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O deserto, ou o observador observado.


O observador é aquele que se abre para o Mundo e o esclarece. Ao dar-se conta, o observador vê-se como observado e esclarece o seu estar-no-mundo. Daí a interrogação sobre o ser que é desse modo surpreendido. A nossa empresa é uma experiência no vazio: consiste em reduzir a densidade do Mundo na tentativa de captar, nessa leveza, o observador observado.

Considera-se geralmente o corpo animal como um ente do mundo material: uma carcaça, uma máquina fisiológica.

O observador observado é, segundo a Metafísica, uma alma, uma sombra alienígena que se instala num “corpo”, à nascença do indivíduo, e que se liberta deste na altura da morte, condenando-o à dissolução e dispersão da matéria.

Sócrates, o arauto da Metafísica, decretou a espiritualidade e imortalidade da alma. Pensou-se, durante muito tempo, que Sócrates havia enaltecido o humano; pensa-se, hoje, que apenas aviltou o corpo.

De acordo com o pensamento pós-socrático, a alma vive no mundo material encarcerada no corpo, mas não é do Mundo. De acordo com Platão, que desenhou os elementos chave da arquitectura da Metafísica, e que, por esse facto, veio a condicionar todo o desenvolvimento posterior do pensamento ocidental, o mundo que se reconhece é uma réplica imperfeita do mundo ideal que a alma revive por reminiscência de uma vida passada.

Quando a Metafísica ocidental cruzou os seus genes com o Monoteísmo semita gerou o pensamento cristão medieval, um monolito assente na congruência das duas vias estabelecida por uma cadeia de analogias. O mundo ideal hiperurânico era, afinal, o paraíso perdido; o povo eleito era, afinal, um rebanho de almas descarnados à procura de descanso e da contemplação na eternidade.

Descartes, no alvor da modernidade, sanciona a ruptura final considerando o mundo material e a Alma como duas res distintas, definidas respectivamente como extensão e cogitância. A Alma adveio consciência de si renitentemente resistente ao teste da dúvida metódica.

Para a metafísica a questão resume-se à seguinte fórmula: a Alma odeia o mundo material e anseia pelo regresso ao Paraíso.

A crítica de Nietzsche à Metafísica e a fundamentação científica do pensamento naturalista ensaiada a primeira vez por Darwin provocaram duros golpes na concepção metafísica do Mundo. No meio dos estragos, Freud e Marx esforçam-se por salvar o que puderem. Ambos se dizem materialistas: Freud assenta no materialismo biológico e procura demonstrar a origem da alma em impulsos dinâmicos primordiais anteriores ao aparecimento da consciência; Marx fundamenta-se no materialismo social e económico e procura remontar a parábola do povo eleito e caído em lenta progressão para o paraíso prometido. Apesar de materialistas, são judeus a recuperar os mitos da criação, do pecado original e da redenção.

Deixemo-nos, por ora, de Marx e concentremo-nos na metafísica da Alma restaurada por Freud. A Alma é o resultado de pulsões básicas inconscientes e em conflito no mundo. Não é um Eu (Ego), é um Isso (Id), um ser impessoal e sem consciência de si a debater-se no mundo pela satisfação de necessidades, conduzido pelo princípio da obtenção do prazer ou, melhor dizendo, da quietação da dor (libido). A consciência é um epifenómeno resultante do embate das pulsões inconscientes com o mundo. À consciência impõe-se o Eu Ideal (Superego), princípio super-ordenador que se esforça por socializar a besta desordenada e em fúria contra um mundo que lhe resiste. A essa estrutura anímica corresponde um conjunto de sistemas simbólicos que se exercem numa esfera autónoma da esfera biológica, a Cultura. A partir daí a Alma tem dois caminhos: transfigurar ou reprimir as pulsões, conduzindo a comportamentos disfuncionais, neuróticos ou psicóticos; sublimar as pulsões originando a criatividade e a obra de arte. É a restauração do mito judaico-cristão do castigo versus redenção lido na óptica da metafísica, ou seja como um conflito entre a razão e o instinto. Mais tarde, Freud vem a enunciar um novo tipo de impulsos responsáveis por reconduzir o indivíduo à vontade de morrer (thanatos). É a pulsão do retorno ao estádio primitivo: através do útero ao túmulo e, daí, ao nada.

Fechado o anel que iniciámos em Sócrates e fechámos em Freud que conclusões retiramos? Apenas uma: a Metafísica propagandeia o ódio pelo corpo e incita ao desejo da sua dissolução no nada.

Ora, o que vemos quando vamos para o deserto? O que vemos quando surpreendemos o observador?

Darei aqui apenas uma súmula das ideias a que cheguei. A sua explanação detalhada está feita noutro local não se destinando à publicação em blogue.

1. Hiperconsciência do corpo e dissociação do Eu. A exiguidade do Mundo espevita a consciência do Corpo. Incremento das halucinações, da fome e do sono. Em extremo isolamento e em monótona uniformidade, o delírio psicóide. A vida é um sonho acordado. O imaginário é conduzido por diferentes e divergentes personalidades.

2. Manutenção da linguagem e dos outros códigos simbólicos. O Logos é uma estrutura a priori da experiência. A conversação com o interlocutor imaginário assemelha-se à oração, ao Caminho da Perfeição (ver Teresa de Ávila).

3. Cada grão de areia contém a totalidade do Mundo.

4. A tomada de consciência da finitude e do ser-para-a-morte aumenta o apreço pela gratuidade da vida. A vida como absurdo (abs urdum), origem e finalidade incausadas. O sentido da vida é assumir-se livremente como abertura para o Mundo. O sentido da vida passa a ser, assim, o sentido do Mundo.

5. Diabos e símbolos: Esclarecimento do Mundo (é preferível dizer aclaramento do Mundo) - do mundo incógnito (espaço de espaços) ao mundo familiar (lugar de lugares). A criação de mundos: separar (diabolon) e unir (synbolon).

6. O lugar primordial como jardim. A árvore do Bem e do mal no centro do Paraíso é a idade outonal da humanidade.

A verdade

Diz-se que uma coisa é verdadeira ou que não é falsa. Quando se fala de coisas, verdadeiro opõe-se a falso; quando se fala de pessoas, opomos pessoas sinceras a pessoas mentirosas: as pessoas sinceras dizem quase sempre a verdade; as pessoas mentirosas estão preferentemente inclinadas a dizer a mentira.

É neste sentido que dizemos que uma pessoa é verdadeira ou é falsa, conforme o que ela diz contém o verdadeiro ou o falso. Nas pessoas, o verdadeiro e o falso são propriedades do seu dizer. E que dizer das coisas? O rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado, ponto final! Não é que não possa dizer mais coisas sobre o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado... Na realidade, posso dizer uma infinidade de coisas mais, mas o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é o que é, e tudo o mais que eu possa dizer nada lhe acrescenta ou altera a sua realidade.A realidade das coisas é como um fardo que tivessem recebido por herança à nascença. As coisas são o que são, nem verdadeiras nem falsas.

Poderão argumentar que o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é falso, ou porque a luzinha não pisca, por falta de pilhas, ou porque não está à direita do teclado, o que acontece geralmente às segundas feiras porque as senhoras da empresa de limpezas o consideram fora do sítio e o metem sobre uma prateleira de um das estantes do escritório ao lado de outros bibelôs, a miniatura da torre Eiffel, um buda pançudo em jaspe, umas bonecas russas com turbantes variados, o Lampião e a Maria Bonita, uns jagunços de barro lá do sertão no Nordeste brasileiro. Será que o rato sabe disso? A sua factualidade depende dessa mudança? Não. O rato não deixa de ser o que era, o que é e o que sempre será. O que altera é a correcção daquilo que eu digo sobre o meu rato. Se eu mudo o rato da direita para a esquerda, então devo dizer o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à esquerda do meu teclado para que a minha frase esteja mais de acordo com a realidade tal como eu a percepciono. Uma vez mais, verdadeiro e falso têm a ver com as coisas que eu digo.

Os lógicos sempre disseram que o verdadeiro e o falso respeitam à proposição. Se uma proposição é verdadeira, a proposição que se obtém através da sua negação é falsa. E vice-versa. O verdadeiro e o falso são valores lógicos. Com bases nas proposições, nas operações lógicas (como a negação) e nos dois valores – ponho agora de lado a questão mais complexa das lógicas multimodais – pode construir-se uma álgebra proposicional que nos permite obter conclusões verdadeiras com base em raciocínios formalmente correctos. É esta álgebra que está agora a pôr o meu computador a funcionar. Rezo todos os dias para que ele continue subordinado a esse poder e para que não seja possuído por uns espíritos malfazejos que o põem muitas vezes a desconseguir.

Mas o que me garante que uma proposição inicial - ou seja uma proposição que não é inferida seguramente de outras proposições verdadeiras - é verdadeira, que está conforme com a realidade? Por exemplo, como posso certificar-me que o rato sem fios está a piscar uma luzinha vermelha e que se encontra à direita do meu teclado? E como posso também certificar os outros a quem digo ou escrevo que o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado?

Para atalhar razões e poupar tempo ao leitor digamos simplesmente tratar-se de um processo de verificação. Quando olho para o rato, vejo-o a piscar uma luzinha vermelha e vejo-o situado à direita do meu teclado. Parece que disse tudo, não é? Nada mais errado!

Referi-me a dois processos perceptivos: um activo, o olhar; o outro passivo, o ver.

O rato está permanentemente sob a alçada da minha visão, mas realmente só o vejo quando o procuro, quando olho para ele. Por outras palavras, ver não é um processo neutro, é um processo influenciado por uma intencionalidade, por um querer ver interessado. As pessoas vêem o que querem e não vêem o que não querem. Como diz o ditado, mais cego é o que não quer ver...

Para chegar à verificação da verdade de uma proposição dependo da sinceridade, da honestidade da minha procura. Mas não só. Sabemos que a visão pode ser distorcida por factores pessoais e ambientais: pelo meu estado mental que, em desequilíbrio, pode provocar delírios e alucinações; por condições ópticas particulares do ambiente que podem induzir ilusões.

Para começar, o observador que descreve a realidade que observa deveria estar certificado por entidade idónea e competente, digamos o Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, em como o seu estatuto mental se encontra devidamente balizado entre os parâmetros da normalidade. E não chega: carece também de um controlo rigoroso dos eventos que antecederam a observação não vá esta ser perturbada pela ingestão de alcool, tabaco, estimulantes ou estupefacientes de qualquer natureza. Toda a gente sabe até que ponto um incómodo físico - a flatulência, um enxaqueca ou uma dor de dentes – basta para distrair o intelecto e produzir uma má percepção da realidade.

Mas devemos munirmo-nos ainda de mais cuidados. As histórias das miragens no deserto não são tretas para entreter a imaginação dos sedentários urbanos. Ainda há pouco tempo, em pleno deserto, viajando de burro de Ash Shati para Ubari (Awbari) pude ver os verdejantes prados que se perfilavam à minha frente cheios de canas de milho alinhadas como soldados numa parada, como na levada do meu avô materno na Beira, e as verdes hortas rodeadas de palmeiras e de poços com noras tão comuns na minha memória das qvintas de Bemfica no início dos annos cincoenta. A circunstância completa de quem observa deve ser completamente descrita em protocolo e apensa aos registos da observação. Como num tribunal, as circunstâncias agravam ou atenuam os delitos de observação.

Procura-se muitas vezes compensar o enviesamento pessoal recorrendo a uma multiplicidade de testemunhos: a objectividade resultaria da intersubjectividade dos vários sujeitos da observação. Se dispuséssemos de tempo suficiente, digamos de um tempo infinito, poderíamos discutir as nossas divergências resultantes do ponto de vista particular de cada um dos observadores até obter um consenso generalizado sobre um discurso que descrevesse com perfeição o objecto da nossa percepção. Esse discurso seria verdadeiro.

O desgaste da idade faz-nos apreciar o consenso. Lutas, oposições, pontos de vista são desgastantes. Juntar os inimigos – dizemos, então, os adversários – de antigamente, jogar à sueca e despejar umas loiras, a meio da tarde, só pode ser superado por juntar os adversários de antigamente, cantar uns fadunchos sentimentalões, comer chouriço assado e despejar carrascão aos cântaros pelas goelas abaixo no correr da noite. O consenso é a velhice. Vejamos: o que é estar de acordo? É suprimir os contrários em que discordamos e aceitar as generalidades irrecusáveis. Nada se ganha com as generalidades, tudo se perde na falência dos pormenores.

Uma verdade assim de nada nos serviria. Recordo a minha primeira namorada (que será feito dela?) que me dizia: “Sei que me mentes descaradamente. Mas que me importa, se é bonito!...”. E tinha razão: uma verdade obtida por consenso é uma verdade sem atavios, tão cinzenta quanto um quadro de uma multinacional. Não há como compor a verdade, e isso tem que ser à maneira de cada um. Então, lá se vai a verdade.

Podemos contornar esse obstáculo recorrendo ao olho de deus.

Espantado? Espantada? Não sabe o que é? Receia dar ouvidos a heresiarcas? Acalme-se, não tenha receios: este é, foi e será o processo mais comum e mais aceite de garantir a verdade.

Permitam-me entretanto que perambule um bocadinho até chegar ao olho de deus. Quando andava na catequese em Benfica esforçava-me por ter as lições na ponta da língua para poder ver as projecções de cenas da Bíblia que o padre Proença passava para os melhores catequisandos. Não se riam que não é caso para isso. Conseguem imaginar como seria a vida quando não havia televisão? Sim, não havia televisão! O melhor que um miúdo da minha idade podia desejar era ir duas ou três vezes por ano ao cinema da Av. Gomes Pereira, onde hoje é a sede da Junta de Freguesia, para ver filmes para maiores de 6 anos antecedidos pelos “desanimados”. Para ver o mundo para além da nossa rua era preciso dar corpo e cor aos figurinos e personagens dos romances radiofónicos ou esperar pelo Verão para ir à praia. Então, todo contente, lá ia marcar presença, creio que nas tardes das quintas-feiras, e procurar lugar na primeira fila. As histórias eram maravilhosas: o irmão mau que matava o irmão bom; um homem justo incomodado por deus e pelo diabo, que se conluiavam para lhe matar a família, dissipar a fortuna, e, não contentes, mandavam-lhe chagas com pus que lhe roíam a carne e os ossos; a mulher que fugia da cidade do pecado e que, ao olhar para trás, foi convertida numa estátua de sal; o guerreiro, desgrenhado como um beatle, a quem a mulher, a soldo do inimigo, lhe corta as tranças que lhe davam uma força sobre-humana; o velhote que mete uma data de animais num titanic à prova de tsunamis e fica lá o tempo todo à espera duma pomba que lhe há-de trazer no bico um raminho de oliveira. Histórias maravilhosas que se misturavam com as do Tintin, Mandrake, Mortimer, Tarzan, Zorro, apanhadas à página aos sábados no Mosquito ou no Cavaleiro Andante.

Foi nestas andanças das merecidas projecções das quintas-feiras que me encontrei pela primeira vez frente ao olho de deus. Imaginem um cenário qualquer, uma cena bíblica, deus a entregar as tábuas da lei a Moisés. Deus não está lá em pessoa. Vê-se uma nuvem espessa, tipo uma nimbus rechonchuda e, a espreitar lá por detrás, um triângulo isósceles com um olho incrustado que faísca raios dirigidos para a cena humana: o olho de deus.

O olho de deus é como um bird’s eye view que tudo vê lá de cima. Se estou aqui frente ao monitor, o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha aparece-me à direita do meu teclado. O Gervásio, quando está à minha frente a querer que lhe dê atenção e lhe explique um ou outro pormenor de não sei o que escrevi há não sei quanto tempo, dir-me-á que vê o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à esquerda do meu teclado. E assim se dá uma inversão de posições, explicada por uma diversa perspectiva, geradora, noutros casos, claro, de guerras e genocídios terríveis. O olho de deus não é assim, não tem perspectiva: tudo o que vê, vê de uma maneira absoluta. As coisas aparecem na sua infinitude no espaço e no tempo.

E há mais. À abrangência acresce a penetratividade: o olho de deus tudo penetra – o corpo, a alma, o espírito, a mente, a consciência. Deus está sempre a espreitar no mais íntimo de nós e a pesar comportamentos, palavras e pensamentos, opondo os bons aos maus, escrevendo-os no Deve e no Haver do céu para ajustar contas após a nossa partida. Como tudo é visível à luz do olho de deus, a verdade é o que deus vê. O melhor que o homem pode fazer para descobrir a verdade é empoleirar-se algures num recôndito do crânio divino e experimentar olhar através do seu olho. A verdade existe e é objectiva: são as projecções no olho de deus.

Aristóteles, Tomás de Aquino e Ratzinger procuram convencer que o ser o humano é particularmente dotado para descobrir a “Verdade” porque há algo nele, um lumen naturale, que é parte da ocularidade divina. Essa luz interna (intellectus, do latim intus + legere) que nos permite “ler dentro” das coisas permite-nos chegar à “Verdade” desde que amparada pelas escrituras, a tradição e o magistério da igreja

católica-romana. E para que todas leiam da mesma maneira há o dogma e a infalibilidade papal. Há também a santa inquisição e a fogueira onde ardem todas as mentiras.

Não é porém a Verdade propriedade exclusiva dos romanos católicos. Hitler, Salazar, Estaline, entre outros, defenderam à sua maneira a Verdade. E tiveram ao seu serviço instrumentos e tecnologia, com mais ou menos ponta, para induzir ou extrair a verdade. O marketing, a publicidade e os meios de comunicação social são os meios utilizados hoje para defender e propagar a Verdade do capitalismo global (“a sociedade de mercado num mundo globalizado”).

“O que é a verdade?”, pergunta o prefeito ao mensageiro da Verdade divina. O evangelho de João não nos dá a resposta.

E se toda realidade fosse uma obra criativa, um romance que vai sendo criado a cada momento ao sabor da inspiração divina? O problema da verdade não se punha e a pergunta de Pilatos, personagem focal deste romance policial, ou romance de série negra, seria: “O que é a realidade?”.

Os gregos deram à verdade o nome de aletheia que, em português, soa a “des-vendamento”. Para eles, verdade é tirar a venda à realidade, é des-cobrir, pôr a realidade a nu. Como isso se faz e o que daí se obtém só o sabemos pelo que eles fizeram: demolindo mitos, pondo todas as verdades à prova, inquirindo, experimentando e testando soluções novas, pondo o dedo nas feridas humanas, incomodando os deuses, desafiando o destino.

É errar, é perder-se e reencontrar-se. Sem poupar esforços. Sem fim à vista.

Os divinos gregos retrataram a verdade na imagem de Sísifo. Para descobrir a verdade, cada um tem que empurrar a sua rocha para o topo da montanha. Só que a verdade não se dá bem com o topo da montanha. Ao atingi-lo, resvala pela vertente abaixo à procura das sombras dos vales.

Este lugar é meu: se não fosse meu, não seria lugar.

Reivindico. Rei, vindico! Ego vindicator. Res, rei: res privata, res publica.

Textos de Perdido

Eis pois agora a oportunidade de publicar os textos de Perdido após rigorosa selecção.

O texto agora apresentado cataloguei-o como anexo ao Ensaio sobre o Lugar.

Perdido escreveu vários textos a explorar a natureza do lugar: não são textos expositivos, pois não esclarecem ideias ou significações, não aduzem argumentos, não perfilam um ponto de vista a defender ou a atacar. São o que chamava “perambulações”, passeios quase obsessivos à volta de um lugar.

Nas suas brilhantes dissertações nos seus “serões de aldeia”, Perdido perdia-se a divagar sobre lugares, caminhos, partidas e chegadas.

Seguia à letra a ideia de que um caminho só se dá a conhecer “pela queima anaeróbica de açúcar nas miofibrilhas dos membros inferiores”, ou seja pelas dores na barriga das pernas. Nevasse ou gelasse lá fora, fazia as caminhadas, em substituição, no seu imaginário a custo de palavras. Nós seguíamo-lo na peugada.

Era como desembrulhar os nós de um novelo de lã usado nas brincadeiras do Bolinha e do Ratito. Sabíamos que o esforço valia a pena ao ver o novelo finalmente desnovelado.

O texto agora apresentado coloca a questão difícil de como relacionar um mundo interno, subjectivo, o mundo do Eu definido pelo pensamento, com uma externalidade objectiva, a Natureza, os Outros, o Além, de acordo com uma problemática dos antigos gregos, ressuscitada por Descartes com a noção de Coisa, a casa de espelhos partidos onde se reflectem o pensamento a extensão e a infinidade.

Perdido desconfia que Descartes não fala de Coisa (res) mas de Causa e que é necessário que se repense a problemática iniciada pelo Cogito a partir de uma experiência comum a seres humanos e a gatos, a experiência dos lugares.

Ao experimentar lugares relacionados, Perdido concluía, geralmente, que as pontes genuínas são uma mistura de ausências e presenças invisíveis. A essa re-ligação chamava Perdido a natureza verdadeira da Religião (re-ligatio).

Pena é não termos Perdido connosco para ajuizar do nosso esforço de interpretação.

Perdido encontra-se desaparecido desde o passado dia dez. Registámos que se encontra de boa disposição a ajuizar pelos artigos publicados depois dessa data, estando ele algures. Porém, depois disso já passou mais tempo do que gostaríamos.

Foi-se embora sem despedidas, dizendo apenas que ia acampar e explorar as montanhas e os rios de Trás-os-Montes. Levou consigo pouca coisa: fazia-se acompanhar do seu inseparável kit de sobrevivência. Preocupa-nos o facto de ainda não nos ter contactado, bem como sabermos ter deixado para trás todos os cartões bancários, telemóveis e medicamentos para a hipertensão. Que o seu anjo da guarda o acompanhe e o traga cedo para casa, para junto da família e dos amigos. As autoridades já foram devidamente alertadas.

Gervásio Leonel.


O exterior, a ausência inquietante do som e a presença do invisível

Ponho-me em bicos dos pés: nada vejo! À volta nada de útil a não ser uma velha cadeira desdobrável. Vou buscá-la. Tem uns oitenta centímetros de altura e um ar frágil embora a madeira, de pinho, ainda aparente uma suficiente robustez. Robustez é um termo demasiado forte, claro, porque só convém ao carvalho, o velho robur; é preferível dizer solidez! Desdobro-a não sem antes ter hesitado no tipo de operação a realizar. Basicamente é constituída por três peças que se justapõem ao fechar. Para abrir, uma das peças, a de maior comprimento que servirá de espaldar e de pés dianteiros, deve ficar hirta, erecta na perpendicular; as outras duas peças deslizam solidárias após empurrar uma delas, a inferior abrindo-se para formar os pés traseiros em perpendicular com a peça grande, que agora desliza um tudo-nada para a frente no sentido oposto, a superior que retoma a horizontalidade para formar o assento. Uma cadeira é uma coisa útil, serve para uma pessoa se sentar. É evidente que estamos sempre a dar utilidades novas às coisas úteis: uma cadeira pode servir de pequeno escadote para trepar a uma altura não muito elevada. Não o fazemos mais vezes por decoro: porquê pôr os pés, que andam no chão, num sítio onde normalmente nos sentamos? O assento é uma coisa sagrada, que não pode ser conspurcada: quer se trate do assento lugar do nosso corpo, quer se trate do assento lugar da cadeira. O assento é o lugar do poder e do privilégio: é o trono do monarca, a sede () do bispo, a cátedra do universitário. O assento é o lugar da morte e da ressurreição: é a “cadeira eléctrica”, é a cadeira do Salazar, é o sentar-se à direita ou à esquerda do Cristo, na Última Ceia, ou do Deus Padre, no Paraíso Celestial. O assento e o lugar são termos quase intermutáveis: quando pedimos para nos reservar sete lugares no restaurante, ou no avião, ou no teatro, no fundo, muito no fundo, estamos a pedir que nos reservem sete assentos. É certo que podem restar só lugares em pé – trata-se, todavia, de lugares de importância reduzida, que nos amesquinham e nos lembram que estamos sempre a ser relegados para uma casta inferior, a tornarmo-nos pessoas de segunda como negros num Apartheid. Mas pôr um pezinho é coisa a que às vezes nos atrevemos. Não se trata de “pôr a pata em cima”, acto de uma extrema brutalidade, de uma rudeza de bárbaros com tranças e bigodes lanudos. É só pôr um pezinho! O outro vem atrás, de mansinho. E, se está alguém a ver, até tiramos os sapatos por reverência. Não é o meu caso, estou descalço e tenho que subir. Pôr-me em bicos dos pés não resulta: nada vejo!

Monto-me finalmente na cadeira de pinho, que até nem está desengonçada; além de sólida, é firme. Serve perfeitamente para os meus propósitos. Alongo a coluna como vi fazer aos gatos, estiro o pescoço em curva na direcção da janela e espreito.

Um jorro de luz intensa obriga-me a semicerrar as pálpebras. É pleno dia, concluo. Do outro lado, paredes brancas, nuas, intensas, reflectem. Como a Lua, cogito. A luz reparte-se de igual por todos os cantos do quadro; as sombras não obedecem a perspectivas, são planas, são como que luz recatada, meditativa, ensimesmada. Não há pessoas, não vagabundeiam gatos nem cães, nas árvores alinhadas não cintilam as folhas prateadas por cair, nem revolteiam folhas já caídas ou a cair. Pressinto uma falta. Será que se pode pressentir uma falta? Que uma falta ainda não é enquanto não se descobre o que falta? Ou devo dizer: sinto uma falta. Como se a falta fosse já actual e positiva, um absoluto, e não a ausência de qualquer coisa que ali viesse a ser colocada num instante intemporal para ser, no mesmo instante, negada. A falta é o lugar do desaparecimento, da ausência, do abandono. Reflicto nisto enquanto dou voltas aos meus pensamentos. O que deveria estar ali e não está? Desisto de olhar, os objectos não nos aparecem por varrermos os lugares. É como a memória que queremos dizer e não podemos porque a temos debaixo da língua. O melhor é não insistir, pensar noutra coisa. A memória voltará quanto menos se espera.

Desço a cadeira, cansado da tensão muscular, e sento-me. No quarto semi-iluminado não há nada a não ser a cadeira, o meu corpo e a janela. Há pouco estávamos os três em processão – a cadeira, eu, a janela, numa continuidade que ia do interior para o exterior. Agora, a janela está lá em cima a advertir-nos que há algo lá fora, que esse algo se revela numa luz intensa e que, todavia, outro algo falta também. Nós, o meu corpo e a cadeira, cá em baixo, numa comunhão de assentos. “Nós” que termo interessante, reflicto, plural da primeira pessoa do pronome pessoal no caso nominativo. Este termo, “nós”, faz do meu corpo e da cadeira um colectivo pessoal: o meu corpo-pessoa, a minha cadeira-pessoa. “Nós” é um círculo num diagrama de Venn que mete lá dentro duas pessoas. Pessoa, personna, “o que repercute o som”. No teatro e na vida social, aos lugares que repercutem o som chamamos personagens. As personagens desempenham papéis que alguém escreveu para eles e proferem frases. Dizem aquilo que se espera que digam, de acordo com o seu papel e estatuto. Portanto, estamos aqui duas personagens, a minha cadeira e o meu corpo unidos pelos respectivos assentos, desempenhando, melhor ou pior, não sei que papéis, sabendo que algum som perpassa por nós.

… perpassa por nós. Perpassa o quê? É isso, é isso mesmo, é o som, era o som que faltava lá fora!

Levantei-me, ajeitei a cadeira que encostei à parede do quarto, alcei-me em direcção à janela, aparelhei as orelhas e escutei: era o som, ou melhor a falta do som… que estava ali, sempre estivera ali, até de me dar conta da sua presença como falta, de me dar conta da não presença do som.

Lá confirmei as paredes brancas, a luz tépida das sombras, o imobilismo das árvores de copas projectadas no azul intenso do céu. Não, não se ouvia nada. Apenas um cenário de filme mudo. Um mundo luminoso mas impessoal, sem máscaras. Algo não batia certo: onde há movimento, há vibrações acústicas que o cérebro interpreta na forma de sons. De certo que não havia ensurdecido, assim, de um momento para o outro. Para o confirmar até comecei a assobiar, mandei para o ar duas ou três palavras. Primeiro, daquelas que são certinhas, com certificado de qualidade e apólice de seguradora, que não ferem a sensibilidade das senhoras de idade e classe médias, que não despertam a mórbida curiosidade da polícia secreta, dos espiões e demais profissionais da escuta; depois, não fossem estas palavras, vagamente ciciadas, das que não são ouvidas por ouvidos de pessoas sérias e honestas – porque o autêntico ouvir não está no deixar entrar mas no atender o que entrou – comecei a usar termos grossos, dos que são atribuídos aos camionistas e aos trolhas, dos que são usados pelas mulheres ditas de má vida para estimular a cupidez dos clientes, proferidas com articulação pausada e sonora, que atravessam o espaço e vão perturbar no céu a concentração dos escribas que anotam os nossos pecadilhos no livro do juízo final. Não precisei, porém de mais testes para me certificar de que não estava surdo, que não estava em mim a razão por que não ouvia o som lá de fora. Simplesmente, se não ouvia era porque, ou o som não estava lá, ou algo impedia que chegasse até mim.

Se um percurso é interrompido pensamos automaticamente num obstáculo.

Sabemos que não é assim com a nossa vida: será interrompida e pronto! Pelo menos julgamos que será assim, porque deduzimos de outros casos que já presenciámos no passado. No meu passado há muitas mortes e poucas interrupções de vida. As mortes são notícias do obituário, uma página especial dos jornais, ao lado das notícias da política, do trabalho, da economia, da vida mundana, do desporto e de outras veleidades. Às vezes são notícias centenárias que nos lembram existências passadas de santos e heróis, de bandidos e cobardes. Mas estas não vêm ao caso para o fim dos meus raciocínios: não falam nunca das pessoas comuns, pessoas como a gente. Interrupções de vida, que eu registasse, houve poucas: a do Rui, filado pela droga e posteriormente internado em instituição psiquiátrica, aprendeu aí o gosto pelo álcool e morreu hepático; a do Luís, regressado da Alemanha com muita idade a trabalhar no duro, sempre disposto a uma história interessante, um dia chegou cedo ao trabalho, bebeu uma cerveja fresca e passou-se; a do Zé, de quem fiz meu amigo no dia em que o conheci, que na semana seguinte sentiu uns pequenos tremores na pele das mãos e, passado um ano, estava completamente imobilizado, respirando a pequenos tragos o ar, até que os músculos da garganta se cerraram inertes garroteando-o; a do pai que, nunca bebera uma gota de álcool, se deixou afogar nas águas insalubres do Tejo; a de outro Zé que conheci também no trabalho uma semana antes de se lhe partir o cordão umbilical com a vida, a esforçar-se até à última em preito de fidelidade a uma multinacional canina; a da engenheira Palmira, pessoa de afecto e merecedora de muito respeito, mas não respeitada pela vida que a ceifou prematuramente e sem negociação nem aviso prévio; a da madrinha Leninha, minha companheira dos passos que ensaiei em primeiro lugar, a mediadora entre a minha inexperiente infância e a maturidade distante dos meus mais velhos. Os outros casos foram casos de morte, como o dos avós que iam, um após outro, ano após ano, denunciando o contrato com a vida; como o dos camaradas abatidos em África, surpreendidos pela ceifeira fora do seu tempo e do seu espaço. A maioria dos casos era de mortes normais prognosticadas em todas as tabelas actuariais.

Tirando o caso da vida, que pode ser interrompida sem mais, sem algo a estorvar o seu percurso, qualquer outro percurso só poderá interrompido pela interposição de um obstáculo. Não estando surdo, por que é que o som não chegava até mim? Onde estava o obstáculo que o impedia? Olhei outra vez: o quadro permanecia o mesmo, inalterado na sua composição e qualidades, diria até que parecia uma fotografia, um poster como os que os adolescentes colam nas paredes dos seus quartos, que estava ali a tapar a janela para impedir que visse o lado de lá.

Deixei-me, por momentos, ceder à tentação do cepticismo. Haveria mesmo um lugar habitável para além do meu quarto, conforme me mostrava a minha janela? Ou seria a janela apenas um poster de quarto de adolescente, ali pegado à parede por aquela espécie de plasticina azul que se mete em cada canto e um pedaço no meio para o colar à parede, ou arrancar se for preciso?

Cheguei-me à frente movido pela curiosidade, pelo cansaço, pela aura de uma claustrofobia iminente. Senti o nariz a esborrachar-se e a regelar e uma mancha leitosa provocada pela expiração do ar quente toldou-me a percepção das paredes brancas intensamente iluminadas, das árvores e das sombras semidespertas. Registava ali uma aparição inaparente, uma barreira anti-som, uma visão camuflada, uma presença ausente: era o vidro.

Queremos ver e não vemos porque está à frente dos nossos olhos. É um vidro numa janela, ou numa porta contra a qual esbarramos, ou as lentes dos nossos próprios óculos. Com a manga da camisola esfreguei a vidraça até não restar uma pinga de vapor. Só lá ficaram uns filamentos de lã enovelados a uma esquina da janela. O branco retomou a sua alvura, o sol a sua luminosidade, as árvores a sua quietude. Presumi o som que continuou a ser desautorizado pelo vidro. Fiz uma soma a giz no quadro negro do meu cérebro e inscrevi por baixo daquele quadro a seguinte legenda: “O exterior, a ausência inquietante do som e a presença do invisível”.

Desci. Dobrei a cadeira e arrumei-a ao alto a um canto da parede. O tempo passara sem dar por isso. O horizonte tinha começado a ficar rubro e a luz fora-se esgotando, de nascente para poente, pensei.