O deserto, ou o observador observado.


O observador é aquele que se abre para o Mundo e o esclarece. Ao dar-se conta, o observador vê-se como observado e esclarece o seu estar-no-mundo. Daí a interrogação sobre o ser que é desse modo surpreendido. A nossa empresa é uma experiência no vazio: consiste em reduzir a densidade do Mundo na tentativa de captar, nessa leveza, o observador observado.

Considera-se geralmente o corpo animal como um ente do mundo material: uma carcaça, uma máquina fisiológica.

O observador observado é, segundo a Metafísica, uma alma, uma sombra alienígena que se instala num “corpo”, à nascença do indivíduo, e que se liberta deste na altura da morte, condenando-o à dissolução e dispersão da matéria.

Sócrates, o arauto da Metafísica, decretou a espiritualidade e imortalidade da alma. Pensou-se, durante muito tempo, que Sócrates havia enaltecido o humano; pensa-se, hoje, que apenas aviltou o corpo.

De acordo com o pensamento pós-socrático, a alma vive no mundo material encarcerada no corpo, mas não é do Mundo. De acordo com Platão, que desenhou os elementos chave da arquitectura da Metafísica, e que, por esse facto, veio a condicionar todo o desenvolvimento posterior do pensamento ocidental, o mundo que se reconhece é uma réplica imperfeita do mundo ideal que a alma revive por reminiscência de uma vida passada.

Quando a Metafísica ocidental cruzou os seus genes com o Monoteísmo semita gerou o pensamento cristão medieval, um monolito assente na congruência das duas vias estabelecida por uma cadeia de analogias. O mundo ideal hiperurânico era, afinal, o paraíso perdido; o povo eleito era, afinal, um rebanho de almas descarnados à procura de descanso e da contemplação na eternidade.

Descartes, no alvor da modernidade, sanciona a ruptura final considerando o mundo material e a Alma como duas res distintas, definidas respectivamente como extensão e cogitância. A Alma adveio consciência de si renitentemente resistente ao teste da dúvida metódica.

Para a metafísica a questão resume-se à seguinte fórmula: a Alma odeia o mundo material e anseia pelo regresso ao Paraíso.

A crítica de Nietzsche à Metafísica e a fundamentação científica do pensamento naturalista ensaiada a primeira vez por Darwin provocaram duros golpes na concepção metafísica do Mundo. No meio dos estragos, Freud e Marx esforçam-se por salvar o que puderem. Ambos se dizem materialistas: Freud assenta no materialismo biológico e procura demonstrar a origem da alma em impulsos dinâmicos primordiais anteriores ao aparecimento da consciência; Marx fundamenta-se no materialismo social e económico e procura remontar a parábola do povo eleito e caído em lenta progressão para o paraíso prometido. Apesar de materialistas, são judeus a recuperar os mitos da criação, do pecado original e da redenção.

Deixemo-nos, por ora, de Marx e concentremo-nos na metafísica da Alma restaurada por Freud. A Alma é o resultado de pulsões básicas inconscientes e em conflito no mundo. Não é um Eu (Ego), é um Isso (Id), um ser impessoal e sem consciência de si a debater-se no mundo pela satisfação de necessidades, conduzido pelo princípio da obtenção do prazer ou, melhor dizendo, da quietação da dor (libido). A consciência é um epifenómeno resultante do embate das pulsões inconscientes com o mundo. À consciência impõe-se o Eu Ideal (Superego), princípio super-ordenador que se esforça por socializar a besta desordenada e em fúria contra um mundo que lhe resiste. A essa estrutura anímica corresponde um conjunto de sistemas simbólicos que se exercem numa esfera autónoma da esfera biológica, a Cultura. A partir daí a Alma tem dois caminhos: transfigurar ou reprimir as pulsões, conduzindo a comportamentos disfuncionais, neuróticos ou psicóticos; sublimar as pulsões originando a criatividade e a obra de arte. É a restauração do mito judaico-cristão do castigo versus redenção lido na óptica da metafísica, ou seja como um conflito entre a razão e o instinto. Mais tarde, Freud vem a enunciar um novo tipo de impulsos responsáveis por reconduzir o indivíduo à vontade de morrer (thanatos). É a pulsão do retorno ao estádio primitivo: através do útero ao túmulo e, daí, ao nada.

Fechado o anel que iniciámos em Sócrates e fechámos em Freud que conclusões retiramos? Apenas uma: a Metafísica propagandeia o ódio pelo corpo e incita ao desejo da sua dissolução no nada.

Ora, o que vemos quando vamos para o deserto? O que vemos quando surpreendemos o observador?

Darei aqui apenas uma súmula das ideias a que cheguei. A sua explanação detalhada está feita noutro local não se destinando à publicação em blogue.

1. Hiperconsciência do corpo e dissociação do Eu. A exiguidade do Mundo espevita a consciência do Corpo. Incremento das halucinações, da fome e do sono. Em extremo isolamento e em monótona uniformidade, o delírio psicóide. A vida é um sonho acordado. O imaginário é conduzido por diferentes e divergentes personalidades.

2. Manutenção da linguagem e dos outros códigos simbólicos. O Logos é uma estrutura a priori da experiência. A conversação com o interlocutor imaginário assemelha-se à oração, ao Caminho da Perfeição (ver Teresa de Ávila).

3. Cada grão de areia contém a totalidade do Mundo.

4. A tomada de consciência da finitude e do ser-para-a-morte aumenta o apreço pela gratuidade da vida. A vida como absurdo (abs urdum), origem e finalidade incausadas. O sentido da vida é assumir-se livremente como abertura para o Mundo. O sentido da vida passa a ser, assim, o sentido do Mundo.

5. Diabos e símbolos: Esclarecimento do Mundo (é preferível dizer aclaramento do Mundo) - do mundo incógnito (espaço de espaços) ao mundo familiar (lugar de lugares). A criação de mundos: separar (diabolon) e unir (synbolon).

6. O lugar primordial como jardim. A árvore do Bem e do mal no centro do Paraíso é a idade outonal da humanidade.

O globo e o deserto.

Na globalização real que houve e foi portuguesa, viajar foi aparelhar as caravelas e partir, deixando o corpo ir nelas.

No nosso contemporâneo mundo global, cibernavegar não é mais viajar, não é senão riscar trajectórias saltitantes entre pontos de partida incertos e pontos de chegada provisórios. Agora que o Mundo se extremou no Globo, viajar tornou-se o pular de ponto para ponto, como quem joga à macaca, mas sem trajectória planeada. Tanto dá que este pular seja um pular para a frente, como um pular para o lado ou para trás. Cada coisa está em todo o lugar; em cada lugar cabem todas as coisas. Cada lugar tem enlaces de outros lugares.

Na intermitência do pular ocorre a descorporalização do eu. O corpo estático ostenta-se como a presença do estranho num sítio que fica nas praias (ou nas margens?) do viajar global. O corpo também pode ser informação como imagem captada ou como voz registada. Mas o corpo não é transportado, o que viaja são os bits.

O eu camuflado, ou a mudança de identidade, é o fenómeno decorrente e recorrente da descorporalização. Minimização dos estímulos e dispersão da atenção. Esvazia-se a consciência de si e o eu atafulha-se de figurações.

No outro extremo face ao globo, o deserto.



No deserto escasseiam os estímulos; por isso, os sentidos agudizam-se e a atenção atinge o ponto de concentração máximo. A vigília é o fenómeno decorrente e recorrente de uma outra descorporalização, em que o corpo se torna o duplo, o cúmplice do mundo. Maximização da consciência do eu face ao nada, ou quase nada, do mundo. Dissolução no Nada ou dissolução no Todo? As opções são infinitas. A do monge e a do terrorista suicida são também opções: o monge afasta-se do mundo para a extremidade do Nada, o suicida terrorista explode o mundo na extremidade do Todo.

Local e global


Por oposição ao Lugar, o Globo não tem a possibilidade de representação.

O lugar pode ser representado na medida em que através dele se tornam sempre e de novo presentes o meu corpo e as coisas que preenchem o lugar. Dito assim, este é o lugar do eu presente, aqui-e-agora, mas há os lugares de onde vim e os lugares para onde tenciono ir. Eles estão presentes na medida em que estão presentes na memória.

A representação de um lugar não depende da sua extensão, mas a sua extensão depende da minha prontidão para o representar. Neste momento, estou aqui à secretária, confinado a um pequeno rectângulo de madeira e face a um conjunto de objectos a que chamo de computador e seus periféricos. Todavia, a vista e o ouvido prolongam o espaço do lugar até ao limite em que vislumbro as paredes e as janelas, o chão e o tecto. O cheiro intenso a queimado do pão que deixei na torradeira permite-me ir ainda ao de lá destas barreiras físicas e integrar o espaço invisível da cozinha. Ir é uma maneira de dizer: o corpo que desce as escadas em direcção à cozinha é um corpo descarnado, comandado à distância pelo cérebro, que vai perdendo visibilidade e se ausenta à medida que se afasta. O meu corpo real continua sentado a ocupar o centro geométrico do lugar, inerte e pesado, às excepção das mãos que picoteiam incessantemente o teclado e dos olhos que percorrem o ecrã em movimentos certeiros de escrutínio.

A representação do lugar, como não depende da sua extensão, não tem limites definidos, é elástica na periferia. O encolher ou o alargar depende da minha preocupação. Estar ocupado significa estar aqui com as coisas no centro do lugar. E se o lugar se expande, e até onde se expande, isso representa o alcance da minha preocupação. Agora, neste exacto momento, o meu lugar abarca a horta nova, aquele pequeno rectângulo situado a norte entre os ciprestes e a pista de ciclismo do Daniel. Tenho que continuar, o mais cedo possível, a vedação a arame para impedir a invasão pelos coelhos bravos. Amanhã ou depois, estarei noutro lugar, conto que seja em Lisboa. Lisboa não está confinada aos seus limites concelhios. Estes não delimitam um lugar, apenas definem uma convenção geográfica. Lisboa irá começar na auto-estrada, algures onde uma atmosfera de poluição opressora me fará entontecer, abrasar os brônquios e embaçar os olhos. E terá continuidade através da segunda circular, IC19 e IC21 até para lá da Várzea de Sintra em direcção ao Magoito onde me encontrarei com a minha mãe para o nosso almoço em comum da semana.

Este lugar grande, esta grande elipse com os dois focos em Santarém e em Lisboa, é o meu lugar habitual, o lugar onde espalho regularmente a minha existência segundo o meu modo de vida. O meu lugar é o que eu quero que seja, sem extensão predefinida, sem centro preferido. Noutras alturas da minha vida, vivi noutros lugares, viajei por outros lugares. Saí da Europa para estar em África ou ir à América. África e América são continentes, isto é, grandes lugares, cercados por outros lugares que são os céus e os mares, que contêm lugares, que englobam outros lugares num decrescendo harmónico até aos últimos lugares que é, cada um, onde se encontra, ou se ausenta, uma pessoa.

Se podemos descobrir novos lugares, por uma espécie de zoom out, rasgando e alargando os horizontes e, conversamente, miniaturizar microscopicamente um lugar, por uma espécie de zoom in, porque não alargar, mesmo que conceptualmente, os limites do lugar para um horizonte praticamente infinito e conceber o global como um lugar infinitamente grande? Exactamente pela razão que isso continuaria a ser um lugar, centrado no meu olhar pessoal na presença do meu corpo de si a si mesmo. E haveria certamente outros lugares globais centrados na vivência de outros. Pobres e descaracterizados, mas extensos, partilhando em comum a existência de uma barreira de contornos nebulosos, separando o todo do nada, o aquém do além.

A este lugar “globalizado” chamou a cristandade medieval o “mundo”. Para o cristão medieval, o mundo é o ambiente onde a alma cumpre a sua passagem pela terra, incarnada num corpo material e corruptível, até regressar ao sítio de onde é originária, o Além.

O cristianismo primitivo foi uma religião de cidades. A cidade cristã é, em primeiro lugar, uma comunidade de pessoas, a igreja, e não uma cidade de pedra. (O termo igreja tem raiz no grego εκκλησία, a assembleia dos cidadãos, e só designou os edifícios religiosos muitos séculos mais tarde). A cidade cristã primitiva era um lugar fundado sobre os corpos dos que praticavam a fé seguindo a tradição, fundamentada nos evangelhos, segundo a qual o fundador a havia edificado sobre o corpo do seu discípulo Simão, a quem chamou Pedra (”et adduxit eum ad Iesum intuitus autem eum Iesus dixit tu es Simon filius Iohanna tu vocaberis Cephas quod interpretatur Petrus” [João, I, 42]). O corpo foi sem dúvida a pedra alicerce sobre o qual os seguidores de Cristo edificariam a sua igreja, “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mateus, XVI,18].

Como os ratos de esgoto, os primeiros cristãos prosperaram no mundo subterrâneo das catacumbas, onde se encontravam e praticavam o culto. Viviam entre dois aléns, um além interior, a cidade de deus, e um alem exterior, a cidade dos homens, o mundo. As portas do inferno estavam realmente a dois passos. Os seus corpos eram o templo onde habitava o espírito do eterno e não podiam ser profanados. Contra a profanação, a apostasia ou as tentações do inimigo o cristão deveria dar testemunho da sua fé (mártir, em grego μάρτυς, significa testemunha) através do sofrimento sacrifício e, se necessário, pela morte do corpo.

A partir do século IV o cristianismo faz um giro de 180 graus. Em 301, torna-se igreja de estado na Arménia. Em 313, cessam as perseguições religiosas em todo o império graças ao Edito de Milão, promulgado por Constantino. Em 325, os bispos reunidos no Concílio de Niceia dissiparam as controvérsias teológicas criando o unanimismo da fé em torno do símbolo dos apóstolos, o credo cristão. Na segunda metade do século, sob o domínio de Teodosiano, os cristãos fizeram o assalto final ao império, destruindo ou confiscando os templos pagãos, acusando, demitindo e perseguindo até à morte os ministros dos velhos cultos imperiais e combatendo ferozmente tudo o que lhes pareceu pagão ou herético. Em 381, o Concílio de Constantinopla decretou o dogma da Tridade consagrando a fusão do messianismo judeocristão com o essencial do mitraísmo, a religião pagã indo-europeia dominante no seio dos exércitos que defendiam o Império nas suas fronteiras.
Cristianização do império ou romanização do cristianismo? Foram os cristãos que minaram o império para sobreviver às perseguições, ou foi o império que se apropriou do cristianismo para sobreviver à pressão dos bárbaros? Esta é a única questão cuja resposta nos poderá ajudar a compreender a natureza real da auto-intitulada Igreja Católica Romana.

Sendo a história escrita pelos cristãos, não admira que nos tenha sido passada uma imagem de um império cujos alicerces vão ruindo sobre o sangue mártir dos cristãos, como a cidade de Jericó, a Tróia semita, sucumbiu ao som das trezentas trombetas dos sitiantes. Prefiro a versão oposta. Face à eminente invasão dos bárbaros urgia tomar duas decisões: transferir a capital do império para oriente e subordenar todas as instituições políticas, jurídicas e administrativas a uma ideologia monista, autoritária, centralizadora, prosélita e de ambição universalista. A invasão bárbara consistiu mais numa pressão populacional, começando nas fronteiras e acabando na Urbe, do que em investidas guerreiras. Como hoje, as hordas tribais sul-americanas, africanas e orientais impulsionadas pela fome e atraídas pela riqueza, real ou imaginada, da Comunidade Europeia. Assim, Roma acolheu os bárbaros convertendo-os de seguida ao cristianismo. O mundo transformou-se, provisoriamente, na cidade de deus, a igreja militante. O mundo, desde aí e até meados dos século passado com a descolonização, não deixou de ser um imenso campo de batalha, na purga do paganismo e das heresias, nas cruzadas contra os infiéis e no alargamento da fé e do império. Por isso, igreja romana – porque é o império romano que sobrevive e não as crenças proto-cristãs; por isso, igreja católica – devido à pulsão de universalismo [católico, em grego καθολικός, significa universal], de globalização.

O império, nos dias de hoje, sente-se ameaçado pela nova invasão dos bárbaros: as economias emergentes, o terrorismo global e o espectro da fome, pandemias e calamidades naturais. Novamente na história dos homens a mesma solução de sobrevivência: a adopção de uma religião militante e globalizadora.

E essa nova religião globalizadora é o liberalismo. Como o cristianismo, que combateu o “mundano” por separar deus e a alma, o liberalismo combate o “estado” e a “política”, a mão visível do intervencionismo e do proteccionismo que obstrui o equilíbrio do mercado, separando a oferta e a procura. Como o cristianismo criou uma rede europeia, e depois mundial, de paróquias e de mosteiros, com as suas escolas, bibliotecas e catedrais, para se expandir e controlar, o liberalismo usou os media e as telecomunicações para globalizar (conectividade absoluta).

A oposição lugar-globo não é uma questão de escala. O globo não é o mais extenso e o mais abstracto dos lugares.

Sendo o corpo a sede de todos os lugares, os cristãos (numa tradição que vem de Platão até Agostinho de Hipona através dos neoplatónicos) reinventaram a alma para sediar o além. Os novos mentores da suprema religião económica/ecuménica inventaram o ser virtual –pura essência descorporalizada sede de puras decisões instantâneas, o sujeito económico actor do mercado, o sujeito lúdico viciado na internet e no telemóvel e de toda a parafernália de gadgets que prometem o céu instantâneo e pronto a gozar. O global não é representável porque o corpo é-lhe ausente.

Que haja fome no mundo? Sempre houve. Um pequeno inconveniente para castigar o corpo e atingir o reino dos céus. Graças à economia de mercado, não vivemos já num mundo de abundância?

Introdução ao tema da globalização

Muito tenho escrito neste lugar em torno do "lugar" mas nada disse, ainda, sobre globalização.

Tudo começa no corpo, muito ante de nascermos: o corpo é o nosso primeiro lugar.

Assim que o aprendemos, começamos a explorar outros lugares. Escadotes, cadeiras, portões, vidraças, máquinas de costura são alguns dos objectos que povoam os nossos lugares. Que utilizamos com frequência.

São os nossos lugares-comuns.

Com o passar do tempo tornam-se invisíveis, raramente olhamos para eles; e, quando olhamos, não os vemos. Só olhando nova e fixamente para eles, o que só é possível pela escrita, os voltamos a ver e a compreendê-los na sua intimidade. Humanos gostamos pouco do vulgar, do comum, do habitual. Estamos ávidos da moda e das novidades dos anúncios publicitários, ansiosos pelas notícias dos telejornais.

Porém os gatos interrogam-se sobre os lugares humanos, são curiosos.

Usando o verbo, e a interna oposição símbolo-diabo, criamos os lugares. Sobretudo aqueles lugares que parecem estar para além de nós, do nosso corpo e da natureza. Arranjámos vários nomes para convocar esses lugares do além: o espírito, a cultura, as crenças, o sagrado, eu sei lá. Depois, criámos os deuses para os povoar. Mas, os deuses ganharam vida própria e acabaram eles próprios por ordenar os nossos lugares. Humanizaram-se, tornaram-se pessoas como nós, movidos por paixões, ciúmes, invejas, e destruíram-se uns aos outros, utilizando os humanos como carne para canhão. Os vencedores acabaram por invejar o nosso corpo e incarnaram a natureza humana.

A verdade primitiva é a verdade de cada lugar. É a claridade do afecto que ilumina cada lugar na partilha humana. Com a revolta dos deuses e a usurpação do poder pelo deus judeu a verdade foi erradicada dos lugares pelo olho divino e desviada para o não-lugar fundamental: o ab-soluto.

A Mátria é o lugar de origem dos humanos, o lugar de onde cada um de nós provém. A nossa mátria é a Língua Portuguesa que está convocada a ser o nosso destino: o 5º império, o lugar do encontro universal dos povos.

Querem-nos fazer acreditar agora que chegámos ao fim da história. Afinal andávamos todos enganados. O que havia para descobrir está descoberto: é a Lógica do Mercado. Deixem o mercado funcionar e seremos todos homens livres trocando o que oferecemos pelo que procuramos. Tudo funciona equilibradamente guiado pela grande Mão Oculta. O Estado, o público, ou outros crimes contra a livre concorrência, têm os seus dias contados: a fusão das tecnologias da informação com as telecomunicações, a nanotecnologia e as outras tecnoquaisquercoisas permitem a livre circulação de informação e a comunicação permanente e síncrona de todos com todos. As matérias-primas, a mão-de-obra, os capitais, a informação estão à distância de um clique. Estamos todos em todos os lugares ao mesmo tempo: a globalização.

Lembram-se daquele jogo com casas vermelhas e hotéis verdes que corriam, movidos por dois dados, entre a casa da partida e a prisão? É assim a globalização dos nossos dias. Um conjunto de operadores olha para o mercado cá de cima, lança os dados: "Um, dois, três, quatro, cinco". "Compro 300 mulheres, por 30 doses de branca". "Queres desipotecar essas duzentas crianças? Dou-te um carro anfíbio, um lança mísseis e 100 kalashnicovas". "Tire uma carta da sorte: Saiu-lhe um político corrupto. Avance até à casa da partida sem passar pela prisão". E as notas passam de mão em mão. Até haver um único senhor do mundo. Como aconteceu com os deuses!

A posição que defendo é que não começou agora a globalização. Esta que nos apregoam é o canto de cisne da globalização genuína que se iniciou no final da idade média e que se caracterizou pelas Descobertas. A que agora se estabelece é o começo de uma nova Idade Média. Que será mesmo uma Idade das Trevas.

A verdade

Diz-se que uma coisa é verdadeira ou que não é falsa. Quando se fala de coisas, verdadeiro opõe-se a falso; quando se fala de pessoas, opomos pessoas sinceras a pessoas mentirosas: as pessoas sinceras dizem quase sempre a verdade; as pessoas mentirosas estão preferentemente inclinadas a dizer a mentira.

É neste sentido que dizemos que uma pessoa é verdadeira ou é falsa, conforme o que ela diz contém o verdadeiro ou o falso. Nas pessoas, o verdadeiro e o falso são propriedades do seu dizer. E que dizer das coisas? O rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado, ponto final! Não é que não possa dizer mais coisas sobre o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado... Na realidade, posso dizer uma infinidade de coisas mais, mas o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é o que é, e tudo o mais que eu possa dizer nada lhe acrescenta ou altera a sua realidade.A realidade das coisas é como um fardo que tivessem recebido por herança à nascença. As coisas são o que são, nem verdadeiras nem falsas.

Poderão argumentar que o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é falso, ou porque a luzinha não pisca, por falta de pilhas, ou porque não está à direita do teclado, o que acontece geralmente às segundas feiras porque as senhoras da empresa de limpezas o consideram fora do sítio e o metem sobre uma prateleira de um das estantes do escritório ao lado de outros bibelôs, a miniatura da torre Eiffel, um buda pançudo em jaspe, umas bonecas russas com turbantes variados, o Lampião e a Maria Bonita, uns jagunços de barro lá do sertão no Nordeste brasileiro. Será que o rato sabe disso? A sua factualidade depende dessa mudança? Não. O rato não deixa de ser o que era, o que é e o que sempre será. O que altera é a correcção daquilo que eu digo sobre o meu rato. Se eu mudo o rato da direita para a esquerda, então devo dizer o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à esquerda do meu teclado para que a minha frase esteja mais de acordo com a realidade tal como eu a percepciono. Uma vez mais, verdadeiro e falso têm a ver com as coisas que eu digo.

Os lógicos sempre disseram que o verdadeiro e o falso respeitam à proposição. Se uma proposição é verdadeira, a proposição que se obtém através da sua negação é falsa. E vice-versa. O verdadeiro e o falso são valores lógicos. Com bases nas proposições, nas operações lógicas (como a negação) e nos dois valores – ponho agora de lado a questão mais complexa das lógicas multimodais – pode construir-se uma álgebra proposicional que nos permite obter conclusões verdadeiras com base em raciocínios formalmente correctos. É esta álgebra que está agora a pôr o meu computador a funcionar. Rezo todos os dias para que ele continue subordinado a esse poder e para que não seja possuído por uns espíritos malfazejos que o põem muitas vezes a desconseguir.

Mas o que me garante que uma proposição inicial - ou seja uma proposição que não é inferida seguramente de outras proposições verdadeiras - é verdadeira, que está conforme com a realidade? Por exemplo, como posso certificar-me que o rato sem fios está a piscar uma luzinha vermelha e que se encontra à direita do meu teclado? E como posso também certificar os outros a quem digo ou escrevo que o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado?

Para atalhar razões e poupar tempo ao leitor digamos simplesmente tratar-se de um processo de verificação. Quando olho para o rato, vejo-o a piscar uma luzinha vermelha e vejo-o situado à direita do meu teclado. Parece que disse tudo, não é? Nada mais errado!

Referi-me a dois processos perceptivos: um activo, o olhar; o outro passivo, o ver.

O rato está permanentemente sob a alçada da minha visão, mas realmente só o vejo quando o procuro, quando olho para ele. Por outras palavras, ver não é um processo neutro, é um processo influenciado por uma intencionalidade, por um querer ver interessado. As pessoas vêem o que querem e não vêem o que não querem. Como diz o ditado, mais cego é o que não quer ver...

Para chegar à verificação da verdade de uma proposição dependo da sinceridade, da honestidade da minha procura. Mas não só. Sabemos que a visão pode ser distorcida por factores pessoais e ambientais: pelo meu estado mental que, em desequilíbrio, pode provocar delírios e alucinações; por condições ópticas particulares do ambiente que podem induzir ilusões.

Para começar, o observador que descreve a realidade que observa deveria estar certificado por entidade idónea e competente, digamos o Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, em como o seu estatuto mental se encontra devidamente balizado entre os parâmetros da normalidade. E não chega: carece também de um controlo rigoroso dos eventos que antecederam a observação não vá esta ser perturbada pela ingestão de alcool, tabaco, estimulantes ou estupefacientes de qualquer natureza. Toda a gente sabe até que ponto um incómodo físico - a flatulência, um enxaqueca ou uma dor de dentes – basta para distrair o intelecto e produzir uma má percepção da realidade.

Mas devemos munirmo-nos ainda de mais cuidados. As histórias das miragens no deserto não são tretas para entreter a imaginação dos sedentários urbanos. Ainda há pouco tempo, em pleno deserto, viajando de burro de Ash Shati para Ubari (Awbari) pude ver os verdejantes prados que se perfilavam à minha frente cheios de canas de milho alinhadas como soldados numa parada, como na levada do meu avô materno na Beira, e as verdes hortas rodeadas de palmeiras e de poços com noras tão comuns na minha memória das qvintas de Bemfica no início dos annos cincoenta. A circunstância completa de quem observa deve ser completamente descrita em protocolo e apensa aos registos da observação. Como num tribunal, as circunstâncias agravam ou atenuam os delitos de observação.

Procura-se muitas vezes compensar o enviesamento pessoal recorrendo a uma multiplicidade de testemunhos: a objectividade resultaria da intersubjectividade dos vários sujeitos da observação. Se dispuséssemos de tempo suficiente, digamos de um tempo infinito, poderíamos discutir as nossas divergências resultantes do ponto de vista particular de cada um dos observadores até obter um consenso generalizado sobre um discurso que descrevesse com perfeição o objecto da nossa percepção. Esse discurso seria verdadeiro.

O desgaste da idade faz-nos apreciar o consenso. Lutas, oposições, pontos de vista são desgastantes. Juntar os inimigos – dizemos, então, os adversários – de antigamente, jogar à sueca e despejar umas loiras, a meio da tarde, só pode ser superado por juntar os adversários de antigamente, cantar uns fadunchos sentimentalões, comer chouriço assado e despejar carrascão aos cântaros pelas goelas abaixo no correr da noite. O consenso é a velhice. Vejamos: o que é estar de acordo? É suprimir os contrários em que discordamos e aceitar as generalidades irrecusáveis. Nada se ganha com as generalidades, tudo se perde na falência dos pormenores.

Uma verdade assim de nada nos serviria. Recordo a minha primeira namorada (que será feito dela?) que me dizia: “Sei que me mentes descaradamente. Mas que me importa, se é bonito!...”. E tinha razão: uma verdade obtida por consenso é uma verdade sem atavios, tão cinzenta quanto um quadro de uma multinacional. Não há como compor a verdade, e isso tem que ser à maneira de cada um. Então, lá se vai a verdade.

Podemos contornar esse obstáculo recorrendo ao olho de deus.

Espantado? Espantada? Não sabe o que é? Receia dar ouvidos a heresiarcas? Acalme-se, não tenha receios: este é, foi e será o processo mais comum e mais aceite de garantir a verdade.

Permitam-me entretanto que perambule um bocadinho até chegar ao olho de deus. Quando andava na catequese em Benfica esforçava-me por ter as lições na ponta da língua para poder ver as projecções de cenas da Bíblia que o padre Proença passava para os melhores catequisandos. Não se riam que não é caso para isso. Conseguem imaginar como seria a vida quando não havia televisão? Sim, não havia televisão! O melhor que um miúdo da minha idade podia desejar era ir duas ou três vezes por ano ao cinema da Av. Gomes Pereira, onde hoje é a sede da Junta de Freguesia, para ver filmes para maiores de 6 anos antecedidos pelos “desanimados”. Para ver o mundo para além da nossa rua era preciso dar corpo e cor aos figurinos e personagens dos romances radiofónicos ou esperar pelo Verão para ir à praia. Então, todo contente, lá ia marcar presença, creio que nas tardes das quintas-feiras, e procurar lugar na primeira fila. As histórias eram maravilhosas: o irmão mau que matava o irmão bom; um homem justo incomodado por deus e pelo diabo, que se conluiavam para lhe matar a família, dissipar a fortuna, e, não contentes, mandavam-lhe chagas com pus que lhe roíam a carne e os ossos; a mulher que fugia da cidade do pecado e que, ao olhar para trás, foi convertida numa estátua de sal; o guerreiro, desgrenhado como um beatle, a quem a mulher, a soldo do inimigo, lhe corta as tranças que lhe davam uma força sobre-humana; o velhote que mete uma data de animais num titanic à prova de tsunamis e fica lá o tempo todo à espera duma pomba que lhe há-de trazer no bico um raminho de oliveira. Histórias maravilhosas que se misturavam com as do Tintin, Mandrake, Mortimer, Tarzan, Zorro, apanhadas à página aos sábados no Mosquito ou no Cavaleiro Andante.

Foi nestas andanças das merecidas projecções das quintas-feiras que me encontrei pela primeira vez frente ao olho de deus. Imaginem um cenário qualquer, uma cena bíblica, deus a entregar as tábuas da lei a Moisés. Deus não está lá em pessoa. Vê-se uma nuvem espessa, tipo uma nimbus rechonchuda e, a espreitar lá por detrás, um triângulo isósceles com um olho incrustado que faísca raios dirigidos para a cena humana: o olho de deus.

O olho de deus é como um bird’s eye view que tudo vê lá de cima. Se estou aqui frente ao monitor, o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha aparece-me à direita do meu teclado. O Gervásio, quando está à minha frente a querer que lhe dê atenção e lhe explique um ou outro pormenor de não sei o que escrevi há não sei quanto tempo, dir-me-á que vê o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à esquerda do meu teclado. E assim se dá uma inversão de posições, explicada por uma diversa perspectiva, geradora, noutros casos, claro, de guerras e genocídios terríveis. O olho de deus não é assim, não tem perspectiva: tudo o que vê, vê de uma maneira absoluta. As coisas aparecem na sua infinitude no espaço e no tempo.

E há mais. À abrangência acresce a penetratividade: o olho de deus tudo penetra – o corpo, a alma, o espírito, a mente, a consciência. Deus está sempre a espreitar no mais íntimo de nós e a pesar comportamentos, palavras e pensamentos, opondo os bons aos maus, escrevendo-os no Deve e no Haver do céu para ajustar contas após a nossa partida. Como tudo é visível à luz do olho de deus, a verdade é o que deus vê. O melhor que o homem pode fazer para descobrir a verdade é empoleirar-se algures num recôndito do crânio divino e experimentar olhar através do seu olho. A verdade existe e é objectiva: são as projecções no olho de deus.

Aristóteles, Tomás de Aquino e Ratzinger procuram convencer que o ser o humano é particularmente dotado para descobrir a “Verdade” porque há algo nele, um lumen naturale, que é parte da ocularidade divina. Essa luz interna (intellectus, do latim intus + legere) que nos permite “ler dentro” das coisas permite-nos chegar à “Verdade” desde que amparada pelas escrituras, a tradição e o magistério da igreja

católica-romana. E para que todas leiam da mesma maneira há o dogma e a infalibilidade papal. Há também a santa inquisição e a fogueira onde ardem todas as mentiras.

Não é porém a Verdade propriedade exclusiva dos romanos católicos. Hitler, Salazar, Estaline, entre outros, defenderam à sua maneira a Verdade. E tiveram ao seu serviço instrumentos e tecnologia, com mais ou menos ponta, para induzir ou extrair a verdade. O marketing, a publicidade e os meios de comunicação social são os meios utilizados hoje para defender e propagar a Verdade do capitalismo global (“a sociedade de mercado num mundo globalizado”).

“O que é a verdade?”, pergunta o prefeito ao mensageiro da Verdade divina. O evangelho de João não nos dá a resposta.

E se toda realidade fosse uma obra criativa, um romance que vai sendo criado a cada momento ao sabor da inspiração divina? O problema da verdade não se punha e a pergunta de Pilatos, personagem focal deste romance policial, ou romance de série negra, seria: “O que é a realidade?”.

Os gregos deram à verdade o nome de aletheia que, em português, soa a “des-vendamento”. Para eles, verdade é tirar a venda à realidade, é des-cobrir, pôr a realidade a nu. Como isso se faz e o que daí se obtém só o sabemos pelo que eles fizeram: demolindo mitos, pondo todas as verdades à prova, inquirindo, experimentando e testando soluções novas, pondo o dedo nas feridas humanas, incomodando os deuses, desafiando o destino.

É errar, é perder-se e reencontrar-se. Sem poupar esforços. Sem fim à vista.

Os divinos gregos retrataram a verdade na imagem de Sísifo. Para descobrir a verdade, cada um tem que empurrar a sua rocha para o topo da montanha. Só que a verdade não se dá bem com o topo da montanha. Ao atingi-lo, resvala pela vertente abaixo à procura das sombras dos vales.