Há uma diferença irredutível entre estar-em e ser-em. O ser-em estabelece uma relação entre o ser-para-si enquanto eu e o sistema de coordenadas que o referenciam; no estar-em prevalece a dádiva e o apego do corpo ao lugar, função sacrificial que funde o eu e o lugar numa só substância.
Assim, caminhei Santarém como um amante que percorre todas as porções do corpo amado, sentindo-lhe o respirar, o pulsar, o estremecer.No regresso, passei pela Praça Visconde Serra do Pilar com os seus vistosos prédios cobertos de azulejos variegados com mansarda e e sacadas em ferro forjado.
Cortei ali ladeando os Correios e fui dar ao Largo Cândido dos Reis onde se avista, no lado a Sul, a Misericórdia.
Descendo a Avª. Sá da Bandeira lobrigamos ao fundo o Palácio da Justiça e, à sua direita, o Mercado Municipal com os seus maravilhosos azulejos.
Santarém em passeio (2)
10/16/2008 05:41:00 da tarde | Etiquetas: passeio, Santarém | 1 Comments
Santarém em passeio (1)
O lugar é onde a gente está e o que a gente ama.
Apesar de haver lugares horríveis, de pesadelo, em que de súbito nos acomete o pânico, de onde queremos rapidamente fugir; de haver lugares indiferentes que apenas têm de importante estarem na cercania de outros lugares (são os lugares de passagem); os lugares que interessam são os lugares aprazíveis.
O que torna um lugar aprazível é ter disponibilidade para estar nele. Foi o caso da permanência forçada em Santarém por altura da revisão do carro. É que os olhos só vêm quando andam a pé!
Comecei no Largo do Seminário onde se situa a Bijou, lugar de culto para a bica e o pastel de nata, tão bom que à primeira dentada se pode dizer que é um "pastel de nada".
Embrenhei-me nas ruas do centro histórico à cata de igrejas (do gótico ao maneirista há de tudo).
Fui à Torre das Cabaças e andei a ver o que restava do velho Rosa Damasceno.
Continuei às voltas, mas isso é assunto para outra altura...
10/11/2008 10:24:00 da manhã | Etiquetas: Bijou, passeio, Santarém | 3 Comments
O deserto, ou o observador observado.
Considera-se geralmente o corpo animal como um ente do mundo material: uma carcaça, uma máquina fisiológica.
O observador observado é, segundo a Metafísica, uma alma, uma sombra alienígena que se instala num “corpo”, à nascença do indivíduo, e que se liberta deste na altura da morte, condenando-o à dissolução e dispersão da matéria.
Sócrates, o arauto da Metafísica, decretou a espiritualidade e imortalidade da alma. Pensou-se, durante muito tempo, que Sócrates havia enaltecido o humano; pensa-se, hoje, que apenas aviltou o corpo.
De acordo com o pensamento pós-socrático, a alma vive no mundo material encarcerada no corpo, mas não é do Mundo. De acordo com Platão, que desenhou os elementos chave da arquitectura da Metafísica, e que, por esse facto, veio a condicionar todo o desenvolvimento posterior do pensamento ocidental, o mundo que se reconhece é uma réplica imperfeita do mundo ideal que a alma revive por reminiscência de uma vida passada.
Quando a Metafísica ocidental cruzou os seus genes com o Monoteísmo semita gerou o pensamento cristão medieval, um monolito assente na congruência das duas vias estabelecida por uma cadeia de analogias. O mundo ideal hiperurânico era, afinal, o paraíso perdido; o povo eleito era, afinal, um rebanho de almas descarnados à procura de descanso e da contemplação na eternidade.
Descartes, no alvor da modernidade, sanciona a ruptura final considerando o mundo material e a Alma como duas res distintas, definidas respectivamente como extensão e cogitância. A Alma adveio consciência de si renitentemente resistente ao teste da dúvida metódica.
Para a metafísica a questão resume-se à seguinte fórmula: a Alma odeia o mundo material e anseia pelo regresso ao Paraíso.
A crítica de Nietzsche à Metafísica e a fundamentação científica do pensamento naturalista ensaiada a primeira vez por Darwin provocaram duros golpes na concepção metafísica do Mundo. No meio dos estragos, Freud e Marx esforçam-se por salvar o que puderem. Ambos se dizem materialistas: Freud assenta no materialismo biológico e procura demonstrar a origem da alma em impulsos dinâmicos primordiais anteriores ao aparecimento da consciência; Marx fundamenta-se no materialismo social e económico e procura remontar a parábola do povo eleito e caído em lenta progressão para o paraíso prometido. Apesar de materialistas, são judeus a recuperar os mitos da criação, do pecado original e da redenção.
Deixemo-nos, por ora, de Marx e concentremo-nos na metafísica da Alma restaurada por Freud. A Alma é o resultado de pulsões básicas inconscientes e em conflito no mundo. Não é um Eu (Ego), é um Isso (Id), um ser impessoal e sem consciência de si a debater-se no mundo pela satisfação de necessidades, conduzido pelo princípio da obtenção do prazer ou, melhor dizendo, da quietação da dor (libido). A consciência é um epifenómeno resultante do embate das pulsões inconscientes com o mundo. À consciência impõe-se o Eu Ideal (Superego), princípio super-ordenador que se esforça por socializar a besta desordenada e em fúria contra um mundo que lhe resiste. A essa estrutura anímica corresponde um conjunto de sistemas simbólicos que se exercem numa esfera autónoma da esfera biológica, a Cultura. A partir daí a Alma tem dois caminhos: transfigurar ou reprimir as pulsões, conduzindo a comportamentos disfuncionais, neuróticos ou psicóticos; sublimar as pulsões originando a criatividade e a obra de arte. É a restauração do mito judaico-cristão do castigo versus redenção lido na óptica da metafísica, ou seja como um conflito entre a razão e o instinto. Mais tarde, Freud vem a enunciar um novo tipo de impulsos responsáveis por reconduzir o indivíduo à vontade de morrer (thanatos). É a pulsão do retorno ao estádio primitivo: através do útero ao túmulo e, daí, ao nada.
Fechado o anel que iniciámos em Sócrates e fechámos em Freud que conclusões retiramos? Apenas uma: a Metafísica propagandeia o ódio pelo corpo e incita ao desejo da sua dissolução no nada.
Ora, o que vemos quando vamos para o deserto? O que vemos quando surpreendemos o observador?
Darei aqui apenas uma súmula das ideias a que cheguei. A sua explanação detalhada está feita noutro local não se destinando à publicação em blogue.
1. Hiperconsciência do corpo e dissociação do Eu. A exiguidade do Mundo espevita a consciência do Corpo. Incremento das halucinações, da fome e do sono. Em extremo isolamento e em monótona uniformidade, o delírio psicóide. A vida é um sonho acordado. O imaginário é conduzido por diferentes e divergentes personalidades.
2. Manutenção da linguagem e dos outros códigos simbólicos. O Logos é uma estrutura a priori da experiência. A conversação com o interlocutor imaginário assemelha-se à oração, ao Caminho da Perfeição (ver Teresa de Ávila).
3. Cada grão de areia contém a totalidade do Mundo.
4. A tomada de consciência da finitude e do ser-para-a-morte aumenta o apreço pela gratuidade da vida. A vida como absurdo (abs urdum), origem e finalidade incausadas. O sentido da vida é assumir-se livremente como abertura para o Mundo. O sentido da vida passa a ser, assim, o sentido do Mundo.
5. Diabos e símbolos: Esclarecimento do Mundo (é preferível dizer aclaramento do Mundo) - do mundo incógnito (espaço de espaços) ao mundo familiar (lugar de lugares). A criação de mundos: separar (diabolon) e unir (synbolon).
6. O lugar primordial como jardim. A árvore do Bem e do mal no centro do Paraíso é a idade outonal da humanidade.
9/28/2008 11:20:00 da manhã | Etiquetas: alma, coisa (res), Darwin, Descartes, deserto, diábolo, Freud, jardim, Marx, Metafísica, monoteísmo, Mundo, Nietzsche, Platão, símbolo, Sócrates, Teresa de Ávila | 0 Comments
O globo e o deserto.
Na globalização real que houve e foi portuguesa, viajar foi aparelhar as caravelas e partir, deixando o corpo ir nelas.
No nosso contemporâneo mundo global, cibernavegar não é mais viajar, não é senão riscar trajectórias saltitantes entre pontos de partida incertos e pontos de chegada provisórios. Agora que o Mundo se extremou no Globo, viajar tornou-se o pular de ponto para ponto, como quem joga à macaca, mas sem trajectória planeada. Tanto dá que este pular seja um pular para a frente, como um pular para o lado ou para trás. Cada coisa está em todo o lugar; em cada lugar cabem todas as coisas. Cada lugar tem enlaces de outros lugares.
Na intermitência do pular ocorre a descorporalização do eu. O corpo estático ostenta-se como a presença do estranho num sítio que fica nas praias (ou nas margens?) do viajar global. O corpo também pode ser informação como imagem captada ou como voz registada. Mas o corpo não é transportado, o que viaja são os bits.
O eu camuflado, ou a mudança de identidade, é o fenómeno decorrente e recorrente da descorporalização. Minimização dos estímulos e dispersão da atenção. Esvazia-se a consciência de si e o eu atafulha-se de figurações.
No outro extremo face ao globo, o deserto.
No deserto escasseiam os estímulos; por isso, os sentidos agudizam-se e a atenção atinge o ponto de concentração máximo. A vigília é o fenómeno decorrente e recorrente de uma outra descorporalização, em que o corpo se torna o duplo, o cúmplice do mundo. Maximização da consciência do eu face ao nada, ou quase nada, do mundo. Dissolução no Nada ou dissolução no Todo? As opções são infinitas. A do monge e a do terrorista suicida são também opções: o monge afasta-se do mundo para a extremidade do Nada, o suicida terrorista explode o mundo na extremidade do Todo.
9/15/2008 03:52:00 da tarde | Etiquetas: corpo, deserto, enlace, eu, globalização | 1 Comments
Local e global

Por oposição ao Lugar, o Globo não tem a possibilidade de representação.
O lugar pode ser representado na medida em que através dele se tornam sempre e de novo presentes o meu corpo e as coisas que preenchem o lugar. Dito assim, este é o lugar do eu presente, aqui-e-agora, mas há os lugares de onde vim e os lugares para onde tenciono ir. Eles estão presentes na medida em que estão presentes na memória.
A representação de um lugar não depende da sua extensão, mas a sua extensão depende da minha prontidão para o representar. Neste momento, estou aqui à secretária, confinado a um pequeno rectângulo de madeira e face a um conjunto de objectos a que chamo de computador e seus periféricos. Todavia, a vista e o ouvido prolongam o espaço do lugar até ao limite em que vislumbro as paredes e as janelas, o chão e o tecto. O cheiro intenso a queimado do pão que deixei na torradeira permite-me ir ainda ao de lá destas barreiras físicas e integrar o espaço invisível da cozinha. Ir é uma maneira de dizer: o corpo que desce as escadas em direcção à cozinha é um corpo descarnado, comandado à distância pelo cérebro, que vai perdendo visibilidade e se ausenta à medida que se afasta. O meu corpo real continua sentado a ocupar o centro geométrico do lugar, inerte e pesado, às excepção das mãos que picoteiam incessantemente o teclado e dos olhos que percorrem o ecrã em movimentos certeiros de escrutínio.
A representação do lugar, como não depende da sua extensão, não tem limites definidos, é elástica na periferia. O encolher ou o alargar depende da minha preocupação. Estar ocupado significa estar aqui com as coisas no centro do lugar. E se o lugar se expande, e até onde se expande, isso representa o alcance da minha preocupação. Agora, neste exacto momento, o meu lugar abarca a horta nova, aquele pequeno rectângulo situado a norte entre os ciprestes e a pista de ciclismo do Daniel. Tenho que continuar, o mais cedo possível, a vedação a arame para impedir a invasão pelos coelhos bravos. Amanhã ou depois, estarei noutro lugar, conto que seja em Lisboa. Lisboa não está confinada aos seus limites concelhios. Estes não delimitam um lugar, apenas definem uma convenção geográfica. Lisboa irá começar na auto-estrada, algures onde uma atmosfera de poluição opressora me fará entontecer, abrasar os brônquios e embaçar os olhos. E terá continuidade através da segunda circular, IC19 e IC21 até para lá da Várzea de Sintra em direcção ao Magoito onde me encontrarei com a minha mãe para o nosso almoço em comum da semana.
Este lugar grande, esta grande elipse com os dois focos em Santarém e em Lisboa, é o meu lugar habitual, o lugar onde espalho regularmente a minha existência segundo o meu modo de vida. O meu lugar é o que eu quero que seja, sem extensão predefinida, sem centro preferido. Noutras alturas da minha vida, vivi noutros lugares, viajei por outros lugares. Saí da Europa para estar em África ou ir à América. África e América são continentes, isto é, grandes lugares, cercados por outros lugares que são os céus e os mares, que contêm lugares, que englobam outros lugares num decrescendo harmónico até aos últimos lugares que é, cada um, onde se encontra, ou se ausenta, uma pessoa.
Se podemos descobrir novos lugares, por uma espécie de zoom out, rasgando e alargando os horizontes e, conversamente, miniaturizar microscopicamente um lugar, por uma espécie de zoom in, porque não alargar, mesmo que conceptualmente, os limites do lugar para um horizonte praticamente infinito e conceber o global como um lugar infinitamente grande? Exactamente pela razão que isso continuaria a ser um lugar, centrado no meu olhar pessoal na presença do meu corpo de si a si mesmo. E haveria certamente outros lugares globais centrados na vivência de outros. Pobres e descaracterizados, mas extensos, partilhando em comum a existência de uma barreira de contornos nebulosos, separando o todo do nada, o aquém do além.
A este lugar “globalizado” chamou a cristandade medieval o “mundo”. Para o cristão medieval, o mundo é o ambiente onde a alma cumpre a sua passagem pela terra, incarnada num corpo material e corruptível, até regressar ao sítio de onde é originária, o Além.
O cristianismo primitivo foi uma religião de cidades. A cidade cristã é, em primeiro lugar, uma comunidade de pessoas, a igreja, e não uma cidade de pedra. (O termo igreja tem raiz no grego εκκλησία, a assembleia dos cidadãos, e só designou os edifícios religiosos muitos séculos mais tarde). A cidade cristã primitiva era um lugar fundado sobre os corpos dos que praticavam a fé seguindo a tradição, fundamentada nos evangelhos, segundo a qual o fundador a havia edificado sobre o corpo do seu discípulo Simão, a quem chamou Pedra (”et adduxit eum ad Iesum intuitus autem eum Iesus dixit tu es Simon filius Iohanna tu vocaberis Cephas quod interpretatur Petrus” [João, I, 42]). O corpo foi sem dúvida a pedra alicerce sobre o qual os seguidores de Cristo edificariam a sua igreja, “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mateus, XVI,18].
Como os ratos de esgoto, os primeiros cristãos prosperaram no mundo subterrâneo das catacumbas, onde se encontravam e praticavam o culto. Viviam entre dois aléns, um além interior, a cidade de deus, e um alem exterior, a cidade dos homens, o mundo. As portas do inferno estavam realmente a dois passos. Os seus corpos eram o templo onde habitava o espírito do eterno e não podiam ser profanados. Contra a profanação, a apostasia ou as tentações do inimigo o cristão deveria dar testemunho da sua fé (mártir, em grego μάρτυς, significa testemunha) através do sofrimento sacrifício e, se necessário, pela morte do corpo.
A partir do século IV o cristianismo faz um giro de 180 graus. Em 301, torna-se igreja de estado na Arménia. Em 313, cessam as perseguições religiosas em todo o império graças ao Edito de Milão, promulgado por Constantino. Em 325, os bispos reunidos no Concílio de Niceia dissiparam as controvérsias teológicas criando o unanimismo da fé em torno do símbolo dos apóstolos, o credo cristão. Na segunda metade do século, sob o domínio de Teodosiano, os cristãos fizeram o assalto final ao império, destruindo ou confiscando os templos pagãos, acusando, demitindo e perseguindo até à morte os ministros dos velhos cultos imperiais e combatendo ferozmente tudo o que lhes pareceu pagão ou herético. Em 381, o Concílio de Constantinopla decretou o dogma da Tridade consagrando a fusão do messianismo judeocristão com o essencial do mitraísmo, a religião pagã indo-europeia dominante no seio dos exércitos que defendiam o Império nas suas fronteiras.
Cristianização do império ou romanização do cristianismo? Foram os cristãos que minaram o império para sobreviver às perseguições, ou foi o império que se apropriou do cristianismo para sobreviver à pressão dos bárbaros? Esta é a única questão cuja resposta nos poderá ajudar a compreender a natureza real da auto-intitulada Igreja Católica Romana.
Sendo a história escrita pelos cristãos, não admira que nos tenha sido passada uma imagem de um império cujos alicerces vão ruindo sobre o sangue mártir dos cristãos, como a cidade de Jericó, a Tróia semita, sucumbiu ao som das trezentas trombetas dos sitiantes. Prefiro a versão oposta. Face à eminente invasão dos bárbaros urgia tomar duas decisões: transferir a capital do império para oriente e subordenar todas as instituições políticas, jurídicas e administrativas a uma ideologia monista, autoritária, centralizadora, prosélita e de ambição universalista. A invasão bárbara consistiu mais numa pressão populacional, começando nas fronteiras e acabando na Urbe, do que em investidas guerreiras. Como hoje, as hordas tribais sul-americanas, africanas e orientais impulsionadas pela fome e atraídas pela riqueza, real ou imaginada, da Comunidade Europeia. Assim, Roma acolheu os bárbaros convertendo-os de seguida ao cristianismo. O mundo transformou-se, provisoriamente, na cidade de deus, a igreja militante. O mundo, desde aí e até meados dos século passado com a descolonização, não deixou de ser um imenso campo de batalha, na purga do paganismo e das heresias, nas cruzadas contra os infiéis e no alargamento da fé e do império. Por isso, igreja romana – porque é o império romano que sobrevive e não as crenças proto-cristãs; por isso, igreja católica – devido à pulsão de universalismo [católico, em grego καθολικός, significa universal], de globalização.
O império, nos dias de hoje, sente-se ameaçado pela nova invasão dos bárbaros: as economias emergentes, o terrorismo global e o espectro da fome, pandemias e calamidades naturais. Novamente na história dos homens a mesma solução de sobrevivência: a adopção de uma religião militante e globalizadora.
E essa nova religião globalizadora é o liberalismo. Como o cristianismo, que combateu o “mundano” por separar deus e a alma, o liberalismo combate o “estado” e a “política”, a mão visível do intervencionismo e do proteccionismo que obstrui o equilíbrio do mercado, separando a oferta e a procura. Como o cristianismo criou uma rede europeia, e depois mundial, de paróquias e de mosteiros, com as suas escolas, bibliotecas e catedrais, para se expandir e controlar, o liberalismo usou os media e as telecomunicações para globalizar (conectividade absoluta).
A oposição lugar-globo não é uma questão de escala. O globo não é o mais extenso e o mais abstracto dos lugares.
Sendo o corpo a sede de todos os lugares, os cristãos (numa tradição que vem de Platão até Agostinho de Hipona através dos neoplatónicos) reinventaram a alma para sediar o além. Os novos mentores da suprema religião económica/ecuménica inventaram o ser virtual –pura essência descorporalizada sede de puras decisões instantâneas, o sujeito económico actor do mercado, o sujeito lúdico viciado na internet e no telemóvel e de toda a parafernália de gadgets que prometem o céu instantâneo e pronto a gozar. O global não é representável porque o corpo é-lhe ausente.
Que haja fome no mundo? Sempre houve. Um pequeno inconveniente para castigar o corpo e atingir o reino dos céus. Graças à economia de mercado, não vivemos já num mundo de abundância?
6/05/2008 07:49:00 da tarde | Etiquetas: cristianismo, globalização, liberalismo, lugar, Mundo, Santarém | 0 Comments

