Mercado Municipal de Santarém (1928, arquitecto Cassiano Branco): Azulejos 1 a 4.
Santarém em passeio (3)
10/19/2008 09:41:00 da manhã | Etiquetas: azulejo, Cassiano Branco, passeio, Santarém | 7 Comments
Santarém em passeio (2)
Há uma diferença irredutível entre estar-em e ser-em. O ser-em estabelece uma relação entre o ser-para-si enquanto eu e o sistema de coordenadas que o referenciam; no estar-em prevalece a dádiva e o apego do corpo ao lugar, função sacrificial que funde o eu e o lugar numa só substância.
Assim, caminhei Santarém como um amante que percorre todas as porções do corpo amado, sentindo-lhe o respirar, o pulsar, o estremecer.No regresso, passei pela Praça Visconde Serra do Pilar com os seus vistosos prédios cobertos de azulejos variegados com mansarda e e sacadas em ferro forjado.
Cortei ali ladeando os Correios e fui dar ao Largo Cândido dos Reis onde se avista, no lado a Sul, a Misericórdia.
Descendo a Avª. Sá da Bandeira lobrigamos ao fundo o Palácio da Justiça e, à sua direita, o Mercado Municipal com os seus maravilhosos azulejos.
10/16/2008 05:41:00 da tarde | Etiquetas: passeio, Santarém | 1 Comments
Santarém em passeio (1)
O lugar é onde a gente está e o que a gente ama.
Apesar de haver lugares horríveis, de pesadelo, em que de súbito nos acomete o pânico, de onde queremos rapidamente fugir; de haver lugares indiferentes que apenas têm de importante estarem na cercania de outros lugares (são os lugares de passagem); os lugares que interessam são os lugares aprazíveis.
O que torna um lugar aprazível é ter disponibilidade para estar nele. Foi o caso da permanência forçada em Santarém por altura da revisão do carro. É que os olhos só vêm quando andam a pé!
Comecei no Largo do Seminário onde se situa a Bijou, lugar de culto para a bica e o pastel de nata, tão bom que à primeira dentada se pode dizer que é um "pastel de nada".
Embrenhei-me nas ruas do centro histórico à cata de igrejas (do gótico ao maneirista há de tudo).
Fui à Torre das Cabaças e andei a ver o que restava do velho Rosa Damasceno.
Continuei às voltas, mas isso é assunto para outra altura...
10/11/2008 10:24:00 da manhã | Etiquetas: Bijou, passeio, Santarém | 3 Comments
O deserto, ou o observador observado.
Considera-se geralmente o corpo animal como um ente do mundo material: uma carcaça, uma máquina fisiológica.
O observador observado é, segundo a Metafísica, uma alma, uma sombra alienígena que se instala num “corpo”, à nascença do indivíduo, e que se liberta deste na altura da morte, condenando-o à dissolução e dispersão da matéria.
Sócrates, o arauto da Metafísica, decretou a espiritualidade e imortalidade da alma. Pensou-se, durante muito tempo, que Sócrates havia enaltecido o humano; pensa-se, hoje, que apenas aviltou o corpo.
De acordo com o pensamento pós-socrático, a alma vive no mundo material encarcerada no corpo, mas não é do Mundo. De acordo com Platão, que desenhou os elementos chave da arquitectura da Metafísica, e que, por esse facto, veio a condicionar todo o desenvolvimento posterior do pensamento ocidental, o mundo que se reconhece é uma réplica imperfeita do mundo ideal que a alma revive por reminiscência de uma vida passada.
Quando a Metafísica ocidental cruzou os seus genes com o Monoteísmo semita gerou o pensamento cristão medieval, um monolito assente na congruência das duas vias estabelecida por uma cadeia de analogias. O mundo ideal hiperurânico era, afinal, o paraíso perdido; o povo eleito era, afinal, um rebanho de almas descarnados à procura de descanso e da contemplação na eternidade.
Descartes, no alvor da modernidade, sanciona a ruptura final considerando o mundo material e a Alma como duas res distintas, definidas respectivamente como extensão e cogitância. A Alma adveio consciência de si renitentemente resistente ao teste da dúvida metódica.
Para a metafísica a questão resume-se à seguinte fórmula: a Alma odeia o mundo material e anseia pelo regresso ao Paraíso.
A crítica de Nietzsche à Metafísica e a fundamentação científica do pensamento naturalista ensaiada a primeira vez por Darwin provocaram duros golpes na concepção metafísica do Mundo. No meio dos estragos, Freud e Marx esforçam-se por salvar o que puderem. Ambos se dizem materialistas: Freud assenta no materialismo biológico e procura demonstrar a origem da alma em impulsos dinâmicos primordiais anteriores ao aparecimento da consciência; Marx fundamenta-se no materialismo social e económico e procura remontar a parábola do povo eleito e caído em lenta progressão para o paraíso prometido. Apesar de materialistas, são judeus a recuperar os mitos da criação, do pecado original e da redenção.
Deixemo-nos, por ora, de Marx e concentremo-nos na metafísica da Alma restaurada por Freud. A Alma é o resultado de pulsões básicas inconscientes e em conflito no mundo. Não é um Eu (Ego), é um Isso (Id), um ser impessoal e sem consciência de si a debater-se no mundo pela satisfação de necessidades, conduzido pelo princípio da obtenção do prazer ou, melhor dizendo, da quietação da dor (libido). A consciência é um epifenómeno resultante do embate das pulsões inconscientes com o mundo. À consciência impõe-se o Eu Ideal (Superego), princípio super-ordenador que se esforça por socializar a besta desordenada e em fúria contra um mundo que lhe resiste. A essa estrutura anímica corresponde um conjunto de sistemas simbólicos que se exercem numa esfera autónoma da esfera biológica, a Cultura. A partir daí a Alma tem dois caminhos: transfigurar ou reprimir as pulsões, conduzindo a comportamentos disfuncionais, neuróticos ou psicóticos; sublimar as pulsões originando a criatividade e a obra de arte. É a restauração do mito judaico-cristão do castigo versus redenção lido na óptica da metafísica, ou seja como um conflito entre a razão e o instinto. Mais tarde, Freud vem a enunciar um novo tipo de impulsos responsáveis por reconduzir o indivíduo à vontade de morrer (thanatos). É a pulsão do retorno ao estádio primitivo: através do útero ao túmulo e, daí, ao nada.
Fechado o anel que iniciámos em Sócrates e fechámos em Freud que conclusões retiramos? Apenas uma: a Metafísica propagandeia o ódio pelo corpo e incita ao desejo da sua dissolução no nada.
Ora, o que vemos quando vamos para o deserto? O que vemos quando surpreendemos o observador?
Darei aqui apenas uma súmula das ideias a que cheguei. A sua explanação detalhada está feita noutro local não se destinando à publicação em blogue.
1. Hiperconsciência do corpo e dissociação do Eu. A exiguidade do Mundo espevita a consciência do Corpo. Incremento das halucinações, da fome e do sono. Em extremo isolamento e em monótona uniformidade, o delírio psicóide. A vida é um sonho acordado. O imaginário é conduzido por diferentes e divergentes personalidades.
2. Manutenção da linguagem e dos outros códigos simbólicos. O Logos é uma estrutura a priori da experiência. A conversação com o interlocutor imaginário assemelha-se à oração, ao Caminho da Perfeição (ver Teresa de Ávila).
3. Cada grão de areia contém a totalidade do Mundo.
4. A tomada de consciência da finitude e do ser-para-a-morte aumenta o apreço pela gratuidade da vida. A vida como absurdo (abs urdum), origem e finalidade incausadas. O sentido da vida é assumir-se livremente como abertura para o Mundo. O sentido da vida passa a ser, assim, o sentido do Mundo.
5. Diabos e símbolos: Esclarecimento do Mundo (é preferível dizer aclaramento do Mundo) - do mundo incógnito (espaço de espaços) ao mundo familiar (lugar de lugares). A criação de mundos: separar (diabolon) e unir (synbolon).
6. O lugar primordial como jardim. A árvore do Bem e do mal no centro do Paraíso é a idade outonal da humanidade.
9/28/2008 11:20:00 da manhã | Etiquetas: alma, coisa (res), Darwin, Descartes, deserto, diábolo, Freud, jardim, Marx, Metafísica, monoteísmo, Mundo, Nietzsche, Platão, símbolo, Sócrates, Teresa de Ávila | 0 Comments
O globo e o deserto.
Na globalização real que houve e foi portuguesa, viajar foi aparelhar as caravelas e partir, deixando o corpo ir nelas.
No nosso contemporâneo mundo global, cibernavegar não é mais viajar, não é senão riscar trajectórias saltitantes entre pontos de partida incertos e pontos de chegada provisórios. Agora que o Mundo se extremou no Globo, viajar tornou-se o pular de ponto para ponto, como quem joga à macaca, mas sem trajectória planeada. Tanto dá que este pular seja um pular para a frente, como um pular para o lado ou para trás. Cada coisa está em todo o lugar; em cada lugar cabem todas as coisas. Cada lugar tem enlaces de outros lugares.
Na intermitência do pular ocorre a descorporalização do eu. O corpo estático ostenta-se como a presença do estranho num sítio que fica nas praias (ou nas margens?) do viajar global. O corpo também pode ser informação como imagem captada ou como voz registada. Mas o corpo não é transportado, o que viaja são os bits.
O eu camuflado, ou a mudança de identidade, é o fenómeno decorrente e recorrente da descorporalização. Minimização dos estímulos e dispersão da atenção. Esvazia-se a consciência de si e o eu atafulha-se de figurações.
No outro extremo face ao globo, o deserto.
No deserto escasseiam os estímulos; por isso, os sentidos agudizam-se e a atenção atinge o ponto de concentração máximo. A vigília é o fenómeno decorrente e recorrente de uma outra descorporalização, em que o corpo se torna o duplo, o cúmplice do mundo. Maximização da consciência do eu face ao nada, ou quase nada, do mundo. Dissolução no Nada ou dissolução no Todo? As opções são infinitas. A do monge e a do terrorista suicida são também opções: o monge afasta-se do mundo para a extremidade do Nada, o suicida terrorista explode o mundo na extremidade do Todo.
9/15/2008 03:52:00 da tarde | Etiquetas: corpo, deserto, enlace, eu, globalização | 1 Comments
Local e global

Por oposição ao Lugar, o Globo não tem a possibilidade de representação.
O lugar pode ser representado na medida em que através dele se tornam sempre e de novo presentes o meu corpo e as coisas que preenchem o lugar. Dito assim, este é o lugar do eu presente, aqui-e-agora, mas há os lugares de onde vim e os lugares para onde tenciono ir. Eles estão presentes na medida em que estão presentes na memória.
A representação de um lugar não depende da sua extensão, mas a sua extensão depende da minha prontidão para o representar. Neste momento, estou aqui à secretária, confinado a um pequeno rectângulo de madeira e face a um conjunto de objectos a que chamo de computador e seus periféricos. Todavia, a vista e o ouvido prolongam o espaço do lugar até ao limite em que vislumbro as paredes e as janelas, o chão e o tecto. O cheiro intenso a queimado do pão que deixei na torradeira permite-me ir ainda ao de lá destas barreiras físicas e integrar o espaço invisível da cozinha. Ir é uma maneira de dizer: o corpo que desce as escadas em direcção à cozinha é um corpo descarnado, comandado à distância pelo cérebro, que vai perdendo visibilidade e se ausenta à medida que se afasta. O meu corpo real continua sentado a ocupar o centro geométrico do lugar, inerte e pesado, às excepção das mãos que picoteiam incessantemente o teclado e dos olhos que percorrem o ecrã em movimentos certeiros de escrutínio.
A representação do lugar, como não depende da sua extensão, não tem limites definidos, é elástica na periferia. O encolher ou o alargar depende da minha preocupação. Estar ocupado significa estar aqui com as coisas no centro do lugar. E se o lugar se expande, e até onde se expande, isso representa o alcance da minha preocupação. Agora, neste exacto momento, o meu lugar abarca a horta nova, aquele pequeno rectângulo situado a norte entre os ciprestes e a pista de ciclismo do Daniel. Tenho que continuar, o mais cedo possível, a vedação a arame para impedir a invasão pelos coelhos bravos. Amanhã ou depois, estarei noutro lugar, conto que seja em Lisboa. Lisboa não está confinada aos seus limites concelhios. Estes não delimitam um lugar, apenas definem uma convenção geográfica. Lisboa irá começar na auto-estrada, algures onde uma atmosfera de poluição opressora me fará entontecer, abrasar os brônquios e embaçar os olhos. E terá continuidade através da segunda circular, IC19 e IC21 até para lá da Várzea de Sintra em direcção ao Magoito onde me encontrarei com a minha mãe para o nosso almoço em comum da semana.
Este lugar grande, esta grande elipse com os dois focos em Santarém e em Lisboa, é o meu lugar habitual, o lugar onde espalho regularmente a minha existência segundo o meu modo de vida. O meu lugar é o que eu quero que seja, sem extensão predefinida, sem centro preferido. Noutras alturas da minha vida, vivi noutros lugares, viajei por outros lugares. Saí da Europa para estar em África ou ir à América. África e América são continentes, isto é, grandes lugares, cercados por outros lugares que são os céus e os mares, que contêm lugares, que englobam outros lugares num decrescendo harmónico até aos últimos lugares que é, cada um, onde se encontra, ou se ausenta, uma pessoa.
Se podemos descobrir novos lugares, por uma espécie de zoom out, rasgando e alargando os horizontes e, conversamente, miniaturizar microscopicamente um lugar, por uma espécie de zoom in, porque não alargar, mesmo que conceptualmente, os limites do lugar para um horizonte praticamente infinito e conceber o global como um lugar infinitamente grande? Exactamente pela razão que isso continuaria a ser um lugar, centrado no meu olhar pessoal na presença do meu corpo de si a si mesmo. E haveria certamente outros lugares globais centrados na vivência de outros. Pobres e descaracterizados, mas extensos, partilhando em comum a existência de uma barreira de contornos nebulosos, separando o todo do nada, o aquém do além.
A este lugar “globalizado” chamou a cristandade medieval o “mundo”. Para o cristão medieval, o mundo é o ambiente onde a alma cumpre a sua passagem pela terra, incarnada num corpo material e corruptível, até regressar ao sítio de onde é originária, o Além.
O cristianismo primitivo foi uma religião de cidades. A cidade cristã é, em primeiro lugar, uma comunidade de pessoas, a igreja, e não uma cidade de pedra. (O termo igreja tem raiz no grego εκκλησία, a assembleia dos cidadãos, e só designou os edifícios religiosos muitos séculos mais tarde). A cidade cristã primitiva era um lugar fundado sobre os corpos dos que praticavam a fé seguindo a tradição, fundamentada nos evangelhos, segundo a qual o fundador a havia edificado sobre o corpo do seu discípulo Simão, a quem chamou Pedra (”et adduxit eum ad Iesum intuitus autem eum Iesus dixit tu es Simon filius Iohanna tu vocaberis Cephas quod interpretatur Petrus” [João, I, 42]). O corpo foi sem dúvida a pedra alicerce sobre o qual os seguidores de Cristo edificariam a sua igreja, “e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mateus, XVI,18].
Como os ratos de esgoto, os primeiros cristãos prosperaram no mundo subterrâneo das catacumbas, onde se encontravam e praticavam o culto. Viviam entre dois aléns, um além interior, a cidade de deus, e um alem exterior, a cidade dos homens, o mundo. As portas do inferno estavam realmente a dois passos. Os seus corpos eram o templo onde habitava o espírito do eterno e não podiam ser profanados. Contra a profanação, a apostasia ou as tentações do inimigo o cristão deveria dar testemunho da sua fé (mártir, em grego μάρτυς, significa testemunha) através do sofrimento sacrifício e, se necessário, pela morte do corpo.
A partir do século IV o cristianismo faz um giro de 180 graus. Em 301, torna-se igreja de estado na Arménia. Em 313, cessam as perseguições religiosas em todo o império graças ao Edito de Milão, promulgado por Constantino. Em 325, os bispos reunidos no Concílio de Niceia dissiparam as controvérsias teológicas criando o unanimismo da fé em torno do símbolo dos apóstolos, o credo cristão. Na segunda metade do século, sob o domínio de Teodosiano, os cristãos fizeram o assalto final ao império, destruindo ou confiscando os templos pagãos, acusando, demitindo e perseguindo até à morte os ministros dos velhos cultos imperiais e combatendo ferozmente tudo o que lhes pareceu pagão ou herético. Em 381, o Concílio de Constantinopla decretou o dogma da Tridade consagrando a fusão do messianismo judeocristão com o essencial do mitraísmo, a religião pagã indo-europeia dominante no seio dos exércitos que defendiam o Império nas suas fronteiras.
Cristianização do império ou romanização do cristianismo? Foram os cristãos que minaram o império para sobreviver às perseguições, ou foi o império que se apropriou do cristianismo para sobreviver à pressão dos bárbaros? Esta é a única questão cuja resposta nos poderá ajudar a compreender a natureza real da auto-intitulada Igreja Católica Romana.
Sendo a história escrita pelos cristãos, não admira que nos tenha sido passada uma imagem de um império cujos alicerces vão ruindo sobre o sangue mártir dos cristãos, como a cidade de Jericó, a Tróia semita, sucumbiu ao som das trezentas trombetas dos sitiantes. Prefiro a versão oposta. Face à eminente invasão dos bárbaros urgia tomar duas decisões: transferir a capital do império para oriente e subordenar todas as instituições políticas, jurídicas e administrativas a uma ideologia monista, autoritária, centralizadora, prosélita e de ambição universalista. A invasão bárbara consistiu mais numa pressão populacional, começando nas fronteiras e acabando na Urbe, do que em investidas guerreiras. Como hoje, as hordas tribais sul-americanas, africanas e orientais impulsionadas pela fome e atraídas pela riqueza, real ou imaginada, da Comunidade Europeia. Assim, Roma acolheu os bárbaros convertendo-os de seguida ao cristianismo. O mundo transformou-se, provisoriamente, na cidade de deus, a igreja militante. O mundo, desde aí e até meados dos século passado com a descolonização, não deixou de ser um imenso campo de batalha, na purga do paganismo e das heresias, nas cruzadas contra os infiéis e no alargamento da fé e do império. Por isso, igreja romana – porque é o império romano que sobrevive e não as crenças proto-cristãs; por isso, igreja católica – devido à pulsão de universalismo [católico, em grego καθολικός, significa universal], de globalização.
O império, nos dias de hoje, sente-se ameaçado pela nova invasão dos bárbaros: as economias emergentes, o terrorismo global e o espectro da fome, pandemias e calamidades naturais. Novamente na história dos homens a mesma solução de sobrevivência: a adopção de uma religião militante e globalizadora.
E essa nova religião globalizadora é o liberalismo. Como o cristianismo, que combateu o “mundano” por separar deus e a alma, o liberalismo combate o “estado” e a “política”, a mão visível do intervencionismo e do proteccionismo que obstrui o equilíbrio do mercado, separando a oferta e a procura. Como o cristianismo criou uma rede europeia, e depois mundial, de paróquias e de mosteiros, com as suas escolas, bibliotecas e catedrais, para se expandir e controlar, o liberalismo usou os media e as telecomunicações para globalizar (conectividade absoluta).
A oposição lugar-globo não é uma questão de escala. O globo não é o mais extenso e o mais abstracto dos lugares.
Sendo o corpo a sede de todos os lugares, os cristãos (numa tradição que vem de Platão até Agostinho de Hipona através dos neoplatónicos) reinventaram a alma para sediar o além. Os novos mentores da suprema religião económica/ecuménica inventaram o ser virtual –pura essência descorporalizada sede de puras decisões instantâneas, o sujeito económico actor do mercado, o sujeito lúdico viciado na internet e no telemóvel e de toda a parafernália de gadgets que prometem o céu instantâneo e pronto a gozar. O global não é representável porque o corpo é-lhe ausente.
Que haja fome no mundo? Sempre houve. Um pequeno inconveniente para castigar o corpo e atingir o reino dos céus. Graças à economia de mercado, não vivemos já num mundo de abundância?
6/05/2008 07:49:00 da tarde | Etiquetas: cristianismo, globalização, liberalismo, lugar, Mundo, Santarém | 0 Comments
Introdução ao tema da globalização
Muito tenho escrito neste lugar em torno do "lugar" mas nada disse, ainda, sobre globalização.
Tudo começa no corpo, muito ante de nascermos: o corpo é o nosso primeiro lugar.
Assim que o aprendemos, começamos a explorar outros lugares. Escadotes, cadeiras, portões, vidraças, máquinas de costura são alguns dos objectos que povoam os nossos lugares. Que utilizamos com frequência.
São os nossos lugares-comuns.
Com o passar do tempo tornam-se invisíveis, raramente olhamos para eles; e, quando olhamos, não os vemos. Só olhando nova e fixamente para eles, o que só é possível pela escrita, os voltamos a ver e a compreendê-los na sua intimidade. Humanos gostamos pouco do vulgar, do comum, do habitual. Estamos ávidos da moda e das novidades dos anúncios publicitários, ansiosos pelas notícias dos telejornais.
Porém os gatos interrogam-se sobre os lugares humanos, são curiosos.
Usando o verbo, e a interna oposição símbolo-diabo, criamos os lugares. Sobretudo aqueles lugares que parecem estar para além de nós, do nosso corpo e da natureza. Arranjámos vários nomes para convocar esses lugares do além: o espírito, a cultura, as crenças, o sagrado, eu sei lá. Depois, criámos os deuses para os povoar. Mas, os deuses ganharam vida própria e acabaram eles próprios por ordenar os nossos lugares. Humanizaram-se, tornaram-se pessoas como nós, movidos por paixões, ciúmes, invejas, e destruíram-se uns aos outros, utilizando os humanos como carne para canhão. Os vencedores acabaram por invejar o nosso corpo e incarnaram a natureza humana.
A verdade primitiva é a verdade de cada lugar. É a claridade do afecto que ilumina cada lugar na partilha humana. Com a revolta dos deuses e a usurpação do poder pelo deus judeu a verdade foi erradicada dos lugares pelo olho divino e desviada para o não-lugar fundamental: o ab-soluto.
A Mátria é o lugar de origem dos humanos, o lugar de onde cada um de nós provém. A nossa mátria é a Língua Portuguesa que está convocada a ser o nosso destino: o 5º império, o lugar do encontro universal dos povos.
Querem-nos fazer acreditar agora que chegámos ao fim da história. Afinal andávamos todos enganados. O que havia para descobrir está descoberto: é a Lógica do Mercado. Deixem o mercado funcionar e seremos todos homens livres trocando o que oferecemos pelo que procuramos. Tudo funciona equilibradamente guiado pela grande Mão Oculta. O Estado, o público, ou outros crimes contra a livre concorrência, têm os seus dias contados: a fusão das tecnologias da informação com as telecomunicações, a nanotecnologia e as outras tecnoquaisquercoisas permitem a livre circulação de informação e a comunicação permanente e síncrona de todos com todos. As matérias-primas, a mão-de-obra, os capitais, a informação estão à distância de um clique. Estamos todos em todos os lugares ao mesmo tempo: a globalização.
Lembram-se daquele jogo com casas vermelhas e hotéis verdes que corriam, movidos por dois dados, entre a casa da partida e a prisão? É assim a globalização dos nossos dias. Um conjunto de operadores olha para o mercado cá de cima, lança os dados: "Um, dois, três, quatro, cinco". "Compro 300 mulheres, por 30 doses de branca". "Queres desipotecar essas duzentas crianças? Dou-te um carro anfíbio, um lança mísseis e 100 kalashnicovas". "Tire uma carta da sorte: Saiu-lhe um político corrupto. Avance até à casa da partida sem passar pela prisão". E as notas passam de mão em mão. Até haver um único senhor do mundo. Como aconteceu com os deuses!
A posição que defendo é que não começou agora a globalização. Esta que nos apregoam é o canto de cisne da globalização genuína que se iniciou no final da idade média e que se caracterizou pelas Descobertas. A que agora se estabelece é o começo de uma nova Idade Média. Que será mesmo uma Idade das Trevas.
5/10/2008 06:04:00 da tarde | Etiquetas: gatos, globalização, lugares comuns, Mátria | 3 Comments
A verdade
Diz-se que uma coisa é verdadeira ou que não é falsa. Quando se fala de coisas, verdadeiro opõe-se a falso; quando se fala de pessoas, opomos pessoas sinceras a pessoas mentirosas: as pessoas sinceras dizem quase sempre a verdade; as pessoas mentirosas estão preferentemente inclinadas a dizer a mentira. É neste sentido que dizemos que uma pessoa é verdadeira ou é falsa, conforme o que ela diz contém o verdadeiro ou o falso. Nas pessoas, o verdadeiro e o falso são propriedades do seu dizer. E que dizer das coisas? O rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado, ponto final! Não é que não possa dizer mais coisas sobre o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado... Na realidade, posso dizer uma infinidade de coisas mais, mas o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é o que é, e tudo o mais que eu possa dizer nada lhe acrescenta ou altera a sua realidade.A realidade das coisas é como um fardo que tivessem recebido por herança à nascença. As coisas são o que são, nem verdadeiras nem falsas.
Poderão argumentar que o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado é falso, ou porque a luzinha não pisca, por falta de pilhas, ou porque não está à direita do teclado, o que acontece geralmente às segundas feiras porque as senhoras da empresa de limpezas o consideram fora do sítio e o metem sobre uma prateleira de um das estantes do escritório ao lado de outros bibelôs, a miniatura da torre Eiffel, um buda pançudo em jaspe, umas bonecas russas com turbantes variados, o Lampião e a Maria Bonita, uns jagunços de barro lá do sertão no Nordeste brasileiro. Será que o rato sabe disso? A sua factualidade depende dessa mudança? Não. O rato não deixa de ser o que era, o que é e o que sempre será. O que altera é a correcção daquilo que eu digo sobre o meu rato. Se eu mudo o rato da direita para a esquerda, então devo dizer o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à esquerda do meu teclado para que a minha frase esteja mais de acordo com a realidade tal como eu a percepciono. Uma vez mais, verdadeiro e falso têm a ver com as coisas que eu digo.
Os lógicos sempre disseram que o verdadeiro e o falso respeitam à proposição. Se uma proposição é verdadeira, a proposição que se obtém através da sua negação é falsa. E vice-versa. O verdadeiro e o falso são valores lógicos. Com bases nas proposições, nas operações lógicas (como a negação) e nos dois valores – ponho agora de lado a questão mais complexa das lógicas multimodais – pode construir-se uma álgebra proposicional que nos permite obter conclusões verdadeiras com base em raciocínios formalmente correctos. É esta álgebra que está agora a pôr o meu computador a funcionar. Rezo todos os dias para que ele continue subordinado a esse poder e para que não seja possuído por uns espíritos malfazejos que o põem muitas vezes a desconseguir.
Mas o que me garante que uma proposição inicial - ou seja uma proposição que não é inferida seguramente de outras proposições verdadeiras - é verdadeira, que está conforme com a realidade? Por exemplo, como posso certificar-me que o rato sem fios está a piscar uma luzinha vermelha e que se encontra à direita do meu teclado? E como posso também certificar os outros a quem digo ou escrevo que o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à direita do meu teclado?
Para atalhar razões e poupar tempo ao leitor digamos simplesmente tratar-se de um processo de verificação. Quando olho para o rato, vejo-o a piscar uma luzinha vermelha e vejo-o situado à direita do meu teclado. Parece que disse tudo, não é? Nada mais errado!
Referi-me a dois processos perceptivos: um activo, o olhar; o outro passivo, o ver.
O rato está permanentemente sob a alçada da minha visão, mas realmente só o vejo quando o procuro, quando olho para ele. Por outras palavras, ver não é um processo neutro, é um processo influenciado por uma intencionalidade, por um querer ver interessado. As pessoas vêem o que querem e não vêem o que não querem. Como diz o ditado, mais cego é o que não quer ver...
Para chegar à verificação da verdade de uma proposição dependo da sinceridade, da honestidade da minha procura. Mas não só. Sabemos que a visão pode ser distorcida por factores pessoais e ambientais: pelo meu estado mental que, em desequilíbrio, pode provocar delírios e alucinações; por condições ópticas particulares do ambiente que podem induzir ilusões.
Para começar, o observador que descreve a realidade que observa deveria estar certificado por entidade idónea e competente, digamos o Colégio da Especialidade de Psiquiatria da Ordem dos Médicos, em como o seu estatuto mental se encontra devidamente balizado entre os parâmetros da normalidade. E não chega: carece também de um controlo rigoroso dos eventos que antecederam a observação não vá esta ser perturbada pela ingestão de alcool, tabaco, estimulantes ou estupefacientes de qualquer natureza. Toda a gente sabe até que ponto um incómodo físico - a flatulência, um enxaqueca ou uma dor de dentes – basta para distrair o intelecto e produzir uma má percepção da realidade.
Mas devemos munirmo-nos ainda de mais cuidados. As histórias das miragens no deserto não são tretas para entreter a imaginação dos sedentários urbanos. Ainda há pouco tempo, em pleno deserto, viajando de burro de Ash Shati para Ubari (Awbari) pude ver os verdejantes prados que se perfilavam à minha frente cheios de canas de milho alinhadas como soldados numa parada, como na levada do meu avô materno na Beira, e as verdes hortas rodeadas de palmeiras e de poços com noras tão comuns na minha memória das qvintas de Bemfica no início dos annos cincoenta. A circunstância completa de quem observa deve ser completamente descrita em protocolo e apensa aos registos da observação. Como num tribunal, as circunstâncias agravam ou atenuam os delitos de observação.
Procura-se muitas vezes compensar o enviesamento pessoal recorrendo a uma multiplicidade de testemunhos: a objectividade resultaria da intersubjectividade dos vários sujeitos da observação. Se dispuséssemos de tempo suficiente, digamos de um tempo infinito, poderíamos discutir as nossas divergências resultantes do ponto de vista particular de cada um dos observadores até obter um consenso generalizado sobre um discurso que descrevesse com perfeição o objecto da nossa percepção. Esse discurso seria verdadeiro.
O desgaste da idade faz-nos apreciar o consenso. Lutas, oposições, pontos de vista são desgastantes. Juntar os inimigos – dizemos, então, os adversários – de antigamente, jogar à sueca e despejar umas loiras, a meio da tarde, só pode ser superado por juntar os adversários de antigamente, cantar uns fadunchos sentimentalões, comer chouriço assado e despejar carrascão aos cântaros pelas goelas abaixo no correr da noite. O consenso é a velhice. Vejamos: o que é estar de acordo? É suprimir os contrários em que discordamos e aceitar as generalidades irrecusáveis. Nada se ganha com as generalidades, tudo se perde na falência dos pormenores.
Uma verdade assim de nada nos serviria. Recordo a minha primeira namorada (que será feito dela?) que me dizia: “Sei que me mentes descaradamente. Mas que me importa, se é bonito!...”. E tinha razão: uma verdade obtida por consenso é uma verdade sem atavios, tão cinzenta quanto um quadro de uma multinacional. Não há como compor a verdade, e isso tem que ser à maneira de cada um. Então, lá se vai a verdade.
Podemos contornar esse obstáculo recorrendo ao olho de deus.
Espantado? Espantada? Não sabe o que é? Receia dar ouvidos a heresiarcas? Acalme-se, não tenha receios: este é, foi e será o processo mais comum e mais aceite de garantir a verdade.
Permitam-me entretanto que perambule um bocadinho até chegar ao olho de deus. Quando andava na catequese em Benfica esforçava-me por ter as lições na ponta da língua para poder ver as projecções de cenas da Bíblia que o padre Proença passava para os melhores catequisandos. Não se riam que não é caso para isso. Conseguem imaginar como seria a vida quando não havia televisão? Sim, não havia televisão! O melhor que um miúdo da minha idade podia desejar era ir duas ou três vezes por ano ao cinema da Av. Gomes Pereira, onde hoje é a sede da Junta de Freguesia, para ver filmes para maiores de 6 anos antecedidos pelos “desanimados”. Para ver o mundo para além da nossa rua era preciso dar corpo e cor aos figurinos e personagens dos romances radiofónicos ou esperar pelo Verão para ir à praia. Então, todo contente, lá ia marcar presença, creio que nas tardes das quintas-feiras, e procurar lugar na primeira fila. As histórias eram maravilhosas: o irmão mau que matava o irmão bom; um homem justo incomodado por deus e pelo diabo, que se conluiavam para lhe matar a família, dissipar a fortuna, e, não contentes, mandavam-lhe chagas com pus que lhe roíam a carne e os ossos; a mulher que fugia da cidade do pecado e que, ao olhar para trás, foi convertida numa estátua de sal; o guerreiro, desgrenhado como um beatle, a quem a mulher, a soldo do inimigo, lhe corta as tranças que lhe davam uma força sobre-humana; o velhote que mete uma data de animais num titanic à prova de tsunamis e fica lá o tempo todo à espera duma pomba que lhe há-de trazer no bico um raminho de oliveira. Histórias maravilhosas que se misturavam com as do Tintin, Mandrake, Mortimer, Tarzan, Zorro, apanhadas à página aos sábados no Mosquito ou no Cavaleiro Andante.
Foi nestas andanças das merecidas projecções das quintas-feiras que me encontrei pela primeira vez frente ao olho de deus. Imaginem um cenário qualquer, uma cena bíblica, deus a entregar as tábuas da lei a Moisés. Deus não está lá em pessoa. Vê-se uma nuvem espessa, tipo uma nimbus rechonchuda e, a espreitar lá por detrás, um triângulo isósceles com um olho incrustado que faísca raios dirigidos para a cena humana: o olho de deus.
O olho de deus é como um bird’s eye view que tudo vê lá de cima. Se estou aqui frente ao monitor, o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha aparece-me à direita do meu teclado. O Gervásio, quando está à minha frente a querer que lhe dê atenção e lhe explique um ou outro pormenor de não sei o que escrevi há não sei quanto tempo, dir-me-á que vê o rato sem fios a piscar uma luzinha vermelha à esquerda do meu teclado. E assim se dá uma inversão de posições, explicada por uma diversa perspectiva, geradora, noutros casos, claro, de guerras e genocídios terríveis. O olho de deus não é assim, não tem perspectiva: tudo o que vê, vê de uma maneira absoluta. As coisas aparecem na sua infinitude no espaço e no tempo.
E há mais. À abrangência acresce a penetratividade: o olho de deus tudo penetra – o corpo, a alma, o espírito, a mente, a consciência. Deus está sempre a espreitar no mais íntimo de nós e a pesar comportamentos, palavras e pensamentos, opondo os bons aos maus, escrevendo-os no Deve e no Haver do céu para ajustar contas após a nossa partida. Como tudo é visível à luz do olho de deus, a verdade é o que deus vê. O melhor que o homem pode fazer para descobrir a verdade é empoleirar-se algures num recôndito do crânio divino e experimentar olhar através do seu olho. A verdade existe e é objectiva: são as projecções no olho de deus.
Aristóteles, Tomás de Aquino e Ratzinger procuram convencer que o ser o humano é particularmente dotado para descobrir a “Verdade” porque há algo nele, um lumen naturale, que é parte da ocularidade divina. Essa luz interna (intellectus, do latim intus + legere) que nos permite “ler dentro” das coisas permite-nos chegar à “Verdade” desde que amparada pelas escrituras, a tradição e o magistério da igreja
católica-romana. E para que todas leiam da mesma maneira há o dogma e a infalibilidade papal. Há também a santa inquisição e a fogueira onde ardem todas as mentiras.
Não é porém a Verdade propriedade exclusiva dos romanos católicos. Hitler, Salazar, Estaline, entre outros, defenderam à sua maneira a Verdade. E tiveram ao seu serviço instrumentos e tecnologia, com mais ou menos ponta, para induzir ou extrair a verdade. O marketing, a publicidade e os meios de comunicação social são os meios utilizados hoje para defender e propagar a Verdade do capitalismo global (“a sociedade de mercado num mundo globalizado”).
“O que é a verdade?”, pergunta o prefeito ao mensageiro da Verdade divina. O evangelho de João não nos dá a resposta.
E se toda realidade fosse uma obra criativa, um romance que vai sendo criado a cada momento ao sabor da inspiração divina? O problema da verdade não se punha e a pergunta de Pilatos, personagem focal deste romance policial, ou romance de série negra, seria: “O que é a realidade?”.
Os gregos deram à verdade o nome de aletheia que, em português, soa a “des-vendamento”. Para eles, verdade é tirar a venda à realidade, é des-cobrir, pôr a realidade a nu. Como isso se faz e o que daí se obtém só o sabemos pelo que eles fizeram: demolindo mitos, pondo todas as verdades à prova, inquirindo, experimentando e testando soluções novas, pondo o dedo nas feridas humanas, incomodando os deuses, desafiando o destino.
É errar, é perder-se e reencontrar-se. Sem poupar esforços. Sem fim à vista.
Os divinos gregos retrataram a verdade na imagem de Sísifo. Para descobrir a verdade, cada um tem que empurrar a sua rocha para o topo da montanha. Só que a verdade não se dá bem com o topo da montanha. Ao atingi-lo, resvala pela vertente abaixo à procura das sombras dos vales.
5/08/2008 06:39:00 da tarde | Etiquetas: coisa (res), deserto, olhar, perdimento / achamento, verdade | 4 Comments
A tentação
O verbo quis ser homem. Pegou num bocado de argila com que recobriu a sua essência. Não soprou lá para dentro porque todo ele era já espírito. Limitou-se a dizer: Eu sou o que sou, sou o Símbolo, o que une as pontas e faz o reconhecimento, o que introduz a convexidade do espírito na concavidade da carne. Com os dedos, premiu as pontas soltas do barro até fundi-las e sentiu-se aprisionado na carne.
O seu irmão Diábolo pegou-lhe então num braço e arrastou-o até ao deserto para o tentar. Se queres ser homem, como os humanos, dissocia. Faz como eu que separei a luz das trevas, o céu da terra, os continentes dos oceanos. E o filho do Eterno respondeu ao filho do Eterno: Eu sou o conceito, não separarei. E sete vezes o irmão o tentou, e sete vezes resistiu. Cansado e amargurado, deixou o deserto e voltou à cidade à procura de mulheres.
E com a mulher que infatigavelmente o desejava pernoitou. Quis tomar-lhe a carne e não sentiu o desejo. E a noite foi uma luta corpo a corpo. Ela exangue e infeliz. Ele suou sangue e, finalmente, sentiu na boca o amargo do fel e do vinagre. E desejou livrar-se do corpo casulo. Como uma crisálida rastejou para fora do sepulcro, bateu asas e subiu ao céu.
4/22/2008 12:03:00 da manhã | Etiquetas: carne, corpo, diábolo, símbolo | 1 Comments
Ser homem é, para deus, uma paixão inútil
Jesus suspirou na cruz, foi sepultado, ressuscitou, passeou-se entre os vivos e subiu ao Céu. Era divino, quis ser humano, um projecto em vão!
Os seres humanos não o querem ser. Pelo menos, não pedem para o ser: são, depois logo se vê.
O corpo é, para o ser humano, o seu lugar imediato. Através do corpo, o ser humano sente, conhece o outro, contacta, partilha.
Jesus não se fez corpo, dizem as escrituras que fez-se carne. E assegura-o o Credo de Niceia: incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine.
Carne entra naquela categoria onde alinham também o peixe, as aves e a caça. É uma categoria alimentar cuja totalidade pode ser igualmente expressa pelo termo carne. Os que comem carne nesta genérica acepção dizem-se carnívoros. O Verbo fez-se carne, e não corpo. Na Última Ceia, Jesus diz: tomai deste pão, ele é a minha carne; tomai deste vinho, ele é o meu sangue. Está errada a tradução que põe na boca do Verbo incarnado as palavras hoc est corpus meum; a tradução correcta seria haec est car mea.
Na realidade, Cristo dá a sua carne a comer aos discípulos antes que esta seja entregue ao vermes. A carne é corruptível. Ou é consumida ou apodrece. Pode permanecer conservada longos períodos em regime de crioconservação porque o frio retarda, não os impedindo, os processos de degeneração. Se se acredita, como fazem os cristãos (credo [...] in carnis ressurrectionem) é na ressurreição da carne, não da ressurreição do corpo.
Para um ser bem terreno, o ser humano, o lugar da carne – como o do sangue - é o corpo, o prato, o frigorífico ou o cemitério. Nenhum destes lugares conveio à carne do divino encarnado. O único lugar encontrado com os requisitos aceitáveis foi o Céu. E lá foi a carne toda para o Céu. Ressuscitada e ascendida.
Teria o pénis de Jesus ido direitinho para o Céu? Sobre estas matérias não há como recorrer aos especialistas.
O teólogo seiscentista Leo Allatius (1586-1669), protegido de Gregório XV e guardião da Biblioteca do Vaticano, para além de ser o primeiro grande especialista em matéria de vampiros, foi também o autor de De Praeputio Domini Nostri Jesu Christi Diatriba obra fundamental que dirimiu, de uma vez por todas a controvérsia a respeito do local onde se encontrava o prepúcio de Jesus.
Tal controvérsia teve um grande impacte na Cristandade desde os seus primórdios. Sendo o Cristo judeu, foi circuncidado com oito dias de vida como mandava a lei mosaica. A circuncisão, ou mais correctamente a peritomia, consiste na remoção do prepúcio, a prega cutânea que cobre a glande do pénis. Entre os judeus, os bebés do sexo masculino eram circumcidados pelo chefe da família no oitavo dia de vida, em que o circunciso recebia também o nome, por se considerar essa a altura em que a excisão do prepúcio provocava uma menor hemorragia.
Onde foi então parar o prepúcio de Jesus? Teria sido enterrado como era hábito? Quando e como se reuniu aos restantes pedaços de carne ascendidos ao Céu? Teria ficado para trás, abandonado e esquecido? Diz-nos o Leo no De praeputio que também subiu aos Céus e que se teria transformado nos anéis de Saturno.
Mais estranho é o paradeiro de parte do seu sangue. Na pressa de retirar os sentenciados da cruz para anteceder os rituais funerários proibidos aos sábados, ou de modo a provocar a morte imediata, para lhes encurtar a lenta agonia, era costume rogar ao procurador romano a autorização para quebrar as pernas aos crucificados. No caso de Jesus não foi necessário por este já ter rendido o espírito ao seu divino Pai. À cautela, um dos soldados trespassou-lhe um dos lados, de onde jorrou sangue e água. Diz a lenda que José de Arimateia recolheu o precioso líquido no próprio cálice em que Jesus deu vinho a beber aos seus apóstolos dizendo-lhes bebei, este é o meu sangue. E que, mais tarde, teria levado o cálice (Graal, provavelmente do latim gradalis) para a Bretanha e guardado num esconderijo secreto para só ser descoberto por homens castos. Mas isto já são lendas para outras oportunidades.
Carne e sangue são pedaços de um corpo inabitado sujeitos a mutilação e dispersão no espaço e no tempo.
O corpo não tem espaço nem tempo. O corpo é Lugar e Época. O corpo é a história que nós criamos no lugar a que chamamos Vida. Que tem o epílogo na Memória.
4/14/2008 04:42:00 da tarde | Etiquetas: carne, circuncisão, corpo, época, Graal, Jesus, José de Arimateia, prepúcio, ressureição | 9 Comments
Nova actualização do poste "O Corpo e o Lugar"
O ensaio "O Corpo e o Lugar" encontra-se actualmente estruturado em 3 temas, designadamente “O Corpo”, “Os Lugares” e “O lugar do não-lugar, ou A nova ordem de lugares”.
A presente versão estrutura o primeiro tema “O Corpo” decompondo-o em 4 itens e desenvolvendo os três novos últimos itens.
Os novos itens deste tema são:
1.1. O corpo enquanto lugar
1.2. O corpo enquanto lugar da experiência dos lugares
1.3. Os lugares periféricos do corpo
1.4. A inclusividade dos lugares
Ver a 4ª versão.
3/23/2008 07:16:00 da tarde | | 6 Comments
Umas palavras de aditamento às palavras do Gervásio
O pragmatismo sanchopancesco do Gervásio permite-lhe conceber e descrever a minha travessia do deserto como uma travessia de lugares comuns que, por erro e perdimento, me teria levado ao deserto. É a sua versão, que, creio, satisfará a maioria dos nossos leitores. A minha versão, que assenta no intento do meu projecto, é outra: a necessidade de me perder dos lugares comuns para, finalmente, me encontrar no deserto, me achar no lugar do despojamento.
Neste particular, o Gervásio não argumenta; ralha e tenta dissuadir - como se pôr a saúde em risco não é o que fazemos quando quotidianamente comemos ou respiramos na nossa cidade. Uns grauzitos a mais na temperatura corporal e uma estranha virose nas ramificações pulmonares são parte da circunstância das nossas existências. Mas isso já lá vai!
Como estive ausente, devo a um ror de gente agradecimentos pelos votos de um bom Natal, de umas boas passagens e, agora, de boas Páscoas. Para quem, como eu, não for dado aos rituais cristãos, mas preferir os rituais pagãos da Natureza Mãe, transformo esses votos nas boas passagens do Solstício passado e, agora, do Equinócio da Primavera.
Vou prometer não importunar mais o meu bom Gervásio, esse bom coração romanticamente monárquico, agora tão ocupado e importante com as celebrações da ida da Corte para o Brasil.
3/20/2008 10:48:00 da tarde | Etiquetas: deserto, Equinócio, lugares comuns, Natal, Páscoa, perdimento / achamento, Solstício | 4 Comments
O regresso de Perdido
Perdido voltou, está aí. Não diria, propriamente, que Perdido voltou a estar connosco. Pelo contrário, é mais correcto dizer (em termos perdidianos) que voltámos a estar com Perdido.
Do seu perdimento e achamento não irei ocupar-me agora. Para mitigar o sofrimento das almas mais sensíveis resumirei a sua trajectória a umas poucas palavras: Perdido viajou até ao Norte do País, embrenhou-se por montes e vales à mercê das intempéries, atravessou Espanha de Norte para Sul (Picos da Europa, meseta, Andaluzia) e passou pelo Mediterrâneo para o Norte de África desaparecendo no deserto sariano. Foi encontrado numa aldeia remota da Líbia em deplorável estado de saúde, sem noção de si, do sítio onde estava ou de como chegara aí.
Depois da estadia de cerca de um mês e meio de hospitalização e cuidados continuados, encontra-se completamente restabelecido e no meio de nós. Ou melhor, nós com ele no nosso meio.
3/20/2008 10:27:00 da tarde | Etiquetas: perdimento / achamento | 1 Comments
Este lugar é meu: se não fosse meu, não seria lugar.
Reivindico. Rei, vindico! Ego vindicator. Res, rei: res privata, res publica.
3/14/2008 11:34:00 da tarde | Etiquetas: coisa (res) | 2 Comments
O estranho lugar que é um portão
Publico agora um escrito de Perdido que tinha começado a preparar antes de nos deixar. Não sei ao certo se o autor o tinha por concluído ou se era um esboço para rever. Todavia, antes da sua partida, pediu-me que o publicasse no caso de não regressar nos próximos quinzes dias.
Eis o texto:
O estranho lugar que é um portão
Que estranho lugar é um portão. Passo o portão e entro, estou no outro lado; passo novamente o portão e saio, estou no outro lado. É um lugar por onde se passa para entrar e onde se passa para sair. Para o portão é indiferente, se se sai, ou se se entra. Para isso era preciso ter a noção de dentro e fora, ora os portões não têm noções. E o dentro e o fora não existem na realidade, somos nós que falamos assim acerca dos lugares.
O que é estranho no portão é ser um lugar onde não se pode estar. Isso é uma coisa deveras intrigante.
O Egas Moniz deu a vida para o descobrir.
11/30/2007 02:51:00 da manhã | Etiquetas: dentro / fora, Egas Moniz, lugar, portão | 6 Comments
Textos de Perdido
Eis pois agora a oportunidade de publicar os textos de Perdido após rigorosa selecção.
O texto agora apresentado cataloguei-o como anexo ao Ensaio sobre o Lugar.
Perdido escreveu vários textos a explorar a natureza do lugar: não são textos expositivos, pois não esclarecem ideias ou significações, não aduzem argumentos, não perfilam um ponto de vista a defender ou a atacar. São o que chamava “perambulações”, passeios quase obsessivos à volta de um lugar.
Nas suas brilhantes dissertações nos seus “serões de aldeia”, Perdido perdia-se a divagar sobre lugares, caminhos, partidas e chegadas.
Seguia à letra a ideia de que um caminho só se dá a conhecer “pela queima anaeróbica de açúcar nas miofibrilhas dos membros inferiores”, ou seja pelas dores na barriga das pernas. Nevasse ou gelasse lá fora, fazia as caminhadas, em substituição, no seu imaginário a custo de palavras. Nós seguíamo-lo na peugada.
Era como desembrulhar os nós de um novelo de lã usado nas brincadeiras do Bolinha e do Ratito. Sabíamos que o esforço valia a pena ao ver o novelo finalmente desnovelado.
O texto agora apresentado coloca a questão difícil de como relacionar um mundo interno, subjectivo, o mundo do Eu definido pelo pensamento, com uma externalidade objectiva, a Natureza, os Outros, o Além, de acordo com uma problemática dos antigos gregos, ressuscitada por Descartes com a noção de Coisa, a casa de espelhos partidos onde se reflectem o pensamento a extensão e a infinidade.
Perdido desconfia que Descartes não fala de Coisa (res) mas de Causa e que é necessário que se repense a problemática iniciada pelo Cogito a partir de uma experiência comum a seres humanos e a gatos, a experiência dos lugares.
Ao experimentar lugares relacionados, Perdido concluía, geralmente, que as pontes genuínas são uma mistura de ausências e presenças invisíveis. A essa re-ligação chamava Perdido a natureza verdadeira da Religião (re-ligatio).
Pena é não termos Perdido connosco para ajuizar do nosso esforço de interpretação.
Perdido encontra-se desaparecido desde o passado dia dez. Registámos que se encontra de boa disposição a ajuizar pelos artigos publicados depois dessa data, estando ele algures. Porém, depois disso já passou mais tempo do que gostaríamos.
Foi-se embora sem despedidas, dizendo apenas que ia acampar e explorar as montanhas e os rios de Trás-os-Montes. Levou consigo pouca coisa: fazia-se acompanhar do seu inseparável kit de sobrevivência. Preocupa-nos o facto de ainda não nos ter contactado, bem como sabermos ter deixado para trás todos os cartões bancários, telemóveis e medicamentos para a hipertensão. Que o seu anjo da guarda o acompanhe e o traga cedo para casa, para junto da família e dos amigos. As autoridades já foram devidamente alertadas.
Gervásio Leonel.
O exterior, a ausência inquietante do som e a presença do invisível
Ponho-me em bicos dos pés: nada vejo! À volta nada de útil a não ser uma velha cadeira desdobrável. Vou buscá-la. Tem uns oitenta centímetros de altura e um ar frágil embora a madeira, de pinho, ainda aparente uma suficiente robustez. Robustez é um termo demasiado forte, claro, porque só convém ao carvalho, o velho robur; é preferível dizer solidez! Desdobro-a não sem antes ter hesitado no tipo de operação a realizar. Basicamente é constituída por três peças que se justapõem ao fechar. Para abrir, uma das peças, a de maior comprimento que servirá de espaldar e de pés dianteiros, deve ficar hirta, erecta na perpendicular; as outras duas peças deslizam solidárias após empurrar uma delas, a inferior abrindo-se para formar os pés traseiros em perpendicular com a peça grande, que agora desliza um tudo-nada para a frente no sentido oposto, a superior que retoma a horizontalidade para formar o assento. Uma cadeira é uma coisa útil, serve para uma pessoa se sentar. É evidente que estamos sempre a dar utilidades novas às coisas úteis: uma cadeira pode servir de pequeno escadote para trepar a uma altura não muito elevada. Não o fazemos mais vezes por decoro: porquê pôr os pés, que andam no chão, num sítio onde normalmente nos sentamos? O assento é uma coisa sagrada, que não pode ser conspurcada: quer se trate do assento lugar do nosso corpo, quer se trate do assento lugar da cadeira. O assento é o lugar do poder e do privilégio: é o trono do monarca, a sede (Sé) do bispo, a cátedra do universitário. O assento é o lugar da morte e da ressurreição: é a “cadeira eléctrica”, é a cadeira do Salazar, é o sentar-se à direita ou à esquerda do Cristo, na Última Ceia, ou do Deus Padre, no Paraíso Celestial. O assento e o lugar são termos quase intermutáveis: quando pedimos para nos reservar sete lugares no restaurante, ou no avião, ou no teatro, no fundo, muito no fundo, estamos a pedir que nos reservem sete assentos. É certo que podem restar só lugares em pé – trata-se, todavia, de lugares de importância reduzida, que nos amesquinham e nos lembram que estamos sempre a ser relegados para uma casta inferior, a tornarmo-nos pessoas de segunda como negros num Apartheid. Mas pôr um pezinho é coisa a que às vezes nos atrevemos. Não se trata de “pôr a pata em cima”, acto de uma extrema brutalidade, de uma rudeza de bárbaros com tranças e bigodes lanudos. É só pôr um pezinho! O outro vem atrás, de mansinho. E, se está alguém a ver, até tiramos os sapatos por reverência. Não é o meu caso, estou descalço e tenho que subir. Pôr-me em bicos dos pés não resulta: nada vejo!
Monto-me finalmente na cadeira de pinho, que até nem está desengonçada; além de sólida, é firme. Serve perfeitamente para os meus propósitos. Alongo a coluna como vi fazer aos gatos, estiro o pescoço em curva na direcção da janela e espreito.
Um jorro de luz intensa obriga-me a semicerrar as pálpebras. É pleno dia, concluo. Do outro lado, paredes brancas, nuas, intensas, reflectem. Como a Lua, cogito. A luz reparte-se de igual por todos os cantos do quadro; as sombras não obedecem a perspectivas, são planas, são como que luz recatada, meditativa, ensimesmada. Não há pessoas, não vagabundeiam gatos nem cães, nas árvores alinhadas não cintilam as folhas prateadas por cair, nem revolteiam folhas já caídas ou a cair. Pressinto uma falta. Será que se pode pressentir uma falta? Que uma falta ainda não é enquanto não se descobre o que falta? Ou devo dizer: sinto uma falta. Como se a falta fosse já actual e positiva, um absoluto, e não a ausência de qualquer coisa que ali viesse a ser colocada num instante intemporal para ser, no mesmo instante, negada. A falta é o lugar do desaparecimento, da ausência, do abandono. Reflicto nisto enquanto dou voltas aos meus pensamentos. O que deveria estar ali e não está? Desisto de olhar, os objectos não nos aparecem por varrermos os lugares. É como a memória que queremos dizer e não podemos porque a temos debaixo da língua. O melhor é não insistir, pensar noutra coisa. A memória voltará quanto menos se espera.
Desço a cadeira, cansado da tensão muscular, e sento-me. No quarto semi-iluminado não há nada a não ser a cadeira, o meu corpo e a janela. Há pouco estávamos os três em processão – a cadeira, eu, a janela, numa continuidade que ia do interior para o exterior. Agora, a janela está lá em cima a advertir-nos que há algo lá fora, que esse algo se revela numa luz intensa e que, todavia, outro algo falta também. Nós, o meu corpo e a cadeira, cá em baixo, numa comunhão de assentos. “Nós” que termo interessante, reflicto, plural da primeira pessoa do pronome pessoal no caso nominativo. Este termo, “nós”, faz do meu corpo e da cadeira um colectivo pessoal: o meu corpo-pessoa, a minha cadeira-pessoa. “Nós” é um círculo num diagrama de Venn que mete lá dentro duas pessoas. Pessoa, personna, “o que repercute o som”. No teatro e na vida social, aos lugares que repercutem o som chamamos personagens. As personagens desempenham papéis que alguém escreveu para eles e proferem frases. Dizem aquilo que se espera que digam, de acordo com o seu papel e estatuto. Portanto, estamos aqui duas personagens, a minha cadeira e o meu corpo unidos pelos respectivos assentos, desempenhando, melhor ou pior, não sei que papéis, sabendo que algum som perpassa por nós.
… perpassa por nós. Perpassa o quê? É isso, é isso mesmo, é o som, era o som que faltava lá fora!
Levantei-me, ajeitei a cadeira que encostei à parede do quarto, alcei-me em direcção à janela, aparelhei as orelhas e escutei: era o som, ou melhor a falta do som… que estava ali, sempre estivera ali, até de me dar conta da sua presença como falta, de me dar conta da não presença do som.
Lá confirmei as paredes brancas, a luz tépida das sombras, o imobilismo das árvores de copas projectadas no azul intenso do céu. Não, não se ouvia nada. Apenas um cenário de filme mudo. Um mundo luminoso mas impessoal, sem máscaras. Algo não batia certo: onde há movimento, há vibrações acústicas que o cérebro interpreta na forma de sons. De certo que não havia ensurdecido, assim, de um momento para o outro. Para o confirmar até comecei a assobiar, mandei para o ar duas ou três palavras. Primeiro, daquelas que são certinhas, com certificado de qualidade e apólice de seguradora, que não ferem a sensibilidade das senhoras de idade e classe médias, que não despertam a mórbida curiosidade da polícia secreta, dos espiões e demais profissionais da escuta; depois, não fossem estas palavras, vagamente ciciadas, das que não são ouvidas por ouvidos de pessoas sérias e honestas – porque o autêntico ouvir não está no deixar entrar mas no atender o que entrou – comecei a usar termos grossos, dos que são atribuídos aos camionistas e aos trolhas, dos que são usados pelas mulheres ditas de má vida para estimular a cupidez dos clientes, proferidas com articulação pausada e sonora, que atravessam o espaço e vão perturbar no céu a concentração dos escribas que anotam os nossos pecadilhos no livro do juízo final. Não precisei, porém de mais testes para me certificar de que não estava surdo, que não estava em mim a razão por que não ouvia o som lá de fora. Simplesmente, se não ouvia era porque, ou o som não estava lá, ou algo impedia que chegasse até mim.
Se um percurso é interrompido pensamos automaticamente num obstáculo.
Sabemos que não é assim com a nossa vida: será interrompida e pronto! Pelo menos julgamos que será assim, porque deduzimos de outros casos que já presenciámos no passado. No meu passado há muitas mortes e poucas interrupções de vida. As mortes são notícias do obituário, uma página especial dos jornais, ao lado das notícias da política, do trabalho, da economia, da vida mundana, do desporto e de outras veleidades. Às vezes são notícias centenárias que nos lembram existências passadas de santos e heróis, de bandidos e cobardes. Mas estas não vêm ao caso para o fim dos meus raciocínios: não falam nunca das pessoas comuns, pessoas como a gente. Interrupções de vida, que eu registasse, houve poucas: a do Rui, filado pela droga e posteriormente internado em instituição psiquiátrica, aprendeu aí o gosto pelo álcool e morreu hepático; a do Luís, regressado da Alemanha com muita idade a trabalhar no duro, sempre disposto a uma história interessante, um dia chegou cedo ao trabalho, bebeu uma cerveja fresca e passou-se; a do Zé, de quem fiz meu amigo no dia em que o conheci, que na semana seguinte sentiu uns pequenos tremores na pele das mãos e, passado um ano, estava completamente imobilizado, respirando a pequenos tragos o ar, até que os músculos da garganta se cerraram inertes garroteando-o; a do pai que, nunca bebera uma gota de álcool, se deixou afogar nas águas insalubres do Tejo; a de outro Zé que conheci também no trabalho uma semana antes de se lhe partir o cordão umbilical com a vida, a esforçar-se até à última em preito de fidelidade a uma multinacional canina; a da engenheira Palmira, pessoa de afecto e merecedora de muito respeito, mas não respeitada pela vida que a ceifou prematuramente e sem negociação nem aviso prévio; a da madrinha Leninha, minha companheira dos passos que ensaiei em primeiro lugar, a mediadora entre a minha inexperiente infância e a maturidade distante dos meus mais velhos. Os outros casos foram casos de morte, como o dos avós que iam, um após outro, ano após ano, denunciando o contrato com a vida; como o dos camaradas abatidos em África, surpreendidos pela ceifeira fora do seu tempo e do seu espaço. A maioria dos casos era de mortes normais prognosticadas em todas as tabelas actuariais.
Tirando o caso da vida, que pode ser interrompida sem mais, sem algo a estorvar o seu percurso, qualquer outro percurso só poderá interrompido pela interposição de um obstáculo. Não estando surdo, por que é que o som não chegava até mim? Onde estava o obstáculo que o impedia? Olhei outra vez: o quadro permanecia o mesmo, inalterado na sua composição e qualidades, diria até que parecia uma fotografia, um poster como os que os adolescentes colam nas paredes dos seus quartos, que estava ali a tapar a janela para impedir que visse o lado de lá.
Deixei-me, por momentos, ceder à tentação do cepticismo. Haveria mesmo um lugar habitável para além do meu quarto, conforme me mostrava a minha janela? Ou seria a janela apenas um poster de quarto de adolescente, ali pegado à parede por aquela espécie de plasticina azul que se mete em cada canto e um pedaço no meio para o colar à parede, ou arrancar se for preciso?
Cheguei-me à frente movido pela curiosidade, pelo cansaço, pela aura de uma claustrofobia iminente. Senti o nariz a esborrachar-se e a regelar e uma mancha leitosa provocada pela expiração do ar quente toldou-me a percepção das paredes brancas intensamente iluminadas, das árvores e das sombras semidespertas. Registava ali uma aparição inaparente, uma barreira anti-som, uma visão camuflada, uma presença ausente: era o vidro.
Queremos ver e não vemos porque está à frente dos nossos olhos. É um vidro numa janela, ou numa porta contra a qual esbarramos, ou as lentes dos nossos próprios óculos. Com a manga da camisola esfreguei a vidraça até não restar uma pinga de vapor. Só lá ficaram uns filamentos de lã enovelados a uma esquina da janela. O branco retomou a sua alvura, o sol a sua luminosidade, as árvores a sua quietude. Presumi o som que continuou a ser desautorizado pelo vidro. Fiz uma soma a giz no quadro negro do meu cérebro e inscrevi por baixo daquele quadro a seguinte legenda: “O exterior, a ausência inquietante do som e a presença do invisível”.
11/25/2007 05:52:00 da tarde | Etiquetas: cadeira, casa, coisa (res), dentro / fora, Descartes, exploração, janela, Lua, morte, pessoa (personna), silêncio | 2 Comments
Actualização do poste "O Corpo e o Lugar"
Ver a 3ª versão deste "poste".
11/15/2007 07:33:00 da tarde | | 2 Comments
O Plano de acção.
Antes de pôr mãos à obra é mister ter um bom plano. Depois, executá-lo rigorosamente.
A separação da globalidade da produção de Perdido em obras clara e distintamente individualizadas é o foco do plano proposto.
Discutimos esse assunto assíduas vezes. Para ele, interessava-lhe “fazer”, quando e como lhe apetecesse, “e passar à frente”. E rematava, autorizando-me: “Se achas diferentemente, faz o que te aprouver. Por mim, tudo bem! …”
Como démarche metodológica, proponho-me iniciar este intento de organização com a produção publicada no Tremontelo, prosseguindo com as obras inéditas em papel e finalizando com a recuperação e transcrição da tradição oral.
À laia de justificação, considero as produções em blogue as suas peças mais terminadas e esmeriladas. Sentia-se muito à vontade no Tremontelo sem o constrangimento de um tema e de um público bem definido e permitia-se a todo o tipo de extravagâncias fazendo o que lhe apetecia, com a extensão e no momento que lhe permitia a sua disponibilidade anímica. “É como no campo, amigo Gervásio. Agora podas os ramos altos das árvores: ficam-te os braços a arder sem sangue nas mãos. A seguir mondas debruçado sobres os canteiros e as leiras: desce-te o sangue aos dedos e à cintura até mais não poderes. No fim, deitas-te no chão e experimentas as carícias do Sol e dos bigodes dos gatos”.
Ao contrário de um livro, o público na blogosfera é anónimo, limitado e directo, podendo o auditório interferir passado um curto instante desde a sua publicação. Perdido gostava muito que interferissem, polemizando. Não o fazendo, fazia-o ele na coisa alheia. Polemizar era um prazer supremo. Como dificilmente encontrava antagonistas, suscitava ódios ou desinteresse e incompreensão. “Vê-me isto, Gervásio. Vêm para aqui com os beijinhos, e mais as queridinhas, e os “ai que beleza, que me tocou no sentimento”, extraíste-me uma nota pungente das cordas do meu coração, e todo o género de marmelada em público e nas barbas da polícia dos costumes. Eu vou lá e digo-lhes: não gostei desta merda. Cai-lhes o verniz e assanham-se como os cães, corporativamente. Gente mole. Onde estão os descendentes das padeiras de Aljubarrota, das patuleias e dos esfola-frades?”. Usava muitas vezes o termo provocação no seu estrito sentido etimológico, “chamamento (ou convocação) para a frente”.
É impossível falarmos de Perdido sem nos dispersarmos. Para ele, “cada frase abre a porta a outra frase” e “às tantas já nem se sabe quantas locomotivas tem a composição”. Voltemos, pois, ao plano definindo os objectivos genéricos:
1. Inventariar o espólio disperso na Internet em sites, grupos, portais, weblogs, comments e chats.
2. Utilizar o espólio da Internet separando-o nas seguintes partes:
- Concentrar e tratar tudo o que respeita às suas ideias teológicas e místicas (O Monoteísmo e os outros monos).
- Reorganizar e concluir o ensaio Sobre o Lugar
- Coligir, comentar e reorganizar os Filosofemas do Bardo
- Coligir e completar com versões inéditas o Bestiário (Conversas com Gatos, Outros Animais)
- Reunir a história do Sítio do Tremontelo
- Organizar os artigos e escritos dispersos sobre saúde, alimentação e vida saudável (Culinária e Bem-estar)
- Reunir em volume separado os Contos do Juvenal
3. Recuperar os escritos mais antigos e integrá-los nas unidades propostas. Criar mais unidades, quando se justificar.
4. Passar ao papel a memória de muitas conversas nos serões de fim-de-semana no Sítio do Tremontelo (“Bebe mais um cartaxito, Leonel - só me apelidava assim quando estava com um grão na asa - bebe, que te ajuda a desorganizar essa baixa pombalina construída no recôncavo do teu crânio.”).
5. Agrupar todos estes escritos em dois volumes – um filosófico e místico, outro “mais ou menos” literário.
6. Estruturar e redigir a sua obra magna, o grande esforço de toda a sua pesquisa, a História Natural da Cultura, obra mais imaginada do que escrita, que “envolve também a análise das bricofichas do AKI como veículo de circulação mimética”, como ele gostava de acrescentar sempre que se falava genericamente desta gigantesca conceptualização darwinista da Cultura.
Ficam por detalhar estes objectivos, definir as macro-tarefas do projecto e estimar os recursos necessários. A metodologia, vamo-la aos poucos refinando.
Espero, desta forma, desempenhar-me bem da espinhosa missão de que fui incumbido.
11/14/2007 11:48:00 da tarde | Etiquetas: Bardo, Bestiário, culinária, Darwin, Juvenal, provocação, Tremontelo | 1 Comments
Obrigado, amigo
É com todo o prazer que assumo a missão que me destinaste. Espero honrar - o mérito me adjuve - o compromisso que acabo lucidamente de assumir.
Não é coisa fácil estar à altura daquele que é, desde há anos, meu orientador e mentor. Mas, como ensinaste, "o apelo da vida é fazer as coisas que ainda não estão feitas".
Dirias a seguir, que ter sucesso ou concluir pelo erro, são apenas fases da caminhada. Que suceder é caminhar e o fracasso é chegar ao fim.
Pois para ti o fim não é o objectivo, é apenas uma paragem absurda.
11/13/2007 09:57:00 da manhã | Etiquetas: caminhar, erro, fracasso, sucesso | 2 Comments
Bem hajas, amigo
Este lugar conta, a partir de hoje, com a dedicada e cordial colaboração do meu amigo de há longa data, Gervásio Leonel.
Dizem-me que sou pouco simpático e directo, sem papas na língua, como a lima rude e amargo, agreste e espinhoso como os simpáticos bichos que abrem galerias no subsolo do Sítio do Tremontelo (que eu nunca vi a não ser esparramados no pavimento da estrada nacional do Cartaxo para Almoster). Calhou ao Gervásio, por ditosa sina, a estrela que de ele fez pessoa afável e cortez no trato, dotando-o a natureza de fina inteligência que lhe permite dissecar as pessoas e as coisas, materiais e imateriais, como uma máquina de cortar fiambre. Não lhe coube por cultura e aquisição devida ao esforço , mesmo que amadora como a minha, a queda para estas coisas da tecnologia. Embora mais novo cerca de uma década, põe-me a zunir feito poste de muito alta tensão, depois a zurrar, quando telefona a meio da noite a perguntar-me coisas incríveis, seja para resolver o problema do browser que não lhe está a responder, ou que tem a memória em baixo, quer outras trivialidades íntimas de qualquer escrevinhador do século presente. Digo-lhe geralmente, e para pôr termo à agonia da conversa, que saia ou volte a entrar, ou, na expressão dos meus confessáveis desejos, que se deite e não se esqueça de acordar amanhã. Pessoa boa como é, ri-se mais por simpatia do que por sentido de humor de que, ao contrário de que julga, está mais despidinho que de roupa no dia em que nasceu. E lá continua a escrever com lápis, esferográfica ou caneta de tinta permanente, que colecciona obsessivamente, como colecciona vinis e outras preciosidades do século pretérito como se, por escassez de idade não o tivesse aproveitado bem, fazendo dele um lugar de retorno e de culto.
Conhecemo-nos há muito tempo, o suficiente para asseverar que é o meu melhor crítico e secretário. Digo "secretário" com a profundeza e a radicalidade da assunção etimológica do termo já que não nos liga qualquer relação profissional. É homem de guardar segredos. É homem também de saber quando e como revelá-los. Sobretudo, é homem de saber como entendê-los. Tem acompanhado, quase desde o início, o desenvolvimento do meu pensamento e da minha escrita de que é fiel curador. A ele devo muitas sugestões, no plano teórico relativas à teorização do "lugar", no plano prático relativas às medidas de preservação da natureza, de utilização racional dos recursos e da reconversão dos resíduos da humana e lixarenta actividade. Ao contrário da minha disposição, a dele encontra-se aberta para a esperança de salvação e redenção da espécie humana. Que se iluda: o mundo para mim está perdido, que eu já me perdi para o mundo há muito na minha vida errante. A ele devo comentários muito pertinentes, chamadas de atenção a apontar-me a realidade, retirando-me da privação com os gatos para o encontro com pessoas de carne e osso, daquelas pessoas que alimentam a sua intriga interior de veleidades sugadas dos átrios traseiros da política, dos balneários do futebol, das revistas da pornografia mundana ou financeira, ou das tristes telenovelas e concursos das nossas áridas televisões. Entedia-se a alma, salva-se o corpo, atestado de Gin de qualidade e sem custos, que fornecer as botelhas é dever de hospitalidade. A ele devo a arrumação, catalogação, completamento e maquilhagem dos meus escritos deixados um pouco por toda a parte, não percebendo porque me retem facturas nas caixas que ele chama do meu espólio, quando deveriam ir direitas para o IRS, só porque lhes deixei umas garatujas geralmente começadas por "não esquecer de...". É um labor apaixonado que não compreendo, mas que integro na sua natural afeição e vício pelas colecções.
Enquanto o Gervásio me apurava a escrita e endireitava os papéis, veio a revelar-se um exímio entendedor do meu pensamento. Digo-lhe muitas vezes que ele o conhece melhor que eu e que vai muito à minha frente. Ri-se, com aquele trejeito que não é de rir, que é puro instinto social. Tenho confiança nele suficiente para o deixar aqui, neste lugar, a publicar os postes em meu nome, ou no dele, que a isso se obriga, avançando no ensaio e na estória que lhe constitui o apêndice. Esta foi objecto já de apendicectomia, residindo agora noutro blogue. Da minha parte resta-me ir tratar das courelas e fazer a dança da chuva que o campo bem precisa.
Ao Gervásio boa sorte. Boa sorte, companheiro.
11/13/2007 08:40:00 da manhã | Etiquetas: Almoster, Cartaxo, colecção, escrita, perdição / esperança, resíduos, tecnologia | 1 Comments

