozinha é um corpo descarnado, comandado à distância pelo cérebro, que vai perdendo visibilidade e se ausenta à medida que se afasta. O meu corpo real continua sentado a ocupar o centro geométrico do lugar, inerte e pesado, às excepção das mãos que picoteiam incessantemente o teclado e dos olhos que percorrem o ecrã em movimentos certeiros de escrutínio.

A representação do lugar, como não depende da sua extensão, não tem limites definidos, é elástica na periferia. O encolher ou o alargar depende da minha preocupação. Estar ocupado significa estar aqui com as coisas no centro do lugar. E se o lugar se expande, e até onde se expande, isso representa o alcance da minha preocupação. Agora, neste exacto momento, o meu lugar abarca a horta nova, aquele pequeno rectângulo situado a norte entre os ciprestes e a pista de ciclismo do Daniel. Tenho que continuar, o mais cedo possível, a vedação a arame para impedir a invasão pelos coelhos bravos. Amanhã ou depois, estarei noutro lugar, conto que seja em Lisboa. Lisboa não está confinada aos seus limites concelhios. Estes não delimitam um lugar, apenas definem uma convenção geográfica. Lisboa irá começar na auto-estrada, algures onde uma atmosfera de poluição opressora me fará entontecer, abrasar os brônquios e embaçar os olhos. E terá continuidade através da segunda circular, IC19 e IC21 até para lá da Várzea de Sintra em direcção ao Magoito onde me encontrarei com a minha mãe para o nosso almoço em comum da semana.

Este lugar grande, esta grande elipse com os dois focos em Santarém e em Lisboa, é o meu lugar habitual, o lugar onde espalho regularmente a minha existência segundo o meu modo de vida. O meu lugar é o que eu quero que seja, sem extensão predefinida, sem centro preferido. Noutras alturas da minha vida, vivi noutros lugares, viajei por outros lugares. Saí da Europa para estar em África ou ir à América. África e América são continentes, isto é, grandes lugares, cercados por outros lugares que são os céus e os mares, que contêm lugares, que englobam outros lugares num decrescendo harmónico até aos últimos lugares que é, cada um, onde se encontra, ou se ausenta, uma pessoa.

Se podemos descobrir novos lugares, por uma espécie de zoom out, rasgando e alargando os horizontes e, conversamente, miniaturizar microscopicamente um lugar, por uma espécie de zoom in, porque não alargar, mesmo que conceptualmente, os limites do lugar para um horizonte praticamente infinito e conceber o global como um lugar infinitamente grande? Exactamente pela razão que isso continuaria a ser um lugar, centrado no meu olhar pessoal na presença do meu corpo de si a si mesmo. E haveria certamente outros lugares globais centrados na vivência de outros. Pobres e descaracterizados, mas extensos, partilhando em comum a existência de uma barreira de contornos nebulosos, separando o todo do nada, o aquém do além.

A este lugar “globalizado” chamou a cristandade medieval o “mundo”. Para o cristão medieval, o mundo é o ambiente onde a alma cumpre a sua passagem pela terra, incarnada num corpo material e corruptível, até regressar ao sítio de onde é originária, o Além.

O cristianismo primitivo foi uma religião de cidades. A cidade cristã é, em primeiro lugar, uma comunidade de pessoas, a igreja, e não uma cidade de pedra. (O termo igreja tem raiz no grego εκκλησία, a assembleia dos cidadãos, e só designou os edifícios religiosos muitos séculos mais tarde). A cidade cristã primitiva era um lugar fundado sobre os corpos dos que praticavam a fé seguindo a tradição, fundamentada nos evangelhos, segundo a qual o fundador a havia edificado sobre o corpo do seu discípulo Simão, a quem chamou Pedra (”et adduxit eum ad Iesum intuitus autem eum Iesus dixit tu es Simon filius Iohanna tu vocaberis Cephas quod interpretatur Petrus” [João, I, 42]). O corpo foi sem dúvida a pedra alicerce sobre o qual os seguidores de Cristo edificariam a sua igreja, “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mateus, XVI,18].

Como os ratos de esgoto, os primeiros cristãos prosperaram no mundo subterrâneo das catacumbas, onde se encontravam e praticavam o culto. Viviam entre dois aléns, um além interior, a cidade de deus, e um alem exterior, a cidade dos homens, o mundo. As portas do inferno estavam realmente a dois passos. Os seus corpos eram o templo onde habitava o espírito do eterno e não podiam ser profanados. Contra a profanação, a apostasia ou as tentações do inimigo o cristão deveria dar testemunho da sua fé (mártir, em grego μάρτυς, significa testemunha) através do sofrimento sacrifício e, se necessário, pela morte do corpo.

A partir do século IV o cristianismo faz um giro de 180 graus. Em 301, torna-se igreja de estado na Arménia. Em 313, cessam as perseguições religiosas em todo o império graças ao Edito de Milão, promulgado por Constantino. Em 325, os bispos reunidos no Concílio de Niceia dissiparam as controvérsias teológicas criando o unanimismo da fé em torno do símbolo dos apóstolos, o credo cristão. Na segunda metade do século, sob o domínio de Teodosiano, os cristãos fizeram o assalto final ao império, destruindo ou confiscando os templos pagãos, acusando, demitindo e perseguindo até à morte os ministros dos velhos cultos imperiais e combatendo ferozmente tudo o que lhes pareceu pagão ou herético. Em 381, o Concílio de Constantinopla decretou o dogma da Tridade consagrando a fusão do messianismo judeocristão com o essencial do mitraísmo, a religião pagã indo-europeia dominante no seio dos exércitos que defendiam o Império nas suas fronteiras.
Cristianização do império ou romanização do cristianismo? Foram os cristãos que minaram o império para sobreviver às perseguições, ou foi o império que se apropriou do cristianismo para sobreviver à pressão dos bárbaros? Esta é a única questão cuja resposta nos poderá ajudar a compreender a natureza real da auto-intitulada Igreja Católica Romana.

Sendo a história escrita pelos cristãos, não admira que nos tenha sido passada uma imagem de um império cujos alicerces vão ruindo sobre o sangue mártir dos cristãos, como a cidade de Jericó, a Tróia semita, sucumbiu ao som das trezentas trombetas dos sitiantes. Prefiro a versão oposta. Face à eminente invasão dos bárbaros urgia tomar duas decisões: transferir a capital do império para oriente e subordenar todas as instituições políticas, jurídicas e administrativas a uma ideologia monista, autoritária, centralizadora, prosélita e de ambição universalista. A invasão bárbara consistiu mais numa pressão populacional, começando nas fronteiras e acabando na Urbe, do que em investidas guerreiras. Como hoje, as hordas tribais sul-americanas, africanas e orientais impulsionadas pela fome e atraídas pela riqueza, real ou imaginada, da Comunidade Europeia. Assim, Roma acolheu os bárbaros convertendo-os de seguida ao cristianismo. O mundo transformou-se, provisoriamente, na cidade de deus, a igreja militante. O mundo, desde aí e até meados dos século passado com a descolonização, não deixou de ser um imenso campo de batalha, na purga do paganismo e das heresias, nas cruzadas contra os infiéis e no alargamento da fé e do império. Por isso, igreja romana – porque é o império romano que sobrevive e não as crenças proto-cristãs; por isso, igreja católica – devido à pulsão de universalismo [católico, em grego καθολικός, significa universal], de globalização.

O império, nos dias de hoje, sente-se ameaçado pela nova invasão dos bárbaros: as economias emergentes, o terrorismo global e o espectro da fome, pandemias e calamidades naturais. Novamente na história dos homens a mesma solução de sobrevivência: a adopção de uma religião militante e globalizadora.

E essa nova religião globalizadora é o liberalismo. Como o cristianismo, que combateu o “mundano” por separar deus e a alma, o liberalismo combate o “estado” e a “política”, a mão visível do intervencionismo e do proteccionismo que obstrui o equilíbrio do mercado, separando a oferta e a procura. Como o cristianismo criou uma rede europeia, e depois mundial, de paróquias e de mosteiros, com as suas escolas, bibliotecas e catedrais, para se expandir e controlar, o liberalismo usou os media e as telecomunicações para globalizar (conectividade absoluta).

A oposição lugar-globo não é uma questão de escala. O globo não é o mais extenso e o mais abstracto dos lugares.

Sendo o corpo a sede de todos os lugares, os cristãos (numa tradição que vem de Platão até Agostinho de Hipona através dos neoplatónicos) reinventaram a alma para sediar o além. Os novos mentores da suprema religião económica/ecuménica inventaram o ser virtual –pura essência descorporalizada sede de puras decisões instantâneas, o sujeito económico actor do mercado, o sujeito lúdico viciado na internet e no telemóvel e de toda a parafernália de gadgets que prometem o céu instantâneo e pronto a gozar. O global não é representável porque o corpo é-lhe ausente.

Que haja fome no mundo? Sempre houve. Um pequeno inconveniente para castigar o corpo e atingir o reino dos céus. Graças à economia de mercado, não vivemos já num mundo de abundância?

Pátria e Mátria, lugares de origem

Seja a Pátria a língua portuguesa (Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha. Livro do Desassossego, Bernardo Soares); seja a Mátria a matriz da identidade nacional: com Pessoa e Natália não nos safamos! Mas numa coisa, convenhamos, estamos de acerto com os poetas: a língua portuguesa é a matriz de uma comunidade de identidades nacionais.

Está a coisa em saber de que Lugar vem a gente: se tudo vem do pai, temos Pátria; conversamente, se tudo vem da mãe, temos Mátria. E nisto de saber se vimos de um ou de outro, o que é conversa típica de vizinhas - Ai, a expressão dos olhinhos é tal e qual o pai quando era pequenino. Ai vizinha, retorque a outra, e as orelhas pequeninas por detrás dos caracóis loiros, não parece a mãe? E não nos esqueçamos que a vizinhança não é só maldizer e lavagem de roupa suja, é a própria vida e o colorido de um lugar - façamos uma incursão pelo caso nacional que, de tão estouvado, merece um lugar de mérito no grande livro dos lugares que se dá por nome o Guiness.

Há quem ache que tudo vem do pai, o pater familias, o braço forte, o braço armado, intrépido e façanhudo, espadeirando a torto e a direito e afogando o inimigo em sangue. O pai é o dono das terras, não seu cultivador - que esse é mouro de trabalho e mouro há-de morrer - mas seu presor.

A mitologia nacional tem por pai, o fundador da pátria, Afonso Henriques, filho mulato das castas galego-visigótica e borgonhesa, baptizado em Alvarinho e crescido à força de arroz de sarrabulho, lampreia e posta barrosã.

Em plena crise de adolescência, retardada pelo desemprego continuado a que o votou o padrasto, senhor de muitas mercês, entediou-se, juntou os amigos de pândega mais chegados, muniu-se de varapaus e porretes e veio por ai, direito ao sul, a desforrar bordoada e a usurpar terras e casarios dos pobres plebeus da Mauritânia e, sobretudo, daqueles que, prestando culto a Cristo, eram colectados pelos cultuadores de Mafama.

Enquanto ganhava forças a sul investia a norte contra o tálamo materno e contra o infame galego que nele mantinha a mãe a ferro e fogo, sendo o ferro mais dele e o fogo mais da mãe. Assim procedendo, cuidava Afonso estar a criar na Europa a primeira grande síntese entre a primeva cultura helénica, clonando o mito de Édipo, e a expansiva civilização semita no que se viria a expressar muito tempo mais tarde (daí o lado profético de Afonso) no chamado conflito edipiano, imaginativa teoria de um judeu do século vinte, personalidade que mais contribuiu para alimentar os scripts do cinema americano na segunda metade daquele século.

Deu isto, como resultado, a expropriação da cama e das quintas maternas e o seu alargamento com a apropriação à força das quintas vizinhas até às praias que foram nossas e que hoje são de ingleses e alemães. A este lugar chamou Afonso de Portugal em referência ao sítio que distava do Porto a Gaia, lugar de estroina da sua predilecção.

Assim se criou esta “ditosa Pátria, minha amada”, o meu lugar primeiro de identidade, como reza na cédula de nascimento e no bilhete identitário.

Há quem, pelo contrário, queira ver as coisas de outro modo, que vem da mãe, a mater, genetrix et nutrix, fonte vivificante e nutridora. E se, com a mãe, a saúde do corpo vem do leite, a saúde do espírito vem da língua que, para o atestar, até se diz materna. A mãe permite-se fecundar, aninhar o embrião nas profundezas das suas vísceras e partilhar com o feto o sangue placentário; depois, é parir e aleitar e cantar canções de embalar:

“Vamos brindar com vinho verde
Que é do meu Portugal
E o vinho verde me fará recordar
Aldeia velha que deixei atrás do mar”

Afonso muitas coisas bebeu vida fora. Verde para ele era um pouco mariconço, queria-o mais maduro, a estalar na língua. Daí veio o ímpeto da conquista. Postou a mão em concha sobre o sobrolho, olhou a sul e proferiu com voz cava e decidida: Cartaxo. Ala que se faz tarde! Foi um instante apoderar-se de Santarém e Lisboa para que todo aquele mar tinto fosse dele.

Mas o leite estava-lhe no sangue, como a ADN mitocondrial na profusão de células que constituíam o seu corpo imenso e latagão. E esse leite, esse ADN mátrio, era o galaico-português, sua língua materna. Rainha deposta, mãe Jocasta vencedora. E Portugal à mercê da Esfinge.

A pátria, diz-se – dizem – é eterna. Pois, se Pátria significa, uns a mandarem, os outros a trabalhar, assim sim, continuamos a ter pátria, cristãos e mouros, sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sæcula sæculorum. No revés, a Mátria é útero acolhedor: primeiro, galegos, lusitanos e magrebinos; depois, africanos, asiáticos e ameríndios; hoje um pouco por todo o mundo. O meu lugar é o Mundo, em qualquer parte que se fala o Português.

Pena é os políticos portugueses, quando dizem coisa importantes, só falarem inglês.