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O deserto, ou o observador observado.


O observador é aquele que se abre para o Mundo e o esclarece. Ao dar-se conta, o observador vê-se como observado e esclarece o seu estar-no-mundo. Daí a interrogação sobre o ser que é desse modo surpreendido. A nossa empresa é uma experiência no vazio: consiste em reduzir a densidade do Mundo na tentativa de captar, nessa leveza, o observador observado.

Considera-se geralmente o corpo animal como um ente do mundo material: uma carcaça, uma máquina fisiológica.

O observador observado é, segundo a Metafísica, uma alma, uma sombra alienígena que se instala num “corpo”, à nascença do indivíduo, e que se liberta deste na altura da morte, condenando-o à dissolução e dispersão da matéria.

Sócrates, o arauto da Metafísica, decretou a espiritualidade e imortalidade da alma. Pensou-se, durante muito tempo, que Sócrates havia enaltecido o humano; pensa-se, hoje, que apenas aviltou o corpo.

De acordo com o pensamento pós-socrático, a alma vive no mundo material encarcerada no corpo, mas não é do Mundo. De acordo com Platão, que desenhou os elementos chave da arquitectura da Metafísica, e que, por esse facto, veio a condicionar todo o desenvolvimento posterior do pensamento ocidental, o mundo que se reconhece é uma réplica imperfeita do mundo ideal que a alma revive por reminiscência de uma vida passada.

Quando a Metafísica ocidental cruzou os seus genes com o Monoteísmo semita gerou o pensamento cristão medieval, um monolito assente na congruência das duas vias estabelecida por uma cadeia de analogias. O mundo ideal hiperurânico era, afinal, o paraíso perdido; o povo eleito era, afinal, um rebanho de almas descarnados à procura de descanso e da contemplação na eternidade.

Descartes, no alvor da modernidade, sanciona a ruptura final considerando o mundo material e a Alma como duas res distintas, definidas respectivamente como extensão e cogitância. A Alma adveio consciência de si renitentemente resistente ao teste da dúvida metódica.

Para a metafísica a questão resume-se à seguinte fórmula: a Alma odeia o mundo material e anseia pelo regresso ao Paraíso.

A crítica de Nietzsche à Metafísica e a fundamentação científica do pensamento naturalista ensaiada a primeira vez por Darwin provocaram duros golpes na concepção metafísica do Mundo. No meio dos estragos, Freud e Marx esforçam-se por salvar o que puderem. Ambos se dizem materialistas: Freud assenta no materialismo biológico e procura demonstrar a origem da alma em impulsos dinâmicos primordiais anteriores ao aparecimento da consciência; Marx fundamenta-se no materialismo social e económico e procura remontar a parábola do povo eleito e caído em lenta progressão para o paraíso prometido. Apesar de materialistas, são judeus a recuperar os mitos da criação, do pecado original e da redenção.

Deixemo-nos, por ora, de Marx e concentremo-nos na metafísica da Alma restaurada por Freud. A Alma é o resultado de pulsões básicas inconscientes e em conflito no mundo. Não é um Eu (Ego), é um Isso (Id), um ser impessoal e sem consciência de si a debater-se no mundo pela satisfação de necessidades, conduzido pelo princípio da obtenção do prazer ou, melhor dizendo, da quietação da dor (libido). A consciência é um epifenómeno resultante do embate das pulsões inconscientes com o mundo. À consciência impõe-se o Eu Ideal (Superego), princípio super-ordenador que se esforça por socializar a besta desordenada e em fúria contra um mundo que lhe resiste. A essa estrutura anímica corresponde um conjunto de sistemas simbólicos que se exercem numa esfera autónoma da esfera biológica, a Cultura. A partir daí a Alma tem dois caminhos: transfigurar ou reprimir as pulsões, conduzindo a comportamentos disfuncionais, neuróticos ou psicóticos; sublimar as pulsões originando a criatividade e a obra de arte. É a restauração do mito judaico-cristão do castigo versus redenção lido na óptica da metafísica, ou seja como um conflito entre a razão e o instinto. Mais tarde, Freud vem a enunciar um novo tipo de impulsos responsáveis por reconduzir o indivíduo à vontade de morrer (thanatos). É a pulsão do retorno ao estádio primitivo: através do útero ao túmulo e, daí, ao nada.

Fechado o anel que iniciámos em Sócrates e fechámos em Freud que conclusões retiramos? Apenas uma: a Metafísica propagandeia o ódio pelo corpo e incita ao desejo da sua dissolução no nada.

Ora, o que vemos quando vamos para o deserto? O que vemos quando surpreendemos o observador?

Darei aqui apenas uma súmula das ideias a que cheguei. A sua explanação detalhada está feita noutro local não se destinando à publicação em blogue.

1. Hiperconsciência do corpo e dissociação do Eu. A exiguidade do Mundo espevita a consciência do Corpo. Incremento das halucinações, da fome e do sono. Em extremo isolamento e em monótona uniformidade, o delírio psicóide. A vida é um sonho acordado. O imaginário é conduzido por diferentes e divergentes personalidades.

2. Manutenção da linguagem e dos outros códigos simbólicos. O Logos é uma estrutura a priori da experiência. A conversação com o interlocutor imaginário assemelha-se à oração, ao Caminho da Perfeição (ver Teresa de Ávila).

3. Cada grão de areia contém a totalidade do Mundo.

4. A tomada de consciência da finitude e do ser-para-a-morte aumenta o apreço pela gratuidade da vida. A vida como absurdo (abs urdum), origem e finalidade incausadas. O sentido da vida é assumir-se livremente como abertura para o Mundo. O sentido da vida passa a ser, assim, o sentido do Mundo.

5. Diabos e símbolos: Esclarecimento do Mundo (é preferível dizer aclaramento do Mundo) - do mundo incógnito (espaço de espaços) ao mundo familiar (lugar de lugares). A criação de mundos: separar (diabolon) e unir (synbolon).

6. O lugar primordial como jardim. A árvore do Bem e do mal no centro do Paraíso é a idade outonal da humanidade.

O globo e o deserto.

Na globalização real que houve e foi portuguesa, viajar foi aparelhar as caravelas e partir, deixando o corpo ir nelas.

No nosso contemporâneo mundo global, cibernavegar não é mais viajar, não é senão riscar trajectórias saltitantes entre pontos de partida incertos e pontos de chegada provisórios. Agora que o Mundo se extremou no Globo, viajar tornou-se o pular de ponto para ponto, como quem joga à macaca, mas sem trajectória planeada. Tanto dá que este pular seja um pular para a frente, como um pular para o lado ou para trás. Cada coisa está em todo o lugar; em cada lugar cabem todas as coisas. Cada lugar tem enlaces de outros lugares.

Na intermitência do pular ocorre a descorporalização do eu. O corpo estático ostenta-se como a presença do estranho num sítio que fica nas praias (ou nas margens?) do viajar global. O corpo também pode ser informação como imagem captada ou como voz registada. Mas o corpo não é transportado, o que viaja são os bits.

O eu camuflado, ou a mudança de identidade, é o fenómeno decorrente e recorrente da descorporalização. Minimização dos estímulos e dispersão da atenção. Esvazia-se a consciência de si e o eu atafulha-se de figurações.

No outro extremo face ao globo, o deserto.



No deserto escasseiam os estímulos; por isso, os sentidos agudizam-se e a atenção atinge o ponto de concentração máximo. A vigília é o fenómeno decorrente e recorrente de uma outra descorporalização, em que o corpo se torna o duplo, o cúmplice do mundo. Maximização da consciência do eu face ao nada, ou quase nada, do mundo. Dissolução no Nada ou dissolução no Todo? As opções são infinitas. A do monge e a do terrorista suicida são também opções: o monge afasta-se do mundo para a extremidade do Nada, o suicida terrorista explode o mundo na extremidade do Todo.

A verdade

Diz-se que uma coisa é verdadeira ou que não é falsa. Quando se fala de coisas, verdadeiro opõe-se a falso; quando se fala de pessoas, opomos pessoas sinceras a pessoas mentirosas: as pessoas sinceras dizem quase sempre a verdade; as pessoas mentirosas estão preferentemente inclinadas a dizer a mentira.

É neste sentido que dizemos que uma pessoa é verdadeira ou é falsa, conforme o que ela diz contém o verdadeiro ou o falso. Nas pessoas, o verdadeiro e o falso são propriedades do seu dizer. E que dizer das coisas? O rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado, ponto final! Não é que não possa dizer mais coisas sobre o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado... Na realidade, posso dizer uma infinidade de coisas mais, mas o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é o que é, e tudo o mais que eu possa dizer nada lhe acrescenta ou altera a sua realidade.A realidade das coisas é como um fardo que tivessem recebido por herança à nascença. As coisas são o que são, nem verdadeiras nem falsas.

Poderão argumentar que o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é falso, ou porque a luzinha não pisca, por falta de pilhas, ou porque não está à direita do teclado, o que acontece geralmente às segundas feiras porque as senhoras da empresa de limpezas o consideram fora do sítio e o metem sobre uma prateleira de um das estantes do escritório ao lado de outros bibelôs, a miniatura da torre Eiffel, um buda pançudo em jaspe, umas bonecas russas com turbantes variados, o Lampião e a Maria Bonita, uns jagunços de barro lá do sertão no Nordeste brasileiro. Será que o rato sabe disso? A sua factualidade depende dessa mudança? Não. O rato não deixa de ser o que era, o que é e o que sempre será. O que altera é a correcção daquilo que eu digo sobre o meu rato. Se eu mudo o rato da direita para a esquerda, então devo dizer o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à esquerda do meu teclado para que a minha frase esteja mais de acordo com a realidade tal como eu a percepciono. Uma vez mais, verdadeiro e falso têm a ver com as coisas que eu digo.

Os lógicos sempre disseram que o verdadeiro e o falso respeitam à proposição. Se uma proposição é verdadeira, a proposição que se obtém através da sua negação é falsa. E vice-versa. O verdadeiro e o falso são valores lógicos. Com bases nas proposições, nas operações lógicas (como a negação) e nos dois valores – ponho agora de lado a questão mais complexa das lógicas multimodais – pode construir-se uma álgebra proposicional que nos permite obter conclusões verdadeiras com base em raciocínios formalmente correctos. É esta álgebra que está agora a pôr o meu computador a funcionar. Rezo todos os dias para que ele continue subordinado a esse poder e para que não seja possuído por uns espíritos malfazejos que o põem muitas vezes a desconseguir.

Mas o que me garante que uma proposição inicial - ou seja uma proposição que não é inferida seguramente de outras proposições verdadeiras - é verdadeira, que está conforme com a realidade? Por exemplo, como posso certificar-me que o rato sem fios está a piscar uma luzinha vermelha e que se encontra à direita do meu teclado? E como posso também certificar os outros a quem digo ou escrevo que o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado?

Para atalhar razões e poupar tempo ao leitor digamos simplesmente tratar-se de um processo de verificação. Quando olho para o rato, vejo-o a piscar uma luzinha vermelha e vejo-o situado à direita do meu teclado. Parece que disse tudo, não é? Nada mais errado!

Referi-me a dois processos perceptivos: um activo, o olhar; o outro passivo, o ver.

O rato está permanentemente sob a alçada da minha visão, mas realmente só o vejo quando o procuro, quando olho para ele. Por outras palavras, ver não é um processo neutro, é um processo influenciado por uma intencionalidade, por um querer ver interessado. As pessoas vêem o que querem e não vêem o que não querem. Como diz o ditado, mais cego é o que não quer ver...

Para chegar à verificação da verdade de uma proposição dependo da sinceridade, da honestidade da minha procura. Mas não só. Sabemos que a visão pode ser distorcida por factores pessoais e ambientais: pelo meu estado mental que, em desequilíbrio, pode provocar delírios e alucinações; por condições ópticas particulares do ambiente que podem induzir ilusões.

Para começar, o observador que descreve a realidade que observa deveria estar certificado por entidade idónea e competente, digamos o Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, em como o seu estatuto mental se encontra devidamente balizado entre os parâmetros da normalidade. E não chega: carece também de um controlo rigoroso dos eventos que antecederam a observação não vá esta ser perturbada pela ingestão de alcool, tabaco, estimulantes ou estupefacientes de qualquer natureza. Toda a gente sabe até que ponto um incómodo físico - a flatulência, um enxaqueca ou uma dor de dentes – basta para distrair o intelecto e produzir uma má percepção da realidade.

Mas devemos munirmo-nos ainda de mais cuidados. As histórias das miragens no deserto não são tretas para entreter a imaginação dos sedentários urbanos. Ainda há pouco tempo, em pleno deserto, viajando de burro de Ash Shati para Ubari (Awbari) pude ver os verdejantes prados que se perfilavam à minha frente cheios de canas de milho alinhadas como soldados numa parada, como na levada do meu avô materno na Beira, e as verdes hortas rodeadas de palmeiras e de poços com noras tão comuns na minha memória das qvintas de Bemfica no início dos annos cincoenta. A circunstância completa de quem observa deve ser completamente descrita em protocolo e apensa aos registos da observação. Como num tribunal, as circunstâncias agravam ou atenuam os delitos de observação.

Procura-se muitas vezes compensar o enviesamento pessoal recorrendo a uma multiplicidade de testemunhos: a objectividade resultaria da intersubjectividade dos vários sujeitos da observação. Se dispuséssemos de tempo suficiente, digamos de um tempo infinito, poderíamos discutir as nossas divergências resultantes do ponto de vista particular de cada um dos observadores até obter um consenso generalizado sobre um discurso que descrevesse com perfeição o objecto da nossa percepção. Esse discurso seria verdadeiro.

O desgaste da idade faz-nos apreciar o consenso. Lutas, oposições, pontos de vista são desgastantes. Juntar os inimigos – dizemos, então, os adversários – de antigamente, jogar à sueca e despejar umas loiras, a meio da tarde, só pode ser superado por juntar os adversários de antigamente, cantar uns fadunchos sentimentalões, comer chouriço assado e despejar carrascão aos cântaros pelas goelas abaixo no correr da noite. O consenso é a velhice. Vejamos: o que é estar de acordo? É suprimir os contrários em que discordamos e aceitar as generalidades irrecusáveis. Nada se ganha com as generalidades, tudo se perde na falência dos pormenores.

Uma verdade assim de nada nos serviria. Recordo a minha primeira namorada (que será feito dela?) que me dizia: “Sei que me mentes descaradamente. Mas que me importa, se é bonito!...”. E tinha razão: uma verdade obtida por consenso é uma verdade sem atavios, tão cinzenta quanto um quadro de uma multinacional. Não há como compor a verdade, e isso tem que ser à maneira de cada um. Então, lá se vai a verdade.

Podemos contornar esse obstáculo recorrendo ao olho de deus.

Espantado? Espantada? Não sabe o que é? Receia dar ouvidos a heresiarcas? Acalme-se, não tenha receios: este é, foi e será o processo mais comum e mais aceite de garantir a verdade.

Permitam-me entretanto que perambule um bocadinho até chegar ao olho de deus. Quando andava na catequese em Benfica esforçava-me por ter as lições na ponta da língua para poder ver as projecções de cenas da Bíblia que o padre Proença passava para os melhores catequisandos. Não se riam que não é caso para isso. Conseguem imaginar como seria a vida quando não havia televisão? Sim, não havia televisão! O melhor que um miúdo da minha idade podia desejar era ir duas ou três vezes por ano ao cinema da Av. Gomes Pereira, onde hoje é a sede da Junta de Freguesia, para ver filmes para maiores de 6 anos antecedidos pelos “desanimados”. Para ver o mundo para além da nossa rua era preciso dar corpo e cor aos figurinos e personagens dos romances radiofónicos ou esperar pelo Verão para ir à praia. Então, todo contente, lá ia marcar presença, creio que nas tardes das quintas-feiras, e procurar lugar na primeira fila. As histórias eram maravilhosas: o irmão mau que matava o irmão bom; um homem justo incomodado por deus e pelo diabo, que se conluiavam para lhe matar a família, dissipar a fortuna, e, não contentes, mandavam-lhe chagas com pus que lhe roíam a carne e os ossos; a mulher que fugia da cidade do pecado e que, ao olhar para trás, foi convertida numa estátua de sal; o guerreiro, desgrenhado como um beatle, a quem a mulher, a soldo do inimigo, lhe corta as tranças que lhe davam uma força sobre-humana; o velhote que mete uma data de animais num titanic à prova de tsunamis e fica lá o tempo todo à espera duma pomba que lhe há-de trazer no bico um raminho de oliveira. Histórias maravilhosas que se misturavam com as do Tintin, Mandrake, Mortimer, Tarzan, Zorro, apanhadas à página aos sábados no Mosquito ou no Cavaleiro Andante.

Foi nestas andanças das merecidas projecções das quintas-feiras que me encontrei pela primeira vez frente ao olho de deus. Imaginem um cenário qualquer, uma cena bíblica, deus a entregar as tábuas da lei a Moisés. Deus não está lá em pessoa. Vê-se uma nuvem espessa, tipo uma nimbus rechonchuda e, a espreitar lá por detrás, um triângulo isósceles com um olho incrustado que faísca raios dirigidos para a cena humana: o olho de deus.

O olho de deus é como um bird’s eye view que tudo vê lá de cima. Se estou aqui frente ao monitor, o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha aparece-me à direita do meu teclado. O Gervásio, quando está à minha frente a querer que lhe dê atenção e lhe explique um ou outro pormenor de não sei o que escrevi há não sei quanto tempo, dir-me-á que vê o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à esquerda do meu teclado. E assim se dá uma inversão de posições, explicada por uma diversa perspectiva, geradora, noutros casos, claro, de guerras e genocídios terríveis. O olho de deus não é assim, não tem perspectiva: tudo o que vê, vê de uma maneira absoluta. As coisas aparecem na sua infinitude no espaço e no tempo.

E há mais. À abrangência acresce a penetratividade: o olho de deus tudo penetra – o corpo, a alma, o espírito, a mente, a consciência. Deus está sempre a espreitar no mais íntimo de nós e a pesar comportamentos, palavras e pensamentos, opondo os bons aos maus, escrevendo-os no Deve e no Haver do céu para ajustar contas após a nossa partida. Como tudo é visível à luz do olho de deus, a verdade é o que deus vê. O melhor que o homem pode fazer para descobrir a verdade é empoleirar-se algures num recôndito do crânio divino e experimentar olhar através do seu olho. A verdade existe e é objectiva: são as projecções no olho de deus.

Aristóteles, Tomás de Aquino e Ratzinger procuram convencer que o ser o humano é particularmente dotado para descobrir a “Verdade” porque há algo nele, um lumen naturale, que é parte da ocularidade divina. Essa luz interna (intellectus, do latim intus + legere) que nos permite “ler dentro” das coisas permite-nos chegar à “Verdade” desde que amparada pelas escrituras, a tradição e o magistério da igreja

católica-romana. E para que todas leiam da mesma maneira há o dogma e a infalibilidade papal. Há também a santa inquisição e a fogueira onde ardem todas as mentiras.

Não é porém a Verdade propriedade exclusiva dos romanos católicos. Hitler, Salazar, Estaline, entre outros, defenderam à sua maneira a Verdade. E tiveram ao seu serviço instrumentos e tecnologia, com mais ou menos ponta, para induzir ou extrair a verdade. O marketing, a publicidade e os meios de comunicação social são os meios utilizados hoje para defender e propagar a Verdade do capitalismo global (“a sociedade de mercado num mundo globalizado”).

“O que é a verdade?”, pergunta o prefeito ao mensageiro da Verdade divina. O evangelho de João não nos dá a resposta.

E se toda realidade fosse uma obra criativa, um romance que vai sendo criado a cada momento ao sabor da inspiração divina? O problema da verdade não se punha e a pergunta de Pilatos, personagem focal deste romance policial, ou romance de série negra, seria: “O que é a realidade?”.

Os gregos deram à verdade o nome de aletheia que, em português, soa a “des-vendamento”. Para eles, verdade é tirar a venda à realidade, é des-cobrir, pôr a realidade a nu. Como isso se faz e o que daí se obtém só o sabemos pelo que eles fizeram: demolindo mitos, pondo todas as verdades à prova, inquirindo, experimentando e testando soluções novas, pondo o dedo nas feridas humanas, incomodando os deuses, desafiando o destino.

É errar, é perder-se e reencontrar-se. Sem poupar esforços. Sem fim à vista.

Os divinos gregos retrataram a verdade na imagem de Sísifo. Para descobrir a verdade, cada um tem que empurrar a sua rocha para o topo da montanha. Só que a verdade não se dá bem com o topo da montanha. Ao atingi-lo, resvala pela vertente abaixo à procura das sombras dos vales.

Umas palavras de aditamento às palavras do Gervásio

O pragmatismo sanchopancesco do Gervásio permite-lhe conceber e descrever a minha travessia do deserto como uma travessia de lugares comuns que, por erro e perdimento, me teria levado ao deserto. É a sua versão, que, creio, satisfará a maioria dos nossos leitores. A minha versão, que assenta no intento do meu projecto, é outra: a necessidade de me perder dos lugares comuns para, finalmente, me encontrar no deserto, me achar no lugar do despojamento.

Neste particular, o Gervásio não argumenta; ralha e tenta dissuadir - como se pôr a saúde em risco não é o que fazemos quando quotidianamente comemos ou respiramos na nossa cidade. Uns grauzitos a mais na temperatura corporal e uma estranha virose nas ramificações pulmonares são parte da circunstância das nossas existências. Mas isso já lá vai!

Como estive ausente, devo a um ror de gente agradecimentos pelos votos de um bom Natal, de umas boas passagens e, agora, de boas Páscoas. Para quem, como eu, não for dado aos rituais cristãos, mas preferir os rituais pagãos da Natureza Mãe, transformo esses votos nas boas passagens do Solstício passado e, agora, do Equinócio da Primavera.

Vou prometer não importunar mais o meu bom Gervásio, esse bom coração romanticamente monárquico, agora tão ocupado e importante com as celebrações da ida da Corte para o Brasil.

O corpo e o lugar


Tema 1. O corpo.

O lugar imediato é, por excelência, o corpo. Sendo parte integrante do ser humano, com o qual se identifica e confunde, o corpo é também uma parte da totalidade dos objectos dispostos no lugar.

1.1. O corpo enquanto lugar

A minha amiga Bettips, referindo-se à afirmação anterior, ou porventura a outra, ou outras, que eu tenha feito ou sugerido, comentou: “Para mim, um lugar é mais do que espaço ocupado por um corpo, é mais o espaço ocupado por sentimentos.” Não vou discutir a sua opinião (“Para mim, um lugar é”), vou questionar precisamente a expressão “é mais do que”. Quando um arguente diz que o que disse, ou o que vai dizer, é “mais do que” já foi dito por outrem, postula implicitamente que o dito de outrem, não sendo origem de discórdia, é todavia um juízo defectivo, algo que não foi ainda completamente dito, algo que se ficou a meio e que, por conseguinte pode ser completado.

Para dar um exemplo, quando encho os regadores para regar os vasos do jardim, a água sai da torneira à pressão e os regadores enchem-se rapidamente à custa do ar que vem misturado com a água. E esta transborda. Se deixarmos assentar, o ar liberta-se completamente e podemos voltar a encher os regadores com mais água. Num regador com doze litros, o complemento de água pode ir a mais de um litro. Quando enchemos o regador pela segunda vez, ele passou a ter mais água do que quando o enchemos à primeira. Todavia, das duas vezes eles ficaram cheios. Só que da segunda vez, de acordo com o princípio de Arquimedes, o ar teve que sair para a água entrar.

Foi o que se passou com o comentário ao meu texto: foi retirado de lá, precisamente, aquilo que de mais importante dissera, precisamente que “o lugar imediato é, por excelência, o corpo” e substituído por “um lugar é (…) espaço ocupado por um corpo”.

Eu sei que à volta do corpo há um lugar. Precisamente uma hora antes de aqui chegar e começar a escrever entrei no metro na Avenida (linha azul), saí na Rotunda para fazer a ligação para Odivelas (linha amarela), saí novamente no Campo Grande para me chegar a Telheiras (linha verde). O que vou contar passou-se na linha amarela. Entrei e sentei-me num lugar entre lugares vazios. Na estação de Picoas entrou um mar de gente que rapidamente eclipsou os lugares vazios, sentados ou em pé. Calhou ao meu lado um jovem negro, como aqueles que se vêem no sul dos Estados Unidos, com o corpo a sobejar por todos os lados. Encolhi-me, fui cedendo o lugar e fiquei com os três quartos traseiros suspensos sobre o nada. Ao que vem esta história? Simples: saí daquele lugar, mas conservei-me no meu corpo. Exactamente: o lugar em que fiquei foi no meu corpo! É por isso que digo que o lugar imediato é, por excelência, o corpo”. È aí que eu fico quando me tiram todos os outros lugares. Mas tem uma particularidade: por mais lugares que me queiram tirar, desse não saio. E, se sair, é o fim. Mas já voltaremos a isso.

Porque tenho esta relação privilegiada por este lugar que é o meu corpo, digo que é um lugar imediato. Imediato quer dizer sem meio, sem mediação entreposta: entre mim e o meu corpo não há solução de continuidade (significado 1); não careço de um medium para comunicar com o meu corpo (significado 2).

O meu corpo é um lugar complexo. Na realidade, envolve três lugares.

Recordo-me de ter visto em embriologia que o feto se organizava a partir de três folhetos embrionários: o exoblasto, o mesoblasto e o endoblasto (imaginem uma torta: a massa, inicialmente plana, é enrolada sobre si própria até ficar uma parte externa - que vai ficar mais tostada e seca no forno, uma parte intermédia de textura também intermédia e, no âmago da coisa, um pequeno tubo fofinho e húmido. Assim são os nossos blastos). O exoblasto, que vai ficar em contacto com a placenta e os líquidos intra-uterinos, dá origem aos órgãos de relacionamento (aferência e eferência de sinais) através da formação dos tecidos epitelial e nervoso; o mesoblasto, camada intermédia, dá origem aos órgãos motores através da formação dos tecidos muscular, ósseo e de conexão; o endoblasto origina em termos genéricos as vísceras.

Na minha compreensão do corpo vejo também três corpos: um exocorpo, um mesocorpo e um endocorpo.

O exocorpo recebe e emite informação, produz conhecimento, estabelece finalidades, gera valores. Metaforicamente, ora lhe chamamos a razão, ora lhe chamamos o coração. São duas descrições da mesma realidade. Quando processa informação, o exocorpo é puro software encrustado nas sinapses, uma máquina de tratamento de informação binária; quando ama, promove a síntese da razão e do coração. Geralmente, baralha-se e dissocia-se: dinheiro e poder para um lado, sentimentos e ternura para outro. Mas damos demasiada importância aos neurónios: a parte importante é a pele, extenso manto que nos envolve e que está em contacto íntimo com o Umwelt.

O mesocorpo é o corpo animal com três funções básicas, a locomoção, a preensão e a atenção, e uma função exclusivamente humana, a fala. A locomoção relaciona-o com outros lugares e dá informações preciosas sobre a natureza desses lugares; a preensão permite a sua transformação; a atenção dirige o exocorpo para o seu Umwelt; a fala erige a verdade da essência dos lugares, sobretudo quanto é dita nas suas formas mais sublimes, como a música, as belas artes e a poesia.

O endocorpo é o lugar da logística: aquisição, transporte, distribuição e consumo de matérias-primas, recolha e eliminação de matérias residuais.

1.2. O corpo enquanto lugar da experiência dos lugares

A primeira forma de o ser humano experimentar o lugar é experimentando o corpo próprio. As experiências mais primitivas do corpo próprio enquanto lugar são as experiências de conforto e de desconforto. Com fome ou saciado, fraldas molhadas ou enxutas, temperatura rigorosa ou tépida, presença ou ausência do rosto ou do calor humanos. Numa fase precoce, o corpo é um lugar de satisfação passiva, um receptáculo. As ideias de felicidade ou de paraíso são transfigurações tardias de um ideal infantil de satisfação, entendendo a “satisfação” infantil como o “estar cheio” (satis) e o excesso de satisfação como “o estar a abarrotar”. O corpo torna-se um lugar de reserva do que quer que seja – alimentos, adornos, informação. Em suma: um armazém. Esta forma de experimentar o corpo (como sujeito de um desejo) é não independente de um contacto directo com o lugar envolvente e as suas entidades – os objectos desejados, que se supõe serem a fonte de satisfação de uma necessidade que deve ser suprida.. O desejo estabelece uma forma de o corpo-sujeito se relacionar com o objecto. O desejo pela positiva é o desejo de incorporar o objecto fonte de prazer; o desejo pela negativa é o desejo de afastar o objecto fonte de desprazer. A idealização do desejo, associado ao prazer ou ao desprazer, conduz, através de processos cognitivos complexos, à abstracção do bem e do mal, da virtude e do pecado, do prémio e da punição, de deus e do diabo, do céu e do inferno, todos como lugares idealizados. Ao longo do ciclo de vida, o corpo estabelece consigo próprio e com o seu envolvente uma multiplicidade de experiências. Não sendo possível no breve espaço deste ensaio analisá-las pormenorizadamente, apenas cito algumas suficientemente exemplares: a exploração, a procura, a compreensão, o afecto, a dádiva. Os exemplos são citados de forma gradativa e crescente. De puro espaço recipiente, o corpo pode transformar-se em espaço dador, oferecido como objecto de satisfação ao corpo de outrem. Estabelece-se esta relação de forma óbvia na sexualidade dos corpos; mas também, e como expoente maior, na imolação amorosa do corpo próprio para preservar a continuidade da vida, do bem-estar ou do valor de outrem.

1.3. Os lugares periféricos do corpo

O espaço físico adjacente ao exocorpo que o envolve é o lugar do corpo. É, portanto, o lugar de um lugar. O lugar de um corpo tem uma estrutura definida pela relação “ser lugar de” e que se compõe de uma zona de contacto (uma espécie de pele externa que envolve o corpo [zona proximal] e que é constituída não só pelas roupas, calçado, adornos, mas também por imagens, sons, odores – genericamente a zona distal ou o “panorama”) e uma zona de não contacto a que chamo, por analogia com a Lua, esse lugar tão especial, o lado oculto do lugar. Ao locomover-se o corpo muda parcialmente de lugar; ao manipular objectos o corpo transforma o lugar envolvente; a acção simbólica do corpo sobre o lugar idealiza o lugar. O lugar do corpo é conhecido primeiramente pelo corpo na medida em que o corpo age no lugar que ocupa – interagindo quimicamente, locomovendo-se, orientando os órgãos dos sentidos através de processos motores de busca (olhar, escutar, apalpar, cheirar) e processando as modificações físicas e químicas ocorridas na sua interface em impulsos eléctricos que transmite ao sistema nervoso central. Ao transformar as informações que percebe do lugar em cores, texturas, espaços, cheiros, melodias, tactos, algias, pressões, etc., os centros de processamento, centrais e periféricos, reorganizam o lugar acrescentando-lhe novas entidades e propriedades que são posteriormente, ou entretanto, reificadas através do trabalho e da actividade criativa. O trabalho e a actividade criativa agem sobre objectos, entidades do lugar que transformam em produtos ou artefactos. Esse lugar é um lugar de trabalho, de criação ou de recriação.

1.4. A inclusividade dos lugares

À semelhança das matrioschkas, os lugares podem ser concebidos encaixando-se uns nos outros: corpo, lugar do corpo, lugar dos lugares do corpo e por aí em diante. Ocorre o mesmo para os lugares descritos nos planos administrativo e geográfico, os locais: lugar, freguesia, concelho, distrito, região, nação, organização supranacional. E também no plano organizativo (armazém, fábrica, empresa, grupo; secção, pelotão, companhia, batalhão, regimento, etc.). Mas, enquanto as fronteiras geográficas, administrativas ou organizativas podem ser estabelecidas de modo claro e inequívoco, ao menos, num dado intervalo de tempo, as fronteiras entre os lugares poderão não existir sequer. Os lugares são uma espécie de espaço elástico que se distende ou se retesa, não arbitrariamente, mas como resultado da acção humana. Isso é verdade tanto externamente como internamente. As froteiras entre as diferentes partes da estrutura interna de um lugar deslizam permanentemente. O exemplo flagrante disso é o da fronteira que separa o panorama (a toatalidade do que é “visto”) do lado oculto do lugar envolvente – compete à actividade de exploração afastar permanentemente essa linha de fronteira.


Tema 2. As actividades

O lugar, pela razões expostas, raramente se pode conceber como algo que pertença à natureza. Numa selva inexplorada só existem lugares a partir do momento e na condição de que a actividade aí conduza o ser humano. Chegado lá, a selva converte-se num jardim selvagem e, com o passar do tempo produzido pela actividade, o seu espaço humaniza-se progressivamente. O lugar é, neste sentido, a totalidade do que cerca o corpo humano, totalidade cujos contornos se definem pela sua actividade: explorar, ocupar, tratar e habitar.


2.1. Explorar

Explorar é criar caminhos ou inovar rotas. Um caminho, ou uma rota, é a abertura de um espaço de experiência de novos lugares. As travessias marítimas, das montanhas íngremes e dos desertos áridos, a experimentação científica e tecnológica, a exploração espacial, a abertura de novos mercados, o lançamento de novos produtos, a criação da moda e de gostos artísticos, a leitura de livros e revistas, a incursões amorosas ou o simples perder-se dos pais na infância são expressões equivalentes da mesma actividade. Delas resultam sempre a insurgência de lugares novos.


2.2. A ocupação.

Uma das actividades mais impressionantes em que se joga esta relação entre o corpo humano e o seu lugar é a ocupação. Através da ocupação, o ser humano apropria-se do espaço do lugar, dispõe os objectos no lugar de acordo com critérios e sistemas de valor e organiza actividades adequadas à sua utilização (demarcação territorial, defesa da propriedade, arrumação, habitabilidade, produção, lazer e recreação). Um fenómeno interessante é a pré-ocupação, matriz de todo o projecto humano. A pré-ocupação é uma antecipação virtual da ocupação através da qual se jogam cenários alternativos possíveis e se testam decisões com base nos resultados previsíveis. A preocupação é um sentimento baseado na pré-ocupação e pode ter uma carga positiva (entusiasmo, arrojo, ousadia, esperança) ou negativa (insegurança, receio, inércia, desespero) consoante a tendência de um indivíduo para maximizar ou minimizar o sucesso dos efeitos desejados.

A ocupação e a pré-ocupação não resultam apenas da acção do humano sobre o lugar mas podem, inversamente, resultar de uma acção do lugar sobre o humano. Certos lugares predispõem o ser humano a andar mais ocupado (ou preocupado) do que outros, como os locais de trabalho, de convívio ou de habitação. Os locais de viagem, de exploração, de recreio ou de férias exercem uma acção menos duradoira e, por conseguinte, efémera. A relação corpo-lugar é meramente uma relação de presença, enquanto dura, e depois cessa, transformando-se a memória do lugar numa descrição, numa narrativa, num álbum de fotografias que nadificam e substituem o lugar remetendo-o para uma inexistência comparável à anterior a essas actividades. Pelo contrário a ocupação e a pré-ocupação, temporalizam o lugar, tornando-se mais importante o que já foi, ou o que virá a ser, do que aquilo que hoje, na realidade, é.

A pré-ocupação não ocorre sempre, e a maior parte das vezes não ocorre, antes da ocupação. A ocupação gera a pré-ocupação constante, sistemática, habitual, diferente da pré-ocupação nas vésperas de uma viagem associada aos preparativos, à satisfação e verificação dos requisitos de um empreendimento. Por outras palavras, a pré-ocupação distingue-se da preparação – aquela acompanha a ocupação, esta antecede-a: a pré-ocupação retira a ocupação, enquanto actividade de envolvimento num lugar, da presença e temporaliza-a; a preparação antecede a actividade e, fazendo parte dela, é pura presença.

  • O Ter e o Querer.

Quando nos relacionamos com um lugar e nos ocupamos, e o lugar nos ocupa, mantemos e gerimos o espaço do lugar e dispomos os objectos no lugar. O lugar de que nos ocupamos é próprio, natural e habitual; o lugar dos outros é alheio, estrangeiro e estranho. A linha separadora do nosso e do alheio é a propriedade e a relação que mantemos com o espaço próprio a posse. Ao espaço e aos objectos dos lugares de que nos apropriamos chamamos nossos e a atitude que mantemos com eles o ter.

A luta pela posse de um lugar ocorre sempre que este não pode, por uma razão que lhe é interna, ser possuído ao mesmo tempo por dois ou vários possuidores. É o caso da luta pela terra e os seus bens (presúria), pela propriedade material (aquisição, roubo), como a disputa por um título numa competição (corrida, jogo) ou por uma posição no emprego (candidatura, habilitação a concurso).

A força que anima e impele para a luta é o querer. O impulso da vontade é muito geral e quase se confunde com a própria natureza da vida. De certo modo, viver é querer.

Querer ter leva à disputa e é alimentado pela competição. Quando o corpo é o próprio lugar, o querer ter pode manifestar-se no querer ter uma pele jovem, umas jeans de marca, um corpo de Apolo ou de Vénus, um adorno ou um símbolo de prestígio, de status.

O querer ter pode ter por objecto da vontade o corpo de outrem, o desejo e o ciúme [a escravatura, a posse carnal, a transmutação, a captação visual, o sadismo], mesmo o corpo idealizado do outro, a sua alma.

  • Selvas e jardins

[O bom selvagem. A vida selvagem. O cultivo]

  • Rus e urbs.

[Da cultura à civilização]

  • O lugar do outro.

[O corpo do outro; a propriedade alheia. Dar, trocar, comprar e vender].


2.3. O cuidar do lugar

  • A ordem

O tratamento do jardim ou da horta, a lida da casa, a arrumação dos sótãos, de todas as matizes e de todas as interioridades, são aspectos particulares do cuidar do lugar.

Posicionar cada coisa no seu lugar é arrumar. Assim, o lugar das coisas passa a ser um lugar dentro do lugar. O conjunto de critérios que permite uma arrumação é uma ordem. Os lugares das coisas são a sua posição. Arrumar pode ser também mudar de posição. Muitas vezes, arrumar é arranjar uma ordem melhor do que a ordem existente. Este processo é inesgotável, há sempre uma ordem melhor.

O resultado da ordem é o bonito, o limpo, o organizado (cosmos, mundo), o resultado da não ordem é o feio, o sujo, o desorganizado (caos, imundo).

A Criação (monoteísta) do mundo reflecte a obsessão pela transformação do caos. Não explica quem criou o Caos, mas deixa subjacente que este precede o Criador e a Criatura.

Há a ordem dos outros que, geralmente, colide com a minha. Permito que as visitas me lavem e enxagúem a loiça; mas, por regra, não permito que ma arrumem. No dia seguinte, ao perguntar pela concha da sopa é que são elas: onde é que me puseram o raio da concha? Não a encontro no “seu” lugar!

[Está tão bem arrumado que nem me lembro onde é que o pus]

  • Os recursos.

[Recursos energéticos. Recursos culturais]

  • A Mediação.

[As ferramentas (por exemplo, um escadote). Um mundo de símbolos]


2.4. A casa, o lugar dos afectos.

A portugalidade é um lugar mítico, um lugar construído e reconstruído pela contagem repetida de estórias (mythoi), estórias que, exemplificando com a portugalidade, criam o sentido da relação com a mãe (terra verdejante e leite materno) e a ocupação sangrenta do solo, a terra, o lugar verde-rubro. [Lugares míticos: Pátria e Mátria.]

[Personagens míticas: o Encoberto].

Diz Fernando Pessoa:

O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa.

Ser português no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade.

O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso.

Somos contra Roma, porque Roma veio destruir no paganismo a visão lúcida da vida.

Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.

[Outros lugares míticos: a terra e a casa.] A nossa terra é onde está a nossa casa.

O ET, a apontar o seu longo dedo no céu estrelado, diz “E.T. phone home”. O coração bate-nos intensamente, os músculos estremecem, sustemos a respiração. Quando estamos estrangeiros num lugar espraiamos os olhos no céu estrelado e o dedo aponta a casa. Pedir bacalhau cozido num restaurante em Manhattan, comer broa e caldo-verde no Huíge, ouvir Carlos do Carmo, Dulce Pontes, Teresa Salgueiro, Marísia em qualquer parte do mundo, são telefones que nos agulham instantaneamente para casa.

[Culto dos lares, génios e penates. Os lares, ou divindades tutelares da casa, da família e dos lugares habitados. A lareira, altar doméstico]

Ora, estórias são estórias, e as estórias, enquanto imagens, re-presentações da realidade, servem a maioria das vezes para vendar a realidade. Como as fotografias, funcionam como uma espécie de maquilhagem da realidade. [Mistificação platónica com a Alegoria da Caverna. Semelhanças da caverna - câmara escura]. Não uma realidade anterior, exterior e incognoscível, o mundo já criado na aurora do sexto dia da criação, mas a verdade do ser posta em espanto autêntico e inocente interrogação: poderia nada existir; todavia os seres são.

A linguagem é o lugar do desvendamento do ser – Die Sprache verweigert uns noch ihr Wesen: dass sie das Haus der Warheit dês Seins ist. (“A linguagem recusa-nos ainda a sua essência, a saber que ela á a casa da verdade do Ser.” Ueber den Humanismus, Heidegger) – mas não está em condições ainda de proceder a esse desvelamento por estar empastelada de imagens que velam o sentido da interrogação originária.

No final é necessário prestar ouvidos ao som que vem do não-lugar, do deserto. O silêncio precede e prepara a fala do Ser.


Tema 3. O lugar do não-lugar, ou A nova ordem de lugares.


3.1. Resíduos.

Temos as entranhas da cidade perfuradas por redes de águas residuais, nos campos usamos fossas sanitárias. Os resíduos sólidos são recolhidos em contentores e destinados aos lugares de tratamento ou a aterro. De forma descontrolada, lixeiras e vazadouros compõem a paisagem.

De uma maneira geral, sendo uma generalização que de fé se está a converter em ciência, pode dizer-se que, à medida em que os recursos minguam, cresce o lixo.

Até aqui encarou-se o lixo como o mundo (ou, preferentemente, o imundo) das coisas que não pertenciam a nenhum lugar. Está a processar-se uma grande mudança de mentalidades, a aceitação da ideia que devemos atribuir um lugar ao lixo, que nos devemos ocupar do lixo, que devemos arrumar e destinar cada espécie de lixo ao lugar apropriado e conveniente.

Os lugares para a recolha selectiva dos resíduos sólidos urbanos têm cores, como os separadores dos ficheiros físicos antigos, de cartolina e papel. Os lugares de aterro têm amostras por estratos que conservam uma memória da sua composição, como as descrições arquivísticas dos documentos que atestam as actividades e processos das organizações.

O futuro ditará o lixo como paradigma da ordem.


3.2. Vaguear, errar, perder-se: passear, viajar e fugir

  • O passeio.

Passear é caminhar, percorrer caminhos. [A senda, o caminho de pé posto, caminhos vicinais, arruamentos, estradas. Transportes].

  • A viagem.

Viajar é “perder lugares”. [A viagem de exploração, a viagem de negócios, a viagem turística, a viagem de visita]

  • A fuga.

Um lugar pode tornar-se objecto de recusa e impelir à fuga. Um lugar, um posto de trabalho, uma organização, uma empresa que deixaram de “nos dizer algo”; um lugar, que outrora fora um espaço de felicidade, manchado pela morte, pela separação, pela destruição; um sistema de valores, uma ideologia política, uma religião, uma teoria científica, um credo artístico que, subitamente, deixaram de fazer sentido e se esvaziaram; um território militarmente invadido e ocupado, feito pasto de chamas, assolado pelas intempéries, pela devastação, a fome e a doença; uma região, um país, que não dão oportunidades, e um Estado que cobra impostos e não protege;

Os refugiados […]


Ficha técnica:
Versão 1 - 31/OUT/2007 - versão base outlined
Versão 2 - 09/NOV/2007 - Actualização do item 2.4
Versão 3 - 15/NOV/2007 - Actualização do Tema 1
Versão 4 - 23/MAR/2008 - Reestruturação do Tema 1