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Local e global


Por oposição ao Lugar, o Globo não tem a possibilidade de representação.

O lugar pode ser representado na medida em que através dele se tornam sempre e de novo presentes o meu corpo e as coisas que preenchem o lugar. Dito assim, este é o lugar do eu presente, aqui-e-agora, mas há os lugares de onde vim e os lugares para onde tenciono ir. Eles estão presentes na medida em que estão presentes na memória.

A representação de um lugar não depende da sua extensão, mas a sua extensão depende da minha prontidão para o representar. Neste momento, estou aqui à secretária, confinado a um pequeno rectângulo de madeira e face a um conjunto de objectos a que chamo de computador e seus periféricos. Todavia, a vista e o ouvido prolongam o espaço do lugar até ao limite em que vislumbro as paredes e as janelas, o chão e o tecto. O cheiro intenso a queimado do pão que deixei na torradeira permite-me ir ainda ao de lá destas barreiras físicas e integrar o espaço invisível da cozinha. Ir é uma maneira de dizer: o corpo que desce as escadas em direcção à cozinha é um corpo descarnado, comandado à distância pelo cérebro, que vai perdendo visibilidade e se ausenta à medida que se afasta. O meu corpo real continua sentado a ocupar o centro geométrico do lugar, inerte e pesado, às excepção das mãos que picoteiam incessantemente o teclado e dos olhos que percorrem o ecrã em movimentos certeiros de escrutínio.

A representação do lugar, como não depende da sua extensão, não tem limites definidos, é elástica na periferia. O encolher ou o alargar depende da minha preocupação. Estar ocupado significa estar aqui com as coisas no centro do lugar. E se o lugar se expande, e até onde se expande, isso representa o alcance da minha preocupação. Agora, neste exacto momento, o meu lugar abarca a horta nova, aquele pequeno rectângulo situado a norte entre os ciprestes e a pista de ciclismo do Daniel. Tenho que continuar, o mais cedo possível, a vedação a arame para impedir a invasão pelos coelhos bravos. Amanhã ou depois, estarei noutro lugar, conto que seja em Lisboa. Lisboa não está confinada aos seus limites concelhios. Estes não delimitam um lugar, apenas definem uma convenção geográfica. Lisboa irá começar na auto-estrada, algures onde uma atmosfera de poluição opressora me fará entontecer, abrasar os brônquios e embaçar os olhos. E terá continuidade através da segunda circular, IC19 e IC21 até para lá da Várzea de Sintra em direcção ao Magoito onde me encontrarei com a minha mãe para o nosso almoço em comum da semana.

Este lugar grande, esta grande elipse com os dois focos em Santarém e em Lisboa, é o meu lugar habitual, o lugar onde espalho regularmente a minha existência segundo o meu modo de vida. O meu lugar é o que eu quero que seja, sem extensão predefinida, sem centro preferido. Noutras alturas da minha vida, vivi noutros lugares, viajei por outros lugares. Saí da Europa para estar em África ou ir à América. África e América são continentes, isto é, grandes lugares, cercados por outros lugares que são os céus e os mares, que contêm lugares, que englobam outros lugares num decrescendo harmónico até aos últimos lugares que é, cada um, onde se encontra, ou se ausenta, uma pessoa.

Se podemos descobrir novos lugares, por uma espécie de zoom out, rasgando e alargando os horizontes e, conversamente, miniaturizar microscopicamente um lugar, por uma espécie de zoom in, porque não alargar, mesmo que conceptualmente, os limites do lugar para um horizonte praticamente infinito e conceber o global como um lugar infinitamente grande? Exactamente pela razão que isso continuaria a ser um lugar, centrado no meu olhar pessoal na presença do meu corpo de si a si mesmo. E haveria certamente outros lugares globais centrados na vivência de outros. Pobres e descaracterizados, mas extensos, partilhando em comum a existência de uma barreira de contornos nebulosos, separando o todo do nada, o aquém do além.

A este lugar “globalizado” chamou a cristandade medieval o “mundo”. Para o cristão medieval, o mundo é o ambiente onde a alma cumpre a sua passagem pela terra, incarnada num corpo material e corruptível, até regressar ao sítio de onde é originária, o Além.

O cristianismo primitivo foi uma religião de cidades. A cidade cristã é, em primeiro lugar, uma comunidade de pessoas, a igreja, e não uma cidade de pedra. (O termo igreja tem raiz no grego εκκλησία, a assembleia dos cidadãos, e só designou os edifícios religiosos muitos séculos mais tarde). A cidade cristã primitiva era um lugar fundado sobre os corpos dos que praticavam a fé seguindo a tradição, fundamentada nos evangelhos, segundo a qual o fundador a havia edificado sobre o corpo do seu discípulo Simão, a quem chamou Pedra (”et adduxit eum ad Iesum intuitus autem eum Iesus dixit tu es Simon filius Iohanna tu vocaberis Cephas quod interpretatur Petrus” [João, I, 42]). O corpo foi sem dúvida a pedra alicerce sobre o qual os seguidores de Cristo edificariam a sua igreja, “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mateus, XVI,18].

Como os ratos de esgoto, os primeiros cristãos prosperaram no mundo subterrâneo das catacumbas, onde se encontravam e praticavam o culto. Viviam entre dois aléns, um além interior, a cidade de deus, e um alem exterior, a cidade dos homens, o mundo. As portas do inferno estavam realmente a dois passos. Os seus corpos eram o templo onde habitava o espírito do eterno e não podiam ser profanados. Contra a profanação, a apostasia ou as tentações do inimigo o cristão deveria dar testemunho da sua fé (mártir, em grego μάρτυς, significa testemunha) através do sofrimento sacrifício e, se necessário, pela morte do corpo.

A partir do século IV o cristianismo faz um giro de 180 graus. Em 301, torna-se igreja de estado na Arménia. Em 313, cessam as perseguições religiosas em todo o império graças ao Edito de Milão, promulgado por Constantino. Em 325, os bispos reunidos no Concílio de Niceia dissiparam as controvérsias teológicas criando o unanimismo da fé em torno do símbolo dos apóstolos, o credo cristão. Na segunda metade do século, sob o domínio de Teodosiano, os cristãos fizeram o assalto final ao império, destruindo ou confiscando os templos pagãos, acusando, demitindo e perseguindo até à morte os ministros dos velhos cultos imperiais e combatendo ferozmente tudo o que lhes pareceu pagão ou herético. Em 381, o Concílio de Constantinopla decretou o dogma da Tridade consagrando a fusão do messianismo judeocristão com o essencial do mitraísmo, a religião pagã indo-europeia dominante no seio dos exércitos que defendiam o Império nas suas fronteiras.
Cristianização do império ou romanização do cristianismo? Foram os cristãos que minaram o império para sobreviver às perseguições, ou foi o império que se apropriou do cristianismo para sobreviver à pressão dos bárbaros? Esta é a única questão cuja resposta nos poderá ajudar a compreender a natureza real da auto-intitulada Igreja Católica Romana.

Sendo a história escrita pelos cristãos, não admira que nos tenha sido passada uma imagem de um império cujos alicerces vão ruindo sobre o sangue mártir dos cristãos, como a cidade de Jericó, a Tróia semita, sucumbiu ao som das trezentas trombetas dos sitiantes. Prefiro a versão oposta. Face à eminente invasão dos bárbaros urgia tomar duas decisões: transferir a capital do império para oriente e subordenar todas as instituições políticas, jurídicas e administrativas a uma ideologia monista, autoritária, centralizadora, prosélita e de ambição universalista. A invasão bárbara consistiu mais numa pressão populacional, começando nas fronteiras e acabando na Urbe, do que em investidas guerreiras. Como hoje, as hordas tribais sul-americanas, africanas e orientais impulsionadas pela fome e atraídas pela riqueza, real ou imaginada, da Comunidade Europeia. Assim, Roma acolheu os bárbaros convertendo-os de seguida ao cristianismo. O mundo transformou-se, provisoriamente, na cidade de deus, a igreja militante. O mundo, desde aí e até meados dos século passado com a descolonização, não deixou de ser um imenso campo de batalha, na purga do paganismo e das heresias, nas cruzadas contra os infiéis e no alargamento da fé e do império. Por isso, igreja romana – porque é o império romano que sobrevive e não as crenças proto-cristãs; por isso, igreja católica – devido à pulsão de universalismo [católico, em grego καθολικός, significa universal], de globalização.

O império, nos dias de hoje, sente-se ameaçado pela nova invasão dos bárbaros: as economias emergentes, o terrorismo global e o espectro da fome, pandemias e calamidades naturais. Novamente na história dos homens a mesma solução de sobrevivência: a adopção de uma religião militante e globalizadora.

E essa nova religião globalizadora é o liberalismo. Como o cristianismo, que combateu o “mundano” por separar deus e a alma, o liberalismo combate o “estado” e a “política”, a mão visível do intervencionismo e do proteccionismo que obstrui o equilíbrio do mercado, separando a oferta e a procura. Como o cristianismo criou uma rede europeia, e depois mundial, de paróquias e de mosteiros, com as suas escolas, bibliotecas e catedrais, para se expandir e controlar, o liberalismo usou os media e as telecomunicações para globalizar (conectividade absoluta).

A oposição lugar-globo não é uma questão de escala. O globo não é o mais extenso e o mais abstracto dos lugares.

Sendo o corpo a sede de todos os lugares, os cristãos (numa tradição que vem de Platão até Agostinho de Hipona através dos neoplatónicos) reinventaram a alma para sediar o além. Os novos mentores da suprema religião económica/ecuménica inventaram o ser virtual –pura essência descorporalizada sede de puras decisões instantâneas, o sujeito económico actor do mercado, o sujeito lúdico viciado na internet e no telemóvel e de toda a parafernália de gadgets que prometem o céu instantâneo e pronto a gozar. O global não é representável porque o corpo é-lhe ausente.

Que haja fome no mundo? Sempre houve. Um pequeno inconveniente para castigar o corpo e atingir o reino dos céus. Graças à economia de mercado, não vivemos já num mundo de abundância?

O estranho lugar que é um portão

Publico agora um escrito de Perdido que tinha começado a preparar antes de nos deixar. Não sei ao certo se o autor o tinha por concluído ou se era um esboço para rever. Todavia, antes da sua partida, pediu-me que o publicasse no caso de não regressar nos próximos quinzes dias.

Eis o texto:


O estranho lugar que é um portão

Que estranho lugar é um portão. Passo o portão e entro, estou no outro lado; passo novamente o portão e saio, estou no outro lado. É um lugar por onde se passa para entrar e onde se passa para sair. Para o portão é indiferente, se se sai, ou se se entra. Para isso era preciso ter a noção de dentro e fora, ora os portões não têm noções. E o dentro e o fora não existem na realidade, somos nós que falamos assim acerca dos lugares.

O que é estranho no portão é ser um lugar onde não se pode estar. Isso é uma coisa deveras intrigante.

O Egas Moniz deu a vida para o descobrir.

Pátria e Mátria, lugares de origem

Seja a Pátria a língua portuguesa (Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha. Livro do Desassossego, Bernardo Soares); seja a Mátria a matriz da identidade nacional: com Pessoa e Natália não nos safamos! Mas numa coisa, convenhamos, estamos de acerto com os poetas: a língua portuguesa é a matriz de uma comunidade de identidades nacionais.

Está a coisa em saber de que Lugar vem a gente: se tudo vem do pai, temos Pátria; conversamente, se tudo vem da mãe, temos Mátria. E nisto de saber se vimos de um ou de outro, o que é conversa típica de vizinhas - Ai, a expressão dos olhinhos é tal e qual o pai quando era pequenino. Ai vizinha, retorque a outra, e as orelhas pequeninas por detrás dos caracóis loiros, não parece a mãe? E não nos esqueçamos que a vizinhança não é só maldizer e lavagem de roupa suja, é a própria vida e o colorido de um lugar - façamos uma incursão pelo caso nacional que, de tão estouvado, merece um lugar de mérito no grande livro dos lugares que se dá por nome o Guiness.

Há quem ache que tudo vem do pai, o pater familias, o braço forte, o braço armado, intrépido e façanhudo, espadeirando a torto e a direito e afogando o inimigo em sangue. O pai é o dono das terras, não seu cultivador - que esse é mouro de trabalho e mouro há-de morrer - mas seu presor.

A mitologia nacional tem por pai, o fundador da pátria, Afonso Henriques, filho mulato das castas galego-visigótica e borgonhesa, baptizado em Alvarinho e crescido à força de arroz de sarrabulho, lampreia e posta barrosã.

Em plena crise de adolescência, retardada pelo desemprego continuado a que o votou o padrasto, senhor de muitas mercês, entediou-se, juntou os amigos de pândega mais chegados, muniu-se de varapaus e porretes e veio por ai, direito ao sul, a desforrar bordoada e a usurpar terras e casarios dos pobres plebeus da Mauritânia e, sobretudo, daqueles que, prestando culto a Cristo, eram colectados pelos cultuadores de Mafama.

Enquanto ganhava forças a sul investia a norte contra o tálamo materno e contra o infame galego que nele mantinha a mãe a ferro e fogo, sendo o ferro mais dele e o fogo mais da mãe. Assim procedendo, cuidava Afonso estar a criar na Europa a primeira grande síntese entre a primeva cultura helénica, clonando o mito de Édipo, e a expansiva civilização semita no que se viria a expressar muito tempo mais tarde (daí o lado profético de Afonso) no chamado conflito edipiano, imaginativa teoria de um judeu do século vinte, personalidade que mais contribuiu para alimentar os scripts do cinema americano na segunda metade daquele século.

Deu isto, como resultado, a expropriação da cama e das quintas maternas e o seu alargamento com a apropriação à força das quintas vizinhas até às praias que foram nossas e que hoje são de ingleses e alemães. A este lugar chamou Afonso de Portugal em referência ao sítio que distava do Porto a Gaia, lugar de estroina da sua predilecção.

Assim se criou esta “ditosa Pátria, minha amada”, o meu lugar primeiro de identidade, como reza na cédula de nascimento e no bilhete identitário.

Há quem, pelo contrário, queira ver as coisas de outro modo, que vem da mãe, a mater, genetrix et nutrix, fonte vivificante e nutridora. E se, com a mãe, a saúde do corpo vem do leite, a saúde do espírito vem da língua que, para o atestar, até se diz materna. A mãe permite-se fecundar, aninhar o embrião nas profundezas das suas vísceras e partilhar com o feto o sangue placentário; depois, é parir e aleitar e cantar canções de embalar:

“Vamos brindar com vinho verde
Que é do meu Portugal
E o vinho verde me fará recordar
Aldeia velha que deixei atrás do mar”

Afonso muitas coisas bebeu vida fora. Verde para ele era um pouco mariconço, queria-o mais maduro, a estalar na língua. Daí veio o ímpeto da conquista. Postou a mão em concha sobre o sobrolho, olhou a sul e proferiu com voz cava e decidida: Cartaxo. Ala que se faz tarde! Foi um instante apoderar-se de Santarém e Lisboa para que todo aquele mar tinto fosse dele.

Mas o leite estava-lhe no sangue, como a ADN mitocondrial na profusão de células que constituíam o seu corpo imenso e latagão. E esse leite, esse ADN mátrio, era o galaico-português, sua língua materna. Rainha deposta, mãe Jocasta vencedora. E Portugal à mercê da Esfinge.

A pátria, diz-se – dizem – é eterna. Pois, se Pátria significa, uns a mandarem, os outros a trabalhar, assim sim, continuamos a ter pátria, cristãos e mouros, sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sæcula sæculorum. No revés, a Mátria é útero acolhedor: primeiro, galegos, lusitanos e magrebinos; depois, africanos, asiáticos e ameríndios; hoje um pouco por todo o mundo. O meu lugar é o Mundo, em qualquer parte que se fala o Português.

Pena é os políticos portugueses, quando dizem coisa importantes, só falarem inglês.

A curiosidade matou o gato?

A pré-ocupação gera o cuidado (cura) e este devém inquietação, necessidade de saber e inspecção diligente, o curius.

Como já afirmei, o fito da exploração é conduzir-nos à disponibilização de novos lugares. O tema de hoje - a curiosidade - pretende desvelar o mecanismo que nos move à exploração e desmontar a sua arquitectura para compreender o seu funcionamento e eficácia.

Quando se avalia, globalmente, o rendimento intelectual de uma criança, medido em termos de desvio em relação a um padrão etário de desempenho, tem-se em conta a extensão do vocabulário que ela compreende e é capaz de definir verbalmente. É um excelente indicador do nível da sua curiosidade e, indirectamente, um preditor do desempenho de que ela é capaz. Não se pode usar este protocolo com um gato jovem pela razão de que um gato não fala. Mas, como todos sabemos, há outros recursos para entrar em comunicação, quer com os gatos, quer como bebés de tenra idade infantes. De um lado, os recursos tecnológicos verdadeiramente simples de que as ciências do comportamento proveram os investigadores; do outro, os recursos poéticos com os quais, desde a sua alvorada, a humanidade tem comunicado com os bebés, os gatos e os demais entes que partilham a nossa companhia.

Dizer que os gatos são curiosos é um truísmo. Se os gatos pertencem de iure àquele lugar que designamos de humanidade, tal se deve, mas não exclusivamente, à complexidade da sua curiosidade. Gatos e homens irmanam num elevado grau de curiosidade.

A observação mais descuidada põe a curiosidade dos gatos bem no centro, em plena zona focal, da nossa atenção. Na quarta-feira passada andava a arrumar à pressa o meu lugar no Cartaxo para vir passar descansadamente o resto da semana ao meu lugar em Lisboa. Tinha acabado de lavar a loiça do almoço e estava a passar o chão da cozinha com a esfregona. Naturalmente, tinha a porta da cozinha, que dá para o jardim da entrada, aberta. Os gatos mais novos rebolavam-se na areia enovelando-se uns nos outros e interrompiam os seus jogos de cabra-cega e de escondidas para se amandarem de sopetão e em voo rasante sobre os mais velhos que imperturbavelmente esfingeavam solenemente na areia quente do jardim. O Mião postou-se na soleira da porta e, de lá, seguia todos os meus movimentos com os olhos e a cabeça. Exagerei o trajecto e o movimento da esfregona ao que ele correspondeu com o exagero do olhar. Se parava a esfregona, parava a cabeça dele e só movia o olhar para o balde seguindo atentamente o meu esforço para torcer a esfregona. A alturas tantas, passei a limpar a área adjacente à porta da cozinha e o Mião, adivinhando o percurso iminente da esfregona, esticou-se, ostentando um ar incomodado, e, lentamente, saiu porta fora ficando na rua a monitorizar a minha ocupação. Assim que ultrapassei a zona da porta voltou de novo ao seu local habitual de atalaia e continuou a inspeccionar-me diligentemente. Pressenti atrás dele o Bolinha e o Ratito a perscrutarem com os seus olhos esbugalhados tudo em que consiste a cozinha com os seus espaços, o seu mobiliário e equipamento e os infindáveis tarecos que povoam aquele inconfundível lugar humano.

Com o chão da cozinha a mostrar um aspecto muito razoável, e começando a água do balde a ganhar as cores indefinidas da sujidade, decidi aproveitá-la, enquanto possível, para lavar a tijoleira do pequeno alpendre da porta da entrada. Procedi às operações, despejei a água já num estado inconveniente, e dei a volta à casa para entrar pela porta da cozinha. O Mião, ao ver-me, deu às de vila diogo. Entrei e fechei a porta.

Não passara ainda o tempo de dizer um ai quando ouvi dois miados angustiados: eram o Bolinha e o Ratito que tinham ficado enclausurados dentro de casa. Para os leitores que ainda não provaram muita intimidade com os meus gatos, devo esclarecê-los que estes bichos só viram como tecto, em toda a sua curta vida, o céu azul e a barriga bojuda do tanque de lavar roupa adornado nas traseiras do "Anexo". Os pelos todos em pé, as gargantas estridentes, o susto estampado no rosto, os coraçõezitos a badalar desesperadamente nos peitos peludos, aqueles gatos metiam dó. Tentei pegar neles mas só piorei a situação. A tentar fugir-me, escorregavam de pernas abertas sobre a tijoleira ainda molhada parecendo aprendizes muito incipientes de patinagem no gelo com os patins a fugir para os lados opostos. Ao fim de algum tempo, depois de ter o discernimento de lhes abrir a porta da cozinha, fugiram parecendo que levavam o demónio atado nos rabos.

Continuei ainda uns tempos a minha azáfama de pôr em ordem a casa. Ao vir do banho para o salão pressenti uns sons meio abafados a que não dei grande importância mas que me forçou a convergir o olhar para baixo do móvel da televisão. No escuro, quatro olhos intensos fixavam os meus movimentos.

Mediação


Estico-me para as prateleiras superiores da minha biblioteca e não chego lá. Aquele livro que me atrai escapa-se aos meus dedos, parece que se retrai, recolhendo-se no seu lugar. É aquele o livro que eu quero, espero desesperado. Queria tê-lo nas minhas mãos, de páginas abertas, só para desfolhá-lo. Já nem me apetece tanto lê-lo.

Acho que o meu corpo tem que fazer alguma coisa para o abarcar. O lugar do esqueleto está imensamente contido no espaçoso lugar do olhar. Se os meus gatos aqui estivessem, teriam amarinhado pelas estantes para se anicharem lá em cima, de onde zombariam de mim, cerrando os olhos com o ar típico de quem já viu demais e não tolera tanta incompetência.

Eu rebateria a sua opinião num encolher de ombros, dizendo que com uma agilidade assim até eu. Pensando bem vale mais a agilidade para ler do que para trepar.

Será que vale? Afinal, tenho as minhas dúvidas. Por muito que um gato soubesse ler, nenhum livro lhe ensinaria a trepar às alturas.

É então que vou buscar o escadote de quatro degraus e empoleiro-me no cimeiro. Posso então distender os músculos da perna direita e os do braço direito descrevendo uma ogiva a convergir para o livro. A biblioteca transforma-se numa catedral onde pontifico no alto de um escadote. Bom é não estarem lá os gatos, não se lembrassem eles de me saltar para os ombros para se me roçarem no pescoço e me lamberem a barba e a cara com a sua língua de lixa.

Acabaria o livro a ler-me, a mim todo esparregado no chão.

O corpo e o lugar


Tema 1. O corpo.

O lugar imediato é, por excelência, o corpo. Sendo parte integrante do ser humano, com o qual se identifica e confunde, o corpo é também uma parte da totalidade dos objectos dispostos no lugar.

1.1. O corpo enquanto lugar

A minha amiga Bettips, referindo-se à afirmação anterior, ou porventura a outra, ou outras, que eu tenha feito ou sugerido, comentou: “Para mim, um lugar é mais do que espaço ocupado por um corpo, é mais o espaço ocupado por sentimentos.” Não vou discutir a sua opinião (“Para mim, um lugar é”), vou questionar precisamente a expressão “é mais do que”. Quando um arguente diz que o que disse, ou o que vai dizer, é “mais do que” já foi dito por outrem, postula implicitamente que o dito de outrem, não sendo origem de discórdia, é todavia um juízo defectivo, algo que não foi ainda completamente dito, algo que se ficou a meio e que, por conseguinte pode ser completado.

Para dar um exemplo, quando encho os regadores para regar os vasos do jardim, a água sai da torneira à pressão e os regadores enchem-se rapidamente à custa do ar que vem misturado com a água. E esta transborda. Se deixarmos assentar, o ar liberta-se completamente e podemos voltar a encher os regadores com mais água. Num regador com doze litros, o complemento de água pode ir a mais de um litro. Quando enchemos o regador pela segunda vez, ele passou a ter mais água do que quando o enchemos à primeira. Todavia, das duas vezes eles ficaram cheios. Só que da segunda vez, de acordo com o princípio de Arquimedes, o ar teve que sair para a água entrar.

Foi o que se passou com o comentário ao meu texto: foi retirado de lá, precisamente, aquilo que de mais importante dissera, precisamente que “o lugar imediato é, por excelência, o corpo” e substituído por “um lugar é (…) espaço ocupado por um corpo”.

Eu sei que à volta do corpo há um lugar. Precisamente uma hora antes de aqui chegar e começar a escrever entrei no metro na Avenida (linha azul), saí na Rotunda para fazer a ligação para Odivelas (linha amarela), saí novamente no Campo Grande para me chegar a Telheiras (linha verde). O que vou contar passou-se na linha amarela. Entrei e sentei-me num lugar entre lugares vazios. Na estação de Picoas entrou um mar de gente que rapidamente eclipsou os lugares vazios, sentados ou em pé. Calhou ao meu lado um jovem negro, como aqueles que se vêem no sul dos Estados Unidos, com o corpo a sobejar por todos os lados. Encolhi-me, fui cedendo o lugar e fiquei com os três quartos traseiros suspensos sobre o nada. Ao que vem esta história? Simples: saí daquele lugar, mas conservei-me no meu corpo. Exactamente: o lugar em que fiquei foi no meu corpo! É por isso que digo que o lugar imediato é, por excelência, o corpo”. È aí que eu fico quando me tiram todos os outros lugares. Mas tem uma particularidade: por mais lugares que me queiram tirar, desse não saio. E, se sair, é o fim. Mas já voltaremos a isso.

Porque tenho esta relação privilegiada por este lugar que é o meu corpo, digo que é um lugar imediato. Imediato quer dizer sem meio, sem mediação entreposta: entre mim e o meu corpo não há solução de continuidade (significado 1); não careço de um medium para comunicar com o meu corpo (significado 2).

O meu corpo é um lugar complexo. Na realidade, envolve três lugares.

Recordo-me de ter visto em embriologia que o feto se organizava a partir de três folhetos embrionários: o exoblasto, o mesoblasto e o endoblasto (imaginem uma torta: a massa, inicialmente plana, é enrolada sobre si própria até ficar uma parte externa - que vai ficar mais tostada e seca no forno, uma parte intermédia de textura também intermédia e, no âmago da coisa, um pequeno tubo fofinho e húmido. Assim são os nossos blastos). O exoblasto, que vai ficar em contacto com a placenta e os líquidos intra-uterinos, dá origem aos órgãos de relacionamento (aferência e eferência de sinais) através da formação dos tecidos epitelial e nervoso; o mesoblasto, camada intermédia, dá origem aos órgãos motores através da formação dos tecidos muscular, ósseo e de conexão; o endoblasto origina em termos genéricos as vísceras.

Na minha compreensão do corpo vejo também três corpos: um exocorpo, um mesocorpo e um endocorpo.

O exocorpo recebe e emite informação, produz conhecimento, estabelece finalidades, gera valores. Metaforicamente, ora lhe chamamos a razão, ora lhe chamamos o coração. São duas descrições da mesma realidade. Quando processa informação, o exocorpo é puro software encrustado nas sinapses, uma máquina de tratamento de informação binária; quando ama, promove a síntese da razão e do coração. Geralmente, baralha-se e dissocia-se: dinheiro e poder para um lado, sentimentos e ternura para outro. Mas damos demasiada importância aos neurónios: a parte importante é a pele, extenso manto que nos envolve e que está em contacto íntimo com o Umwelt.

O mesocorpo é o corpo animal com três funções básicas, a locomoção, a preensão e a atenção, e uma função exclusivamente humana, a fala. A locomoção relaciona-o com outros lugares e dá informações preciosas sobre a natureza desses lugares; a preensão permite a sua transformação; a atenção dirige o exocorpo para o seu Umwelt; a fala erige a verdade da essência dos lugares, sobretudo quanto é dita nas suas formas mais sublimes, como a música, as belas artes e a poesia.

O endocorpo é o lugar da logística: aquisição, transporte, distribuição e consumo de matérias-primas, recolha e eliminação de matérias residuais.

1.2. O corpo enquanto lugar da experiência dos lugares

A primeira forma de o ser humano experimentar o lugar é experimentando o corpo próprio. As experiências mais primitivas do corpo próprio enquanto lugar são as experiências de conforto e de desconforto. Com fome ou saciado, fraldas molhadas ou enxutas, temperatura rigorosa ou tépida, presença ou ausência do rosto ou do calor humanos. Numa fase precoce, o corpo é um lugar de satisfação passiva, um receptáculo. As ideias de felicidade ou de paraíso são transfigurações tardias de um ideal infantil de satisfação, entendendo a “satisfação” infantil como o “estar cheio” (satis) e o excesso de satisfação como “o estar a abarrotar”. O corpo torna-se um lugar de reserva do que quer que seja – alimentos, adornos, informação. Em suma: um armazém. Esta forma de experimentar o corpo (como sujeito de um desejo) é não independente de um contacto directo com o lugar envolvente e as suas entidades – os objectos desejados, que se supõe serem a fonte de satisfação de uma necessidade que deve ser suprida.. O desejo estabelece uma forma de o corpo-sujeito se relacionar com o objecto. O desejo pela positiva é o desejo de incorporar o objecto fonte de prazer; o desejo pela negativa é o desejo de afastar o objecto fonte de desprazer. A idealização do desejo, associado ao prazer ou ao desprazer, conduz, através de processos cognitivos complexos, à abstracção do bem e do mal, da virtude e do pecado, do prémio e da punição, de deus e do diabo, do céu e do inferno, todos como lugares idealizados. Ao longo do ciclo de vida, o corpo estabelece consigo próprio e com o seu envolvente uma multiplicidade de experiências. Não sendo possível no breve espaço deste ensaio analisá-las pormenorizadamente, apenas cito algumas suficientemente exemplares: a exploração, a procura, a compreensão, o afecto, a dádiva. Os exemplos são citados de forma gradativa e crescente. De puro espaço recipiente, o corpo pode transformar-se em espaço dador, oferecido como objecto de satisfação ao corpo de outrem. Estabelece-se esta relação de forma óbvia na sexualidade dos corpos; mas também, e como expoente maior, na imolação amorosa do corpo próprio para preservar a continuidade da vida, do bem-estar ou do valor de outrem.

1.3. Os lugares periféricos do corpo

O espaço físico adjacente ao exocorpo que o envolve é o lugar do corpo. É, portanto, o lugar de um lugar. O lugar de um corpo tem uma estrutura definida pela relação “ser lugar de” e que se compõe de uma zona de contacto (uma espécie de pele externa que envolve o corpo [zona proximal] e que é constituída não só pelas roupas, calçado, adornos, mas também por imagens, sons, odores – genericamente a zona distal ou o “panorama”) e uma zona de não contacto a que chamo, por analogia com a Lua, esse lugar tão especial, o lado oculto do lugar. Ao locomover-se o corpo muda parcialmente de lugar; ao manipular objectos o corpo transforma o lugar envolvente; a acção simbólica do corpo sobre o lugar idealiza o lugar. O lugar do corpo é conhecido primeiramente pelo corpo na medida em que o corpo age no lugar que ocupa – interagindo quimicamente, locomovendo-se, orientando os órgãos dos sentidos através de processos motores de busca (olhar, escutar, apalpar, cheirar) e processando as modificações físicas e químicas ocorridas na sua interface em impulsos eléctricos que transmite ao sistema nervoso central. Ao transformar as informações que percebe do lugar em cores, texturas, espaços, cheiros, melodias, tactos, algias, pressões, etc., os centros de processamento, centrais e periféricos, reorganizam o lugar acrescentando-lhe novas entidades e propriedades que são posteriormente, ou entretanto, reificadas através do trabalho e da actividade criativa. O trabalho e a actividade criativa agem sobre objectos, entidades do lugar que transformam em produtos ou artefactos. Esse lugar é um lugar de trabalho, de criação ou de recriação.

1.4. A inclusividade dos lugares

À semelhança das matrioschkas, os lugares podem ser concebidos encaixando-se uns nos outros: corpo, lugar do corpo, lugar dos lugares do corpo e por aí em diante. Ocorre o mesmo para os lugares descritos nos planos administrativo e geográfico, os locais: lugar, freguesia, concelho, distrito, região, nação, organização supranacional. E também no plano organizativo (armazém, fábrica, empresa, grupo; secção, pelotão, companhia, batalhão, regimento, etc.). Mas, enquanto as fronteiras geográficas, administrativas ou organizativas podem ser estabelecidas de modo claro e inequívoco, ao menos, num dado intervalo de tempo, as fronteiras entre os lugares poderão não existir sequer. Os lugares são uma espécie de espaço elástico que se distende ou se retesa, não arbitrariamente, mas como resultado da acção humana. Isso é verdade tanto externamente como internamente. As froteiras entre as diferentes partes da estrutura interna de um lugar deslizam permanentemente. O exemplo flagrante disso é o da fronteira que separa o panorama (a toatalidade do que é “visto”) do lado oculto do lugar envolvente – compete à actividade de exploração afastar permanentemente essa linha de fronteira.


Tema 2. As actividades

O lugar, pela razões expostas, raramente se pode conceber como algo que pertença à natureza. Numa selva inexplorada só existem lugares a partir do momento e na condição de que a actividade aí conduza o ser humano. Chegado lá, a selva converte-se num jardim selvagem e, com o passar do tempo produzido pela actividade, o seu espaço humaniza-se progressivamente. O lugar é, neste sentido, a totalidade do que cerca o corpo humano, totalidade cujos contornos se definem pela sua actividade: explorar, ocupar, tratar e habitar.


2.1. Explorar

Explorar é criar caminhos ou inovar rotas. Um caminho, ou uma rota, é a abertura de um espaço de experiência de novos lugares. As travessias marítimas, das montanhas íngremes e dos desertos áridos, a experimentação científica e tecnológica, a exploração espacial, a abertura de novos mercados, o lançamento de novos produtos, a criação da moda e de gostos artísticos, a leitura de livros e revistas, a incursões amorosas ou o simples perder-se dos pais na infância são expressões equivalentes da mesma actividade. Delas resultam sempre a insurgência de lugares novos.


2.2. A ocupação.

Uma das actividades mais impressionantes em que se joga esta relação entre o corpo humano e o seu lugar é a ocupação. Através da ocupação, o ser humano apropria-se do espaço do lugar, dispõe os objectos no lugar de acordo com critérios e sistemas de valor e organiza actividades adequadas à sua utilização (demarcação territorial, defesa da propriedade, arrumação, habitabilidade, produção, lazer e recreação). Um fenómeno interessante é a pré-ocupação, matriz de todo o projecto humano. A pré-ocupação é uma antecipação virtual da ocupação através da qual se jogam cenários alternativos possíveis e se testam decisões com base nos resultados previsíveis. A preocupação é um sentimento baseado na pré-ocupação e pode ter uma carga positiva (entusiasmo, arrojo, ousadia, esperança) ou negativa (insegurança, receio, inércia, desespero) consoante a tendência de um indivíduo para maximizar ou minimizar o sucesso dos efeitos desejados.

A ocupação e a pré-ocupação não resultam apenas da acção do humano sobre o lugar mas podem, inversamente, resultar de uma acção do lugar sobre o humano. Certos lugares predispõem o ser humano a andar mais ocupado (ou preocupado) do que outros, como os locais de trabalho, de convívio ou de habitação. Os locais de viagem, de exploração, de recreio ou de férias exercem uma acção menos duradoira e, por conseguinte, efémera. A relação corpo-lugar é meramente uma relação de presença, enquanto dura, e depois cessa, transformando-se a memória do lugar numa descrição, numa narrativa, num álbum de fotografias que nadificam e substituem o lugar remetendo-o para uma inexistência comparável à anterior a essas actividades. Pelo contrário a ocupação e a pré-ocupação, temporalizam o lugar, tornando-se mais importante o que já foi, ou o que virá a ser, do que aquilo que hoje, na realidade, é.

A pré-ocupação não ocorre sempre, e a maior parte das vezes não ocorre, antes da ocupação. A ocupação gera a pré-ocupação constante, sistemática, habitual, diferente da pré-ocupação nas vésperas de uma viagem associada aos preparativos, à satisfação e verificação dos requisitos de um empreendimento. Por outras palavras, a pré-ocupação distingue-se da preparação – aquela acompanha a ocupação, esta antecede-a: a pré-ocupação retira a ocupação, enquanto actividade de envolvimento num lugar, da presença e temporaliza-a; a preparação antecede a actividade e, fazendo parte dela, é pura presença.

  • O Ter e o Querer.

Quando nos relacionamos com um lugar e nos ocupamos, e o lugar nos ocupa, mantemos e gerimos o espaço do lugar e dispomos os objectos no lugar. O lugar de que nos ocupamos é próprio, natural e habitual; o lugar dos outros é alheio, estrangeiro e estranho. A linha separadora do nosso e do alheio é a propriedade e a relação que mantemos com o espaço próprio a posse. Ao espaço e aos objectos dos lugares de que nos apropriamos chamamos nossos e a atitude que mantemos com eles o ter.

A luta pela posse de um lugar ocorre sempre que este não pode, por uma razão que lhe é interna, ser possuído ao mesmo tempo por dois ou vários possuidores. É o caso da luta pela terra e os seus bens (presúria), pela propriedade material (aquisição, roubo), como a disputa por um título numa competição (corrida, jogo) ou por uma posição no emprego (candidatura, habilitação a concurso).

A força que anima e impele para a luta é o querer. O impulso da vontade é muito geral e quase se confunde com a própria natureza da vida. De certo modo, viver é querer.

Querer ter leva à disputa e é alimentado pela competição. Quando o corpo é o próprio lugar, o querer ter pode manifestar-se no querer ter uma pele jovem, umas jeans de marca, um corpo de Apolo ou de Vénus, um adorno ou um símbolo de prestígio, de status.

O querer ter pode ter por objecto da vontade o corpo de outrem, o desejo e o ciúme [a escravatura, a posse carnal, a transmutação, a captação visual, o sadismo], mesmo o corpo idealizado do outro, a sua alma.

  • Selvas e jardins

[O bom selvagem. A vida selvagem. O cultivo]

  • Rus e urbs.

[Da cultura à civilização]

  • O lugar do outro.

[O corpo do outro; a propriedade alheia. Dar, trocar, comprar e vender].


2.3. O cuidar do lugar

  • A ordem

O tratamento do jardim ou da horta, a lida da casa, a arrumação dos sótãos, de todas as matizes e de todas as interioridades, são aspectos particulares do cuidar do lugar.

Posicionar cada coisa no seu lugar é arrumar. Assim, o lugar das coisas passa a ser um lugar dentro do lugar. O conjunto de critérios que permite uma arrumação é uma ordem. Os lugares das coisas são a sua posição. Arrumar pode ser também mudar de posição. Muitas vezes, arrumar é arranjar uma ordem melhor do que a ordem existente. Este processo é inesgotável, há sempre uma ordem melhor.

O resultado da ordem é o bonito, o limpo, o organizado (cosmos, mundo), o resultado da não ordem é o feio, o sujo, o desorganizado (caos, imundo).

A Criação (monoteísta) do mundo reflecte a obsessão pela transformação do caos. Não explica quem criou o Caos, mas deixa subjacente que este precede o Criador e a Criatura.

Há a ordem dos outros que, geralmente, colide com a minha. Permito que as visitas me lavem e enxagúem a loiça; mas, por regra, não permito que ma arrumem. No dia seguinte, ao perguntar pela concha da sopa é que são elas: onde é que me puseram o raio da concha? Não a encontro no “seu” lugar!

[Está tão bem arrumado que nem me lembro onde é que o pus]

  • Os recursos.

[Recursos energéticos. Recursos culturais]

  • A Mediação.

[As ferramentas (por exemplo, um escadote). Um mundo de símbolos]


2.4. A casa, o lugar dos afectos.

A portugalidade é um lugar mítico, um lugar construído e reconstruído pela contagem repetida de estórias (mythoi), estórias que, exemplificando com a portugalidade, criam o sentido da relação com a mãe (terra verdejante e leite materno) e a ocupação sangrenta do solo, a terra, o lugar verde-rubro. [Lugares míticos: Pátria e Mátria.]

[Personagens míticas: o Encoberto].

Diz Fernando Pessoa:

O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa.

Ser português no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade.

O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso.

Somos contra Roma, porque Roma veio destruir no paganismo a visão lúcida da vida.

Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.

[Outros lugares míticos: a terra e a casa.] A nossa terra é onde está a nossa casa.

O ET, a apontar o seu longo dedo no céu estrelado, diz “E.T. phone home”. O coração bate-nos intensamente, os músculos estremecem, sustemos a respiração. Quando estamos estrangeiros num lugar espraiamos os olhos no céu estrelado e o dedo aponta a casa. Pedir bacalhau cozido num restaurante em Manhattan, comer broa e caldo-verde no Huíge, ouvir Carlos do Carmo, Dulce Pontes, Teresa Salgueiro, Marísia em qualquer parte do mundo, são telefones que nos agulham instantaneamente para casa.

[Culto dos lares, génios e penates. Os lares, ou divindades tutelares da casa, da família e dos lugares habitados. A lareira, altar doméstico]

Ora, estórias são estórias, e as estórias, enquanto imagens, re-presentações da realidade, servem a maioria das vezes para vendar a realidade. Como as fotografias, funcionam como uma espécie de maquilhagem da realidade. [Mistificação platónica com a Alegoria da Caverna. Semelhanças da caverna - câmara escura]. Não uma realidade anterior, exterior e incognoscível, o mundo já criado na aurora do sexto dia da criação, mas a verdade do ser posta em espanto autêntico e inocente interrogação: poderia nada existir; todavia os seres são.

A linguagem é o lugar do desvendamento do ser – Die Sprache verweigert uns noch ihr Wesen: dass sie das Haus der Warheit dês Seins ist. (“A linguagem recusa-nos ainda a sua essência, a saber que ela á a casa da verdade do Ser.” Ueber den Humanismus, Heidegger) – mas não está em condições ainda de proceder a esse desvelamento por estar empastelada de imagens que velam o sentido da interrogação originária.

No final é necessário prestar ouvidos ao som que vem do não-lugar, do deserto. O silêncio precede e prepara a fala do Ser.


Tema 3. O lugar do não-lugar, ou A nova ordem de lugares.


3.1. Resíduos.

Temos as entranhas da cidade perfuradas por redes de águas residuais, nos campos usamos fossas sanitárias. Os resíduos sólidos são recolhidos em contentores e destinados aos lugares de tratamento ou a aterro. De forma descontrolada, lixeiras e vazadouros compõem a paisagem.

De uma maneira geral, sendo uma generalização que de fé se está a converter em ciência, pode dizer-se que, à medida em que os recursos minguam, cresce o lixo.

Até aqui encarou-se o lixo como o mundo (ou, preferentemente, o imundo) das coisas que não pertenciam a nenhum lugar. Está a processar-se uma grande mudança de mentalidades, a aceitação da ideia que devemos atribuir um lugar ao lixo, que nos devemos ocupar do lixo, que devemos arrumar e destinar cada espécie de lixo ao lugar apropriado e conveniente.

Os lugares para a recolha selectiva dos resíduos sólidos urbanos têm cores, como os separadores dos ficheiros físicos antigos, de cartolina e papel. Os lugares de aterro têm amostras por estratos que conservam uma memória da sua composição, como as descrições arquivísticas dos documentos que atestam as actividades e processos das organizações.

O futuro ditará o lixo como paradigma da ordem.


3.2. Vaguear, errar, perder-se: passear, viajar e fugir

  • O passeio.

Passear é caminhar, percorrer caminhos. [A senda, o caminho de pé posto, caminhos vicinais, arruamentos, estradas. Transportes].

  • A viagem.

Viajar é “perder lugares”. [A viagem de exploração, a viagem de negócios, a viagem turística, a viagem de visita]

  • A fuga.

Um lugar pode tornar-se objecto de recusa e impelir à fuga. Um lugar, um posto de trabalho, uma organização, uma empresa que deixaram de “nos dizer algo”; um lugar, que outrora fora um espaço de felicidade, manchado pela morte, pela separação, pela destruição; um sistema de valores, uma ideologia política, uma religião, uma teoria científica, um credo artístico que, subitamente, deixaram de fazer sentido e se esvaziaram; um território militarmente invadido e ocupado, feito pasto de chamas, assolado pelas intempéries, pela devastação, a fome e a doença; uma região, um país, que não dão oportunidades, e um Estado que cobra impostos e não protege;

Os refugiados […]


Ficha técnica:
Versão 1 - 31/OUT/2007 - versão base outlined
Versão 2 - 09/NOV/2007 - Actualização do item 2.4
Versão 3 - 15/NOV/2007 - Actualização do Tema 1
Versão 4 - 23/MAR/2008 - Reestruturação do Tema 1